FREETOWN, 21/06/2011 – Samuel Weekes lembra-se da altura em que as colinas para lá do centro de Freetown eram verdes. “Há 15, 20 anos essas colina estavam cobertas de árvores. Hoje, a maioria dessas árvores foi cortada, principalmente para a construção de casas,” afirma Weekes, Director dos Estudos Populacionais no Colégio de Fourah Bay, na capital da Serra Leoa.
Freetown está encravada entre o Oceano Atlântico e as íngremes colinas que levam ao interior. Nas colinas em redor da cidade, as casas estão agarradas às encostas íngremes, algumas cimentadas com os “empacotamentos” – como os residentes locais se referem à construção temporária em socalcos. Não existem estradas, só caminhos íngremes cuja coesão é sustentada por pedras. Nalgumas áreas os residentes são obrigados literalmente a trepar para o nível de socalcos seguinte.
No ano passado, numa comunidade perto da universidade, duas crianças de tenra idade morreram quando um pedregulho se soltou do socalco superior antes de se abater sobre a casa onde viviam. Ibrahim Conteh, residente local, diz que não conhece nenhuns códigos de construção que se deva seguir para que as casas sejam construídas de forma segura.
“As grandes chuvadas caem e passam pelas casas, causando acidentes,” afirma, ao pé de um desnível de três metros que dá para o telhado da casa no socalco inferior. “Fazemos o melhor para assegurar que certas coisas estejam no lugar certo para impedir acidentes.”
“As pessoas têm dificuldade em encontrar um lugar para viver, por isso vêm para aqui.”
Quando querem construir, explica Thaimu Turay, cortam as árvore e partem a pedra antes de construírem construções temporárias. “Ninguém nos diz onde ou como devemos construir as nossas estruturas,” declara. Weekes afirma que o governo precisa de planear cuidadosamente e implementar os regulamentos existentes que limitam o volume de construção autorizada nas encostas das colinas.
“Sobre essa matéria não sei o que está a ser feito,” acrescenta. “O governo tem de ser muito pró-activo e estabelecer limites que não devem ser ultrapassados, mas que devem ser monitorizados.”
Porém, à medida que a população da cidade aumenta para mais de um milhão de pessoas – desconhece-se o número exacto– torna-se mais difícil encontrar espaço. Um maior número de pessoas está a limpar terreno para constuir casas – algumas imponentes mansões e outras não mais do que algumas chapas de latão coladas umas às outras – fazendo recear derrocadas e outros desastres à medida que o desenvolvimento aumenta sem controlo ao longo das encostas. Esses receios estão ainda presentes nas mentes das pessoas agora que as inundações causadas pela estação chuvosa começaram.
Weekes atribui a crescente crise ao crescimento populacional desenfreado e à migração das zonas rurais para as zonas urbanas, com milhares de pessoas a afluírem à cidade à procura de melhores oportunidades. Uma parte do problema deve-se ao que Weekes apelida de “desenvolvimento assimétrico”.
Há uma enorme diferença entre Freetown e outras zonas urbanas e rurais,” diz Weekes no seu escritório, na universidade de tipo ocidental mais antiga da África Ocidental. “Se for possível melhorar o desenvolvimento noutras zonas urbanas e rurais, talvez seja possível alivar alguma da pressão sentida em Freetown.”
O Director da Agência de Protecção Ambiental da Serra Leoa, Dr. Kolleh Bangura, afirma que a população em crescimento está a obrigar a maior parte das pessoas a construírem casas nas encostas, prestando-se pouca atenção aos regulamentos de construção.
Há zonas onde a construção é proibida, mas “não há respeito por estas áreas com zonas verdes,” afirma Bangura.
Acrescenta ainda que é difícil controlar a construção, apesar dos perigos que ela coloca, citando a “politização” da questão e o assassinato brutal há alguns anos de um funcionário responsável pelo registo de terrenos que decidiu demolir estruturas ilegais numa encosta.
O governo exerce pouca pressão sobre aqueles que dividem as encostas, segundo Bangura, apelando à revisão das leis e à necessidade de se aumentarem os recursos para se lidar com uma população em crescimento.
Os especialistas avisam que, se o crescimento continuar ao seu actual ritmo, a cidade será afectada por “sérios problemas”, não só relacionados com a cobertura florestal, mas também com o saneamento, o abastecimento de água e electricidade e outras infraestruturas, já de si muito deficientes.
A cidade de Freetown não é a única quando se fala da luta renhida para se encontrar espaço para populações em crescimento em terrenos inóspitos. Do Paquistão aos Estados Unidos às Filipinas, as pessoas constroem em terrenos íngremes, por vezes com consequências devastadoras.
O porta-voz da Câmara Municipal de Freetown, Cyril Mattia, afirma que a guerra civil na Serra Leoa, que terminou em 2002, trouxe muitas pessoas para a cidade. Muitas nunca regressaram aos seus locais de origem. Segundo ele, o crescimento da população está a “destruir o tecido social da municipalidade.”
Mattia explica que muitas das estruturas construídas nas escostas não foram autorizadas, acrescentando que a maior responsabilidade pelo planeamento e implementação dos regulamentos cabe ao governo nacional, embora a municipalidade esteja a trabalhar na “sensibilização” de forma a encorajar as pessoas a evitarem as áreas pouco seguras.
“A maior parte da terra foi ocupada e é muito difícil remover as pessoas devido a razões políticas,” diz Mattia. “Temos muita chuva neste país e as pessoas estão a brincar com o solo”.
“Eventualmente vai haver um desastre.”

