BRASIL: Metas contraditórias fazem o campo andar

Rio de Janeiro, Brasil, 12/12/2011 – O Brasil pretende cumprir suas metas climáticas no setor agrícola estimulando algumas técnicas já conhecidas, que reduzem as emissões de gás carbono, mas que podem aumentar o uso de agrotóxicos, afirmam ativistas

Complexo de armazenagem de grãos e oleaginosas em Mato Grosso. A agroindústria é fundamental na promessa do Brasil de reduzir suas emissões de gases contaminantes. - Mario Osava/IPS

Complexo de armazenagem de grãos e oleaginosas em Mato Grosso. A agroindústria é fundamental na promessa do Brasil de reduzir suas emissões de gases contaminantes. - Mario Osava/IPS

A semeadura direta, recuperação de pastagens, integração cultivos-pecuária-floresta, fixação biológica do nitrogênio, reflorestamento comercial e aproveitamento de resíduos animais para produzir biogás são as práticas incentivadas por uma linha de crédito branda, disponível desde o mês de agosto.

O Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), adotado pelo governo, prevê eliminar entre 142 milhões e 173 milhões de toneladas de gás carbono que a agricultura liberaria até 2020. Em 2009, o Brasil assumiu em Copenhague, na 15ª Conferência das Partes (COP 15) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, o compromisso voluntário de reduzir entre 36,1% e 38,9% o dióxido de carbono que lançaria na atmosfera em 2020 caso não adotasse iniciativas mitigadoras.

Isto significa evitar a emissão de 1,168 milhão a 1,259 milhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente, dependendo do crescimento da economia brasileira. A maior contribuição para esta meta será a redução do desmatamento. A Política Nacional sobre Mudança Climática, fixada em lei de dezembro de 2009, obriga a diminuir em 80% os índices de desmatamento na Amazônia, até 2020, em comparação com a média entre 1996 e 2005.

A agricultura fará sua parte com avanços nas seis boas práticas incentivadas por uma linha de crédito de R$ 3,15 bilhões, com “três vantagens” em seus empréstimos, assegurou Carlos Magno Brandão, diretor do Sistema de Produção e Sustentabilidade do Ministério da Agricultura. A taxa de juros de 5,5% ao ano, inferior à inflação atual, prazo máximo de 15 anos e até oito anos de carência são as condições oferecidas para intensificar as medidas, especialmente a recuperação de 15 milhões de pastagens degradadas em dez anos, que respondem por 60% da meta agrícola, disse Brandão à IPS.

A semeadura direta já se espalhou pelo Brasil nas últimas décadas, alcançando quase 25 milhões de hectares, cerca de metade da área de grãos plantada no país, segundo Brandão. A proposta é ampliá-la em oito milhões de hectares até 2020. Contudo, nessa prática, os grandes produtores aumentam o uso de agrotóxicos, empregados para eliminar por completo os restos da plantação anterior e também para combater os fungos, favorecidos pelo aumento da temperatura e da umidade do solo coberto de palha, explicou o engenheiro florestal Luiz Zarref.

Os agrotóxicos liberam gases que têm impacto muito mais forte do que o dióxido de carbono (CO²) em relação ao clima, com o óxido nitroso (NO³), 300 vezes mais potente, advertiu Zarref, ativista da rede internacional não governamental Via Camponesa. Além disso, o ABC incentivará o emprego de fertilizantes químicos compostos de nitrogênio, também fonte de óxido nitroso e outros gases como os derivados do petróleo, acrescentou.

O programa neutraliza parte desse aumento, ao incentivar a fixação biológica de nitrogênio, uma tecnologia desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) que economiza grande volume desse fertilizante, com o uso de bactérias que o captam do ar e o fixam nas plantas, especialmente na soja. Fora a soja, esta tecnologia ainda é apenas “uma promessa”, já que enfrenta dificuldades para estender-se a outras plantações, segundo Jean Marc von der Weid, fundador e dirigente da Assessoria e Serviços a Projetos de Tecnologia Alternativa (Aspta), organização não governamental de apoio à agricultura familiar e à agroecologia.

Em sua opinião, somente o crédito barato e com quantias pequenas não permite superar a “complexidade” e as travas a uma expansão da semeadura direta, a recuperação de terras degradadas e a integração cultivo-pecuária-florestas. Os ativistas criticam a ausência da agroecologia no programa governamental. Trata-se de “uma opção complexa que depende de desconcentrar a terra, diversificar a produção e evitar insumos químico-industriais”, alheia ao espírito do ABC, pensado para “latifúndios e monoculturas”, destacou Zarref.

Brandão, pelo contrário, considera que o programa se dirige a agricultores de pequena e média escala, limitando ao máximo de R$ 1 milhão cada empréstimo, para “socializar” os recursos disponíveis. “Os grandes empresários têm outras fontes de crédito”, afirmou.

Além do programa ABC, a crise climática abre “novas oportunidades” para a agricultura e a pesquisa setorial no Brasil, segundo o chefe do Centro de Meio Ambiente da Embrapa, Celso Manzatto. Trata-se de desenvolver uma “agricultura verde”, que compreende, por exemplo, “fertilizantes inteligentes”, de liberação lenta e menos volátil, portanto mais eficientes e de perdas reduzidas. Também inclui o pagamento de serviços ambientais a agricultores que, além de produzir alimentos, fibras e energia, conservam recursos naturais.

O aumento da produtividade é uma forma de mitigar o aquecimento global, e na atividade agropecuária há um espaço enorme para esse avanço, ponderou Manzatto, que há 16 anos é pesquisador da Embrapa, órgão estatal com um decisivo papel na conversão do Brasil em potência agrícola. Há muitos lugares no Brasil onde a pecuária extensiva mantém, em média, um animal a cada dois hectares, diante do que é fácil duplicar a produtividade, com resultados importantes nos fatores climáticos, como é evitar o desmatamento quando se amplia a posse de bovinos, destacou.

O programa ABC exige um grande esforço de transferência de tecnologia especialmente para os pequenos agricultores, anteriormente “marginalizados” dos avanços obtidos inclusive pela Embrapa, admitiu Manzatto. A adaptação da agricultura à mudança climática também abre grandes oportunidades para o Brasil, por ter vencido o desafio “quase impossível” de desenvolver nas zonas tropicais uma agricultura competitiva diante dos grandes produtores de clima temperado, concluiu.

O compromisso brasileiro de reduzir suas emissões de carbono foi feito para contribuir para um acordo mundial a fim de evitar que a temperatura média do planeta aumente mais que dois graus neste século. Foi uma oferta voluntária, de um país até agora desobrigado a esse esforço por não pertencer ao mundo industrializado.

A redução do desmatamento amazônico nos últimos anos fortalece a imagem brasileira nessas negociações. Por outro lado, as críticas de ambientalistas proliferam diante das mudanças no Código Florestal que está no parlamento e que, em caso de aprovação, flexibilizará as regras e punições para os latifundiários que destroem florestas. Envolverde/IPS

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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