Mogadíscio, Somália, 01/08/2011 – Quando o Programa Mundial de Alimentos (PMA) enviou, na semana passada, a primeira parte de um pacote de ajuda à Somália, já era muito tarde para Farah, o filho de dois anos de Qadja Ali.

Uma mulher com sua filha em um acampamento para refugiados em Mogadíscio. - Abdurrahman Warsameh/IPS
“Carreguei meu filho morto o dia todo, pensando que estava apenas dormindo. Não tínhamos nada para lhe dar, nem água nem comida, por três dias”, contou emocionada à IPS no acampamento de Badbado, nos arredores da capital somaliana. A família de Ali chegou a ter 50 cabeças de gado, 20 cabras e cinco camelos antes de começar a seca no sul da Somália, há dois anos. Era uma das famílias mais ricas da região.
“Começou como uma escassez de água nas primeiras temporadas, depois não choveu mais. O pasto seco, os poços e rios também. Nossos animais começaram a morrer um após outro, sem pastagem e sem água”, contou esta mulher enquanto carregava outro de seus filhos, fraco e desnutrido. O acampamento de Badbado, que em somaliano significa “resgate”, é o maior assentamento da capital para os refugiados da seca. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informou que atualmente o local abriga 28 mil pessoas, aproximadamente cinco mil famílias.
Ali não tem todos seus entes queridos no acampamento. Seu marido ficou na aldeia para cuidar dos poucos pertences que lhes restavam, enquanto ela e seus filhos viajavam junto a outras centenas de famílias para escapar da fome e buscar ajuda. Ela não tem notícias dele. Muitas meninas e meninos chegam ao acampamento muito fracos e desnutridos para poderem ser salvos pelos médicos. Alguns passaram vários dias sem água e comida. A maioria tem físico pequeno para a idade: os de três anos têm estatura de crianças de um ano.
“Chegam aqui exaustos e muito fracos pela fome. Duas ou três crianças, e adultos, morrem a cada semana em Mogadíscio, mas não há estatísticas exatas, já que os acampamentos estão localizados em diversos lugares da cidade” e é difícil reunir informações, disse à IPS Muna Igeh, enfermeira em Badbado, enquanto atendia uma criança desnutrida.
Daahir Gabow, pai de sete filhos, viu dois morrerem por desnutrição pouco depois de chegarem a Mogadíscio. Sobre sua filha, contou que os médicos e as enfermeiras do Hospital Bandair, um dos principais de Mogadíscio, fizeram todo o possível para salvar sua vida, mas “o destino a levou”. Gabow disse que ele e sua família tentaram enfrentar a seca, mas foi inútil.
“Quisemos enfrentar a seca como fizemos em outras ocasiões, mas nosso gado não conseguiu sobreviver. Muitos de nossos vizinhos começaram a partir”, contou Gabow enquanto se preparava para o enterro da menina. “Caminhamos durante 21 dias. Comemos e bebemos o que podíamos encontrar e dormimos onde nos encontrávamos quando o sol se punha. Isto nunca tinha visto, nem meu pai me contou jamais que algo assim aconteceu com ele. São momentos de prova, devemos ser pacientes e fortes”, afirmou.
Elhadji As Sy, diretor regional do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para a África oriental e austral, disse que a fome significa “uma crise de sobrevivência para as crianças”. A Somália é o país mais afetado por uma severa seca que afeta o Chifre da África e que deixou cerca de 11 milhões de pessoas em urgente necessidade de ajuda humanitária. Quênia, Etiópia e Djibuti também enfrentam uma crise, considerada a pior dos últimos 60 anos.
A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que um total de 2,23 milhões de meninos e meninas na Somália, Etiópia e Quênia sofrem desnutrição. A ONU informou ter enviado 1.300 toneladas métricas de suprimentos à região sul da Somália, incluindo material médico para atender 66 mil menores com déficit alimentar. E, enquanto isso, os habitantes dessa região do país continuam abandonando suas casas.
As Nações Unidas informaram que pelo menos cem mil refugiados chegaram a Mogadíscio, dos quais aproximadamente 40 mil apenas no mês passado. “No último mês, os números do Acnur mostram que quase 40 mil somalianos fugindo da seca e da fome chegaram a Mogadíscio em busca de comida, água, abrigo e outros tipos de ajuda, disse na semana passada Vivian Tan, porta-voz da agência. A ONU estima que o número cresce, com média diária de chegadas de mil pessoas em julho.
Organizações não governamentais locais também fornecem assistência humanitária, mas os moradores dizem que esta é limitada. No dia 27 de julho, o PMA começou a enviar ajuda por ar para Mogadíscio pela primeira vez desde que o grupo extremista islâmico Al Shabaab proibiu todas as organizações internacionais de operarem nas regiões que controla. O PMA destinou 14 toneladas de suprimentos alimentícios para crianças desnutridas nos acampamentos de Mogadíscio. David Orr, porta-voz do Acnur, afirmou aos jornalistas na capital somaliana que mais ajuda chegaria nos próximos dias. Envolverde/IPS

