Estados Unidos e Otan alimentaram sistema afegão de torturas

Washington, Estados Unidos, 02/05/2011 – Desde o final de 2005, as forças dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) enviaram presos para o Diretório Nacional de Segurança Afegão (NDS), mesmo sabendo que seus interrogadores praticavam torturas. Entrevistas com ex-diplomatas, bem como nova informação agora disponível, revelam que Washington e outros governos ocidentais foram cúmplices das torturas contra prisioneiros no NDS.

Membros europeus da Otan – especialmente Grã-Bretanha e Holanda – decidiram entregar os presos à agência afegã para se afastarem da política de prisões norte-americanas, já manchada por abusos. Por outro lado, Estados Unidos e Canadá apoiaram essas transferências, acreditando que os interrogadores do NDS obteriam melhores informações.

As manobras foram uma violação direta da Convenção das Nações Unidas Contra a Tortura, que proíbe a transferência de qualquer pessoa por parte de um Estado a outro “onde há base substancial para acreditar que estará em perigo ou será submetido a tortura”. A primeira mudança na política oficial foi a adoção pela Otan, em dezembro de 2005, da “regra das 96 horas”, que exige a transferência de presos afegãos ao governo de seu país no prazo de quatro dias.

A negativa britânica e holandesa de continuar entregando seus prisioneiros às forças de Washington aconteceu em reação a informes sobre torturas na base norte-americana de Bagram, no Afeganistão. Ronald Nuemman, na época embaixador dos Estados Unidos em Cabul, disse à IPS que o “ímpeto inicial” para a “regra das 96 horas” surgiu da “discordância” dos britânicos e holandeses com as práticas norte-americanas.

Um ex-diplomata da Otan, que na época desempenhava funções no Afeganistão, confirmou as afirmações de Neumann. “Os britânicos e holandeses expressaram em particular seu medo de que a política norte-americana em relação aos presos prejudicasse a missão”, afirmou. Paradoxalmente, segundo a regra das 96 horas, os prisioneiros, foram enviados ao NDS, que tinha uma longa reputação de centro de torturas, começando quando foi agência de inteligência da polícia secreta durante a ocupação soviética. Essa reputação continuou no governo do presidente Hamid Karzai.

O traslado de presos ao NDS também foi motivado pela desesperada necessidade de Washington de obter melhores informações de inteligência sobre o movimento islâmico Talibã. Quando os comandantes militares norte-americanos e canadenses começaram a fazer, entre 2004 e 2005, grandes operações em áreas onde o Talibã operava, o governo de George W. Bush já havia decidido considerar todos os afegãos detidos como sendo “combatentes ilegais”.

Dessa forma, não os reconhecia formalmente como prisioneiros de guerra e evitava responsabilidades estabelecidas nas Convenções de Genebra. Porém, a maioria dos afegãos detidos nessas operações não pertencia ao Talibã. Depois que as forças dos Estados Unidos e da Otan começaram a enviar presos ao NDS, o chefe dessa agência, Amrullah Saleh, disse a autoridades da aliança ocidental que deveria libertar dois terços dos detidos, segundo revelou um diplomata.

Matt Waxman, secretário-adjunto da Defesa dos Estados Unidos para Assuntos de Detidos até o final de 2005, recordou em entrevista à IPS que havia “muita preocupação tanto no Pentágono quanto no terreno sobre excessivas detenções” no Afeganistão e sobre a pressão para “operações de prisões mais agressivas”. O embaixador Neumann disse à IPS que os militares norte-americanos direcionaram os casos para o NDS devido aos “benefícios de inteligência”.

Em entrevista ao Ottawa Citizen, publicada em 16 de março de 2007, o então chefe de inteligência da Força Internacional de Assistência em Segurança (Isaf) para o Afeganistão da Otan, Jim Ferron, afirmou que a transferência de presos para o NDS tinha o objetivo de obter mais informação. “Os detidos estão nesta situação por uma razão. Possuem informação que precisamos”, disse Ferron.

No entanto, queixou-se de que grande parte dos dados coletados não era “verdadeira e se destinavam a enganar as forças militares”. Ferron explicou que os presos eram submetidos a um “interrogatório básico” pelos funcionários da Otan sobre “o motivo de terem aderido à insurgência”, dados que depois eram entregues ao NDS. O militar claramente sugeriu que os interrogadores desta agência poderiam fazer um trabalho melhor do que a Otan. A “melhor informação” foi obtida pelo NDS, e era a que a Isaf “podia fazer parte da inteligência diária”, disse.

Ferron afirmou que altos funcionários do NDS lhe garantiram que “os presos eram tratados com humanidade”. Mas apenas três semanas antes, o Toronto Globe e o Mail haviam publicado uma série de artigos de pesquisa baseados em entrevistas com prisioneiros transferidos pelo Canadá que tinham sido torturados por funcionários afegãos.

Embora acabasse de entrar em vigor a “regra das 96 horas”, diplomatas britânicos e holandeses expressaram sua preocupação com a reputação do NDS, segundo uma fonte da Otan. “Sabiam que se entregassem os presos aos afegãos, eles seriam torturados”, recordou. Devido a esta preocupação, Grã-Bretanha e Holanda transferiram relativamente poucos prisioneiros, disse o diplomata.

Londres e Amsterdã também se uniram aos esforços norte-americanos para que Cabul desse a responsabilidade dos presos ao Ministério da Defesa afegão e não ao NDS, recordou o diplomata, mas as iniciativas foram impedidas por disposições legais locais. Envolverde/IPS

* Gareth Porter é historiador e jornalista especializado na política de segurança nacional dos Estados Unidos.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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