ZÂMBIA: Aproveitar ao máximo a reduzida disponibilidade de capital

LUSACA, 03/06/2011 – Os defensores do microfinanciamento frequentemente descrevem-no como uma extensão habilitadora de crédito às pessoas pobres e vulneráveis mas que trabalham diligentemente por conta própria – muitas vezes mulheres – que se apoiam umas às outras para melhorarem a sua vida e pagarem os seus empréstimos. Em parte, esta imagem é verdadeira, mas em muitas regiões de África as instituições de microfinanciamento têm os dentes um pouco mais afiados.

As instituições de microfinanciamento ocupam um importante nicho no continente, visto que oferecem poupanças e empréstimos a pessoas que o sistema bancário comercial não está preparado para ajudar. Da Guiné aos Camarões e do Quénia ao Uganda, saldos mínimos e modestos, comissões mensais baixas ou nulas e juros razoáveis pagos conforme os saldos constituem algumas das atracções das instituições de microfinanciamento apreciadas pelos operadores individuais e por aqueles que gerem pequenos negócios; e, naturalmente, as instituições de microfinanciamento concedem pequenos empréstimos às pessoas que querem criar um negócio – ou simplesmente cobrir despesas inesperadas – muitas vezes aceitando garantias pouco comuns como a cama ou o mobiliário da família.

A Associação das Mulheres da Área de Chawama (CAWA), que reune 800 mulheres numa sociedade cooperativa, corresponde a esse perfil. Nos últimos dois anos, a CAWA tem gerido um empreendimento de moagem de milho em Chawama, um vasto bairro de lata com cerca de 250.000 pessoas nos subúrbios a sul de Lusaca. A associação recebeu um moinho de martelos – conhecido localmente como chigayo – como parte do projecto de capacitação das mulheres promovido pelo Ministério do Género e Desenvolvimento.

“A maioria dos nossos membros são viúvas, doentes com VIH ou donas de casa com graves problemas financeiros,” afirmou Rebecca Mwanza, Vice-Directora da associação, “e este chigayo é a sua única fonte de sobrevivência.”

As mulheres estão divididas em dez grupos, cada um dos quais usa uma parte dos lucros do chigayo para apoiar outras actividades geradoras de rendimento: algumas mulheres fazem capachos, esfregões e vassouras, enquanto outras vendem frituras ou pipocas, mas o rendimento é dividido pelos membros do clube.

Os serviços bancários são necessários

O novo fluxo de caixa da CAWA exigia algo mais elaborado do que uma velha lata de biscoitos ou atar notas amarrotadas num canto de um pano de chitenge; os bancos comerciais estavam fora de questão, uma vez que a associação não tinha dinheiro suficiente para manter o saldo mínimo de 150 dólares e não queria também pagar as pesadas comissões mensais.

A associação abriu uma conta poupança junto da Pulse Financial Services Limited, uma instituição de microfinanciamento. A conta tem um saldo de abertura de 200.000 Kwachas (cerca de 40 dólares), sem custos e despesas de administração, e paga seis por cento de juros. Mwanza está satisfeito com os serviços oferecidos pela Pulse. “Até agora tem sido excelente.”

Além da conta poupança, a Pulse – que foi criada em 2001 – concede empréstimos a pequenas e médias empresas que apresentem garantias e um plano de negócios sólido. Os empréstimos são feitos a curto prazo, normalmente entre um a seis meses, e quanto maior for o período de empréstimo mais elevados os juros; para um período de três meses são cobrados juros de 75 por cento, e empréstimos com períodos de reembolso superiores a quatro meses vencem juros a 100 por cento.

Depois da CAWA ter recebido o seu chigayo, pediu um empréstimo à Pulse. No início, pediu emprestado o equivalente a 100 dólares para comprar diesel para o moinho. Este montante foi reembolsado – com juros – em dois meses e o empreendimento do moinho de martelos tornou-se auto-suficiente.

Evans Mwape, funcionário do Ministério do Género e Desenvolvimento que presta apoio comunitário, observou que o trabalho do seu Ministério seria menos eficaz se não fosse complementado por instituições de microfinanciamento como a Pulse.

“Normalmeente, o governo distribui dinheiro pelos vários ministérios para projectos de desenvolvimento. Este dinheiro destina-se a activos fixos e não despesas correntes,” disse Mwape à IPS.

“Isto significa que, quando entregamos o chigayo a um grupo de mulheres, não lhes damos capital de exploração. Elas é que têm de procurar esse capital e, neste caso, as mulheres de Chawama tiveram de encontrar dinheiro para o diesel e outras despesas correntes pelos seus próprios meios,” explicou Mwape.

Uma solução adequada

A Pulse Financial Services não é uma organização de caridade e nem todos os seus clientes pagam os empréstimos que pedem. “É um grande problema quando uma pessoa não paga o empréstimo,” disse Mwanza. “Tem havido casos de incumprimento por parte de muitas pessoas que não pagam os empréstimos e a Pulse não hesita em confiscar bens. Posso dizer-lhe que há pessoas que perderam carros e mobília!”

A Associação Chawama teve a sorte de receber o seu capital – sob a forma de um moinho de martelos – como dádiva. Mwanza admitiu que, se a CAWA tivesse contraído um empréstimo para pagar toda ou parte dos custos de aquisição do moinho, provavelmente o empreendimento não conseguiria gerar lucros sufucientes para pagar o empréstimo. Porém, a Pulse demonstrou ser a solução bancária perfeita para a CAWA e o empreendimento de moagem tem progredido consideravelmente.

“Neste momento, estamos a pensar converter este chigayo de energia produzida a diesel para electricidade para podermos reduzir os nossos custos operacionais,” disse Mwanza. A CAWA está a planear contrair um empréstimo de 400 dólares para comprar um motor eléctrico que forneça energia para o moinho em vez de diesel.

Um dos membros da CAWA, Queen Chitundu, disse à IPS que o seu grupo está a pensar modificar o moinho para produzir produtos adicionais como papa de milho – usada como refeição pelas famílias mais pobres, farinha de milho 'básica' (normalmente conhecida como 'refeição enrolada') e 'refinada' (habitualmente conhecida como matabicho) e farelo de milho, usada pelos agricultores como ração.

“Acreditamos que todos estes planos serão bem sucedidos e nos levarão a um novo patamar se continuarmos a trabalhar com a Pulse visto que, no passado, nos deu excelentes conselhos sobre a forma como gerir as nossas contas,” disse Chitundu.

Lewis Mwanangombe

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