EEUU: “Crise ameaça Wall Street, não os trabalhadores”

Nova York, Estados Unidos, 04/08/2011 – Enquanto a imprensa internacional informa sobre a comoção nos mercados financeiros e os temores dos banqueiros de uma possível suspensão de pagamentos nos Estados Unidos, muito pouco se fala sobre a classe trabalhadora, que seguramente ficará com a maior carga dos cortes anunciados.

Deirdre Griswold - Cortesia de Deirdre Griswold.

Deirdre Griswold - Cortesia de Deirdre Griswold.

Depois de várias semanas de intenso debate político sobre uma proposta para resolver o problema da dívida pública, até agora de US$ 14 trilhões, o presidente Barack Obama chegou a um acordo com o Congresso e assinou um projeto de lei para reduzir US$ 2,4 trilhões do déficit durante a próxima década.

O projeto eleva o teto da dívida para 2013, mas exige reduções em gastos no valor de US$ 900 bilhões nos próximos dez anos e autoriza um comitê legislativo a decidir sobre outros cortes de US$ 1,5 trilhão até novembro. Não estabelece aumento de impostos. A IPS conversou sobre os efeitos que o projeto pode ter no longo prazo sobre a classe trabalhadora com Deirdre Griswold, editora do Workers World, semanário fundado em 1959.

IPS: Como o acordo sobre orçamento afetará a classe trabalhadora norte-americana?

DEIRDRE GRISWOLD: Vai golpear duramente, especialmente os funcionários públicos, os departamentos estatais, as prefeituras e os governos locais. Milhões de trabalhadores que fornecem serviços necessários sofrerão porque este acordo implica mais reduções do que as feitas até agora. Os programas obtidos graças à luta dos trabalhadores durante a Grande Depressão, como o seguro social e o Medicare, estarão na mira nesta segunda fase do acordo. A ameaça de suspender os pagamentos foi apenas uma crise para Wall Street e os donos da dívida do governo, que exigem o pagamento de seus juros, antes de tudo. Os trabalhadores têm seus próprios problemas, como desemprego, queda de salários e falta de cobertura de saúde. Mas a facção mais direitista do Partido Republicano, o Tea Party, que não pode ser chamado de fascista, mas, sem dúvida, é extremista e ignorante, impôs uma agenda pela qual queria manter refém o governo federal para que atendesse suas demandas de mais cortes de gastos. Com relação aos trabalhadores, a administração deveria permitir uma suspensão de pagamentos se isso significa salvar empregos, cuidados médicos, seguro social e outros programas dos quais a classe trabalhadora depende para sua sobrevivência.

IPS: O que diz o novo projeto de lei sobre a política e o trabalho nos Estados Unidos?

DG: As organizações de trabalhadores que buscam compensações pelos problemas criados pelo capitalismo, e haviam depositado suas esperanças no governante Partido Democrata, agora se dão conta de que a administração que pensavam que lutaria por seus direitos os decepcionou. Isto demonstra que, quando há uma grande crise no sistema capitalista, o Partido Democrata está tão vinculado a Wall Street quanto o Partido Republicano. Durante toda esta “crise” de orçamento, a administração democrata capitulou diante de um programa projetado em grande parte pela ultradireita republicana. Fizeram concessões como não mais impostos sobre a riqueza, ainda que estes nos Estados Unidos sejam os mais baixos do mundo industrializado.

IPS: O que isto significa para o futuro do setor trabalhista organizado nos Estados Unidos?

DG: Os trabalhadores neste país não têm uma voz independente desde que os sindicatos começaram com a política de apoiar o Partido Democrata durante o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945). O movimento trabalhista nos Estados Unidos deve ser capaz de ver duas coisas. A primeira, que somente uma ação independente, como a que vimos em Wisconsin, terá impacto nas decisões e ações dos políticos. A segunda, com a globalização da economia capitalista, os trabalhadores já não podem buscar apenas soluções a partir dos Estados Unidos. Os trabalhadores norte-americanos se enfrentam com os do resto do mundo em todos os setores, desde a agricultura até a manufatura e as tecnologias da informação.

IPS: Quais lições deixa o acordo sobre orçamento em termos de construção do movimento trabalhista?

DG: Por um lado encara o problema do capital financeiro transnacional. Neste país, os sindicatos tratam o tema da subcontratação de uma forma muito estreita e chauvinista, com o lema “compre o norte-americano”. Porém, os líderes das grandes corporações, apesar de sua postura patriótica, irão aonde puderem ter maior lucro, sem importar o quanto essas decisões prejudicam o sustento e os empregos nos Estados Unidos. Outro elemento essencial para a evolução da consciência do movimento operário norte-americano é reconhecer a riqueza que trazem os imigrantes quanto ao conhecimento das lutas mundiais. Os imigrantes não estão infectados com a mesma ideia limitada e às vezes racista do mundo que predomina nos Estados Unidos. Creio que grandes mudanças estão sendo fermentadas nos Estados Unidos, que serão geradas em uma crescente consciência de que o capitalismo é global e explora os habitantes de todo o mundo. Os trabalhadores começam a perceber e a reconhecer que devem enfrentar as corporações transnacionais, que alienar os trabalhadores em outras partes do mundo somente freará sua própria luta. Este último exemplo, o da crise do orçamento, vai acelerar esse clima, porque a ideia antiga de que a estrutura política neste país trabalhará de alguma maneira em favor de “Zé, o contribuinte” sucumbiu. Envolverde/IPS

Kanya D'Almeida

Kanya D'Almeida is a Sri Lankan journalist, currently based in Washington D.C. Kanya joined IPS as a United Nations correspondent in October 2010, where she covered the Millennium Development Goals with a strong focus on gender and ecological justice in Asia, Africa and the Middle East and the problems of neocolonial development in the global South. As IPS's Washington, D.C. correspondent, she monitors the global impacts of the Bretton Woods institutions, United States economic and foreign policy in the global South, the actions of transnational corporations and both national and international ecological crises. Kanya earned her B.A. from Hampshire College in Amherst, Massachusetts, where she completed a double major in political science and fiction writing, and produced a book of essays and short stories on women and war in Sri Lanka. She is currently a member of Scientific Soul Sessions, in Harlem, New York.

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