DESTAQUES: O Brasil não pode nadar contra a corrente

RIO DE JANEIRO, Brasil, 29/11/2011 – (Tierramérica).- O Brasil afastou-se da América Latina em matéria climática e articula suas posições no âmbito do Basic, que forma junto com África do Sul, Índia e China, e com o Grupo dos 77 países em desenvolvimento. Sem protestos relevantes, com retrocessos internos e um contexto internacional adverso, o Brasil tem escassas condições de assumir a liderança que se espera de uma potência ambiental na conferência climática que acontecerá na cidade sul-africana de Durban. As responsabilidades do Brasil são maiores porque será anfitrião da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, que acontecerá no Rio de Janeiro em junho de 2012, duas décadas depois da cúpula mundial que aprovou as convenções do clima e da biodiversidade também nesta cidade.

Brasília, no entanto, parece estar “renunciando a um papel mais ativo”, a julgar pelo “tíbio” documento, que apresentou no dia 27 de outubro, como base das negociações da Rio+20, disse Luiz Pinguelli Rosa, secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudança Climática, que reúne o governo e a sociedade para contribuir na formulação de políticas públicas. No setor ambientalista teme-se que o governo esteja evitando propostas mais ousadas para garantir uma boa participação de chefes de Estado e de governo, especialmente dos países industrializados, na Rio+20.

“Trata-se de uma tática equivocada”, pois os governantes não viriam para discutir amenidades, mas se sentiriam desafiados e atraídos por “propostas fortes e polêmicas”, disse Pinguelli Rosa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista em energia, em entrevista ao Terramérica. Para Rubens Born, coordenador-adjunto da Vitae Civilis, organização não governamental ativa nas negociações do clima, “o êxito da Rio+20 dependerá dos avanços na 17ª Conferência das Partes (COP 17) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece entre 28 de novembro e 9 de dezembro em Durban, na África do Sul.

O Brasil sofre contradições internas que podem “manchar” sua imagem e freiam propostas mais audazes, afirmou Pinguelli Rosa ao Terramérica. O parlamento se prepara para aprovar uma reforma do Código Florestal de 1965, que flexibiliza exigências ambientais, o que pode estimular o desmatamento e inverter a tendência de queda no corte de árvores nos últimos anos.

Além disso, o Brasil está se convertendo em um grande produtor de petróleo, a partir das jazidas do pré-sal, a mais de cinco mil metros de profundidade no Oceano Atlântico, e tende a “sujar” sua matriz energética, acrescentou Maureen Santos, especialista em negociações internacionais da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional. Com uma política econômica “desenvolvimentista”, baseada em grandes obras de infraestrutura energética e logística, a expansão agrícola nos principais biomas nacionais (Amazônia e Cerrado) e uma crescente exportação de matérias-primas, o Brasil está com problemas para sustentar sua legitimidade ambientalista.

Dono de invejáveis recursos naturais, enormes reservas de biodiversidade, água doce e florestas tropicais, o país também ostenta a matriz energética mais renovável e o maior potencial agrícola do mundo. É, portanto, um ator fundamental nas negociações ambientais internacionais. O Brasil, com 192 milhões de habitantes, foi protagonista do debate climático desde antes da Cúpula da Terra de 1992. Conceitos básicos, como as emissões históricas de gases-estufa que definem as responsabilidades diferenciadas dos países na mudança climática, e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, tiveram origem aqui.

Na COP 15, em Copenhague, o Brasil também obteve forte repercussão ao apresentar um compromisso voluntário de reduzir suas emissões de gases-estufa, projetadas para 2020 entre 36% e 39%, e com o dramático discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prometendo ajudar os países mais pobres. Contudo, as políticas atuais contradizem essas promessas, segundo ecologistas. A revisão do Código Florestal ameaça a meta de reduzir o desmatamento amazônico em 80%, e não se tem notícias de contribuição brasileira para o Fundo Verde para o Clima, destinado a apoiar as nações pobres.

Além disso, o país afastou-se da América Latina em matéria climática e articula suas posições no âmbito do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) e com o Grupo dos 77 (G-77) países em desenvolvimento, explicou Maureen. A dimensão ambiental não está devidamente contemplada nos processos de integração sul-americanos, lamentou. A Rio+20 será “uma belíssima oportunidade para corrigir e aglutinar para uma região que contrasta com o momento nefasto” que vive o mundo, marcado pela “direitização”, pela volta ao neoliberalismo, e por uma democracia dependente da economia para salvar os banqueiros da bancarrota, destacou Pinguelli Rosa.

É uma conjuntura de “véspera do fascismo”, que recorda a crise iniciada em 1929 que culminou em uma guerra mundial, o que agora seria “improvável devido às armas nucleares, esse demônio que dificulta as guerras”, disse o professor e físico nuclear. Este contexto internacional “sufoca” o debate climático, acrescentou. Mas a crise econômica não significa ausência de recursos para ajudar países pobres a mitigarem e adaptarem-se à mudança climática, disse Rubens. Apenas em 2009, o mundo destinou US$ 312 bilhões para subsidiar combustíveis fósseis, segundo o último Informe de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, recordou.

Entretanto, a ameaça de recessão no mundo rico não favorece a meta de entregar centenas de milhares de milhões de dólares para reduzir a contaminação responsável pelo aquecimento global e enfrentar a mudança climática nos países em desenvolvimento. A questão prioritária em Durban é a sobrevivência do Protocolo de Kyoto, único instrumento internacional que estabelece metas obrigatórias de mitigação, cujo término em 2012 desmantelaria toda a arquitetura desenvolvida na convenção sobre a mudança climática.

Como porta-voz do G-77, o Brasil lidera a luta por um segundo período de compromissos do Protocolo, cuja aprovação parece impossível em Durban. As discussões são intensas, e um acordo é possível, assegurou o negociador Luis Alberto Figueiredo, da chancelaria brasileira. Entre o colapso e o acordo ideal – novas metas para um segundo período –, o mais provável é que seja aprovada uma prorrogação de dois ou três anos do Protocolo, para dar tempo a negociações que hoje enfrentam condições muito desfavoráveis, disse Morrow Gaines, especialista internacional da Vitae Civilis. A COP não tem poder por si só de colocar um fim a esse tratado internacional e do Protocolo de Kyoto dependem vários mecanismos, como o MDL e o mercado de carbono, que consolidou interesses empresariais em todo o mundo, acrescentou.

* O autor é correspondente da IPS.

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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