Soluções férteis para terras árida

Nova Délhi, Índia, 17/11/2011 – “A participação das populações locais é fundamental em áreas onde a regeneração da terra tem êxito.

Dennis Garrity apoia a agricultura perene. - Manipadma Jena/IPS

Dennis Garrity apoia a agricultura perene. - Manipadma Jena/IPS

Os investimentos precisam se centrar em gerar infraestrutura e compartilhar conhecimentos”, disse o embaixador da luta contra a desertificação Dennis Garrity. Agrônomo de profissão, Garrity centra-se no desenvolvimento da pequena agricultura nos trópicos no cargo que exerce na Convenção das Nações Unidas de Luta Contra a Desertificação.

Com a Convenção, busca-se “dar maior protagonismo à comunidade das organizações não governamentais”, destacou o especialista, da cidade australiana de Melbourne, em conversa telefônica com a IPS.

IPS: Quais políticas deveriam ser adotadas pelas economias predominantemente agrícolas, com as da Índia e África, para dar às zonas áridas sua devida importância?

DENNIS GARRITY: Evidências científicas demonstram que os governos podem obter a partir de investimentos em terras áridas retornos maiores do que investimentos em áreas chuvosas. Agora temos tecnologias como a agricultura perene ou de dois andares, onde boa parte da produção anual de cultivos acontece sob uma abóboda de espécies de árvores em particular. Muitas são árvores fertilizantes, que capturam o nitrogênio atmosférico que se desprende com o uso de fertilizantes químicos, o que beneficia a produção alimentar e o meio ambiente.

IPS: O quanto essa tecnologia é rentável e amigável com os agricultores?

DG: Na África, as comunidades agrícolas dedicam milhões de hectares à agricultura perene. Há grande entusiasmo porque isto proporciona altos rendimentos. Temos provas de que pode ser feito em grande escala. Com investimentos, pode-se ampliar para dezenas de milhões de agricultores na África e na Índia.

IPS: Qual seria a maneira mais produtiva de tratar com os representantes das zonas áridas, que são as comunidades?

DG: Os investimentos deveriam ser dedicados ao desenvolvimento da capacidade do lavrador, das comunidades, para permitir-lhes manejar sua própria terra. A participação das populações locais demonstrou ser uma condição fundamental em áreas onde a regeneração da terra teve êxito. Os investimentos devem se concentrar na criação de infraestrutura e compartilhamento de conhecimentos. Criar capital social é fundamental para a futura regeneração da terra.

IPS: Que papel podem ter as organizações não governamentais?

DG: Um papel absolutamente fundamental. Frequentemente são os vínculos entre as comunidades. Podem gerar o tipo de serviço e apoio que as comunidades precisam. Creio que a secretaria da Convenção das Nações Unidas de Luta Contra a Desertificação reconhece este fato e busca dar maior protagonismo à comunidade das organizações não governamentais. O conceito original de regeneração de solos na Convenção era vertical, e por muitos anos essa ideia dominou o debate e as interações governamentais. Entretanto, nos últimos anos se deu especial atenção à participação da sociedade civil.

IPS: As apropriações de terras áridas tradicionais, particularmente na África, preocupam cada vez mais.

DG: Essas preocupações são válidas e muito sérias. Vende-se vastas áreas para estrangeiros. Muitas delas povoadas por comunidades que vivem da terra e não possuem um meio de sustento alternativo. A maioria destes investidores não tem nem ideia de onde estão se metendo. Costumam adotar o enfoque simplista de usar tecnologia sofisticada para fazer plantações em grande escala, e as comunidades tradicionais simplesmente são ignoradas. Isto é totalmente inaceitável.

IPS: Na 10ª Conferência das Partes da Convenção (COP 10), que aconteceu em outubro na Coreia do Sul, foi dito que estes investidores esgotariam a terra e depois simplesmente iriam embora.

DG: Isto, sem dúvida, é uma possibilidade, como a de degradar a terra mediante práticas poucos sustentáveis. Também é muito provável que esses investidores usem os investimentos agrários com fins especulativos. Os governos deveriam proteger as comunidades locais. Ocorre muito frequentemente que estes acordos com governos não são transparentes. É por isso que o confisco de terras se tornou um grande negócio.

IPS: O fato de empresas que vendem sementes geneticamente modificadas entrarem em algumas terras áridas com a consequente perda de variedades tradicionais, que se adaptam melhor ao solo e às condições climáticas locais, é outro motivo de alarme…

DG: A questão das sementes transgênicas é muito preocupante. Embora possam melhorar a qualidade e o rendimento dos cultivos, a preocupação real é a concentração da indústria das sementes em apenas umas poucas empresas que são donas das patentes que lhes permitem controlar o futuro das sementes. Precisamos avaliar como podemos proteger os pequenos agricultores e a diversidade de sementes.

IPS: Acredita que o papel das mulheres neste sentido é reconhecido por governos, políticos e suas próprias comunidades?

DG: Em muitas áreas secas são as mulheres que cuidam das tarefas agrícolas. Portanto, temos de reestruturar nosso pensamento e chegar às agricultoras em termos de serviços de extensão, participação em organizações comunitárias, etc.

IPS: No contexto da mudança climática, como vê o futuro das terras naturalmente áridas e o que os governos deveriam fazer a respeito?

DG: Sem dúvida, é um assunto crucial. Nossas zonas áridas serão ainda mais áridas com a mudança climática. Temos que nos fixar em sistemas agrícolas mais resilientes. Como muitas destas áreas atravessam alguns dos piores ciclos de secas devido à mudança climática, realmente podemos aprender com estes sistemas. Envolverde/IPS

Manipadma Jena

Manipadma Jena is an independent development journalist and communications consultant who works out of Bhubaneswar in eastern India. She specialises in environment, climate change, biodiversity, indigenous people and the MDG themes broadly.

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