CIENFUEGOS, Cuba, 09/08/2011 – (Tierramérica).- Cuba prepara uma bateria de instrumentos ambientais para que a Baía de Cienfuegos assimile, sem contaminação, seu iminente desenvolvimento petroquímico.

Pescadores chegam ao porto próximo da fortaleza de Nossa Senhora de los Ángeles de Jagua, em Cienfuegos - Jorge Luis Baños/IPS
Localizada 250 quilômetros a sudeste de Havana, Cienfuegos foi declarada, em 2005, Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas (ONU). “Vejo agora estas águas bastante limpas. Houve tempos em que, quando chovia e os rios chegavam ao mar, depois víamos muitos peixes mortos. Parece que essa água doce vinha contaminada”, disse ao Terramérica Jaime Pérez, que fala com a experiência de seus 80 anos, quase todos dedicados ao ofício de pescador.
Os desafios atuais são outros: a poluente indústria petroquímica. O megaprojeto é parte da refinaria de petróleo Camilo Cienfuegos, modernizada com financiamento venezuelano, após 14 anos de paralisação, que processa 65 mil barris (de 159 litros cada) diários. É iminente o começo de novos trabalhos para ampliá-la e elevar sua capacidade de refino para 150 mil barris por dia. Para abastecer a refinaria, a cargo da empresa de capitais cubanos e venezuelanos Cuvenpetrol, nos primeiros seis meses deste ano 200 navios-tanque da Venezuela passaram pelo estreito canal que une o Mar do Caribe e a Baía.
“A refinaria fica no lugar mais adequado, mais ao leste e ao sul”, afirmou o engenheiro Reynaldo Acosta, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Para instalar as obras, foram levados em conta, entre outros critérios, as correntes marinhas, os processos de erosão e as águas subterrâneas que podem ser contaminadas, explicou Acosta. O complexo inclui usinas de amoníaco, ureia, policloreto de vinil (PVC, usado na fabricação de “petrocasas” de iniciativa venezuelana) e uma regaseificadora. A expansão conta com investimentos da China, em valores não divulgados.
A obra também faz uma aposta estratégica: o petróleo que Cuba encontrar em poços de águas profundas que começará a perfurar este ano no Golfo do México. A fábrica de amoníaco – que será destinado às indústrias do níquel, frigorífica e de fertilizantes – fica em uma área próxima à que processará gás natural liquefeito, necessário para seu funcionamento. O polo petroquímico consta dos acordos da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), da qual também são membros Antigua e Barbuda, Bolívia, Dominica, Nicarágua, Equador e San Vicente e Granadinas,
A demanda por mão de obra já se dinamizou na província de 407 mil habitantes. Para ampliar a refinaria foram empregados 1.800 engenheiros, enquanto escolas de Cienfuegos estão formando técnicos e operários especializados em petroquímica. A atividade econômica de Cienfuegos nasceu com a pecuária e o açúcar, aproveitando rios que eram navegáveis e tinham saída para a Baía. O porto, fábricas de ração e fertilizantes, um moinho de cereais e o terminal açucareiro a granel marcaram um desenvolvimento que deixou uma pesada herança ambiental para as atuais gerações.
“Os avós diziam que a Baía era um cristal, e que antes havia mais florestas, que foram cortadas para plantar cana-de-açúcar ou abrir caminho para a ferrovia. Sem árvores e com o crescimento da indústria açucareira, aumentaram os processos de erosão e os resíduos sólidos e poluentes em bacias e rios”, explicou ao Terramérica o diretor do Centro de Estudos Ambientais de Cienfuegos, Alain Muñoz. O Centro, criado em 1999 pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, é responsável por controlar a qualidade ambiental da baía, de 88 quilômetros quadrados.
A cada três meses suas águas são monitoradas. É uma das baías mais estudadas do país por ser um ponto de abastecimento no tráfego marítimo do Caribe e pela riqueza de sua flora e fauna. Segundo autoridades do Ministério ambiental, na década de 1990 começou um trabalho de reordenamento da atividade econômica, incluída a agropecuária, destinado a proteger a Baía. Contudo, o polo petroquímico agiganta o desafio ambiental. Com a experiência acumulada será criado no curto prazo um grupo estatal integrado por pessoal especializado para atender a Baía, a fim de harmonizar necessidade industrial e desenvolvimento com o cuidado ambiental.
“Este grupo vai ordenar projetos e ação econômica à luz da nova estratégia”, disse ao Terramérica o especialista Jesús Calvo. Os técnicos consultados pelo Terramérica concordam que se o aumento de resíduos estiver na lógica industrial, as empresas devem prever uma usina para tratá-los e evitar ou minimizar danos na Baía e na atmosfera. Além disso, o canal de entrada para a Baía deve ser ampliado para dar passagem a navios com mais de 228 metros de comprimento sem riscos para a segurança marítima.
Cientistas descartam a possibilidade de essa obra elevar o nível do mar. Entretanto, alertam que na costa sul cubana, mais baixa do que a do norte, as águas poderiam subir cerca de 25 centímetros até 2050 e até um metro até 2100 por efeito da mudança climática. “É preciso adaptar-se e ter em conta esta realidade que terá impacto em nossas comunidades costeiras”, alertou Acosta. Neste aspecto, ao instalar as novas indústrias, levou-se em conta a força dos ventos e o risco de chuvas intensas e furacões formarem sequências de ondas que dentro da baía podem chegar a 2,5 metros de altura. “Embora os furacões sejam pouco frequentes em Cienfuegos, não podem ser deixados de lado”, disse o especialista.
* * A autora é correspondente da IPS.

