REPORTAGEM: Indústrias verdes impulsionam busca por terras raras na Argentina

BUENOS AIRES, Argentina, 20/12/2011 – (Tierramérica).- A mineração dos metais raros, em alta devido ao impulso da economia verde, é uma das novas indústrias que devem provar sua verdadeira sustentabilidade.

Rocha argentina com terras raras, conservada no Museu de Mineralogia da Universidade da República - Juan Moseinco/IPS

Rocha argentina com terras raras, conservada no Museu de Mineralogia da Universidade da República - Juan Moseinco/IPS

A Argentina poderia abastecer parte da demanda mundial por “terras raras”, minerais exigidos em tecnologias verdes, eletrônica e equipamentos de diagnóstico médico. O desafio é explorá-las de modo sustentável. É grande a expectativa criada neste país sobre este grupo de 17 metais destinados a indústrias verdes e produtos eletrônicos de última geração, cuja demanda cresce.

São chamados “raros” por estarem presentes em proporção muito pequena em rochas e sedimentos, e por ser difícil isolá-los para chegar à sua forma elementar. Estes 17 minerais – entre eles o disprósio, o lantânio e o neodímio – são usados para fabricar telefones celulares, computadores portáteis, tablets, reprodutores portáteis de áudio MP3, câmeras digitais, monitores de cristal líquido ou fibra óptica.

O principal produtor mundial é a China, de onde procede 97% do fornecimento desses metais. Contudo, a decisão de Pequim, de controlar por meio de cotas a produção, para priorizar o mercado doméstico, e de reduzir exportações, aumentou os preços e forçou a busca por alternativas. As terras raras são encontradas na proporção de partes por milhão em rochas ou sedimentos.

A concentração pode ser escassa e, portanto, não justificaria uma exploração econômica, disse ao Terramérica a geóloga Diana Mutti, diretora da carreira de especialização em Geologia de Mineração da Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da Universidade de Buenos Aires. “A natureza concentrou as rochas com maior proporção desses metais em regiões da China, Rússia, Estados Unidos e Canadá”, explicou. No entanto, em algumas províncias argentinas também há rochas com esses metais, acrescentou Diana.

“Há potencialidade para terras raras em serras das províncias de Córdoba e San Luis, no centro do país, Salta e Catamarca, no noroeste. Ali há rochas que podem ter maior proporção, mas isso não justifica necessariamente que possa formar-se uma jazida”, alertou. San Luis é, no momento, a província onde estes metais são mais encontrados. Ali, a mineradora canadense Wealth Minerals adquiriu, no começo deste ano, seis mil hectares na região Rodeo de los Molles, baseando-se em dados de bom potencial para a exploração deste recurso.

“Considerando o recente corte de cota de exportação de terras raras anunciado pela China, o segundo em anos consecutivos, estamos contentes de garantirmos uma área grande e ainda não explorada em uma região conhecida por abrigar significativas concentrações de terras raras”, afirmou, ao anunciar a compra, o presidente da Wealth Minerals, Henk Van Alphen.

Segundo Diana, na província de Santiago del Estero, no norte, “há afinidade com rochas das serras de Córdoba, mas não chega a superar um umbral a ponto de concluir que há potencial. Há indícios, mas não uma manifestação”. A geóloga se referia às expectativas pela incursão de filiais da também canadense U308 Corp nas serras de Sumampa, em Santiago del Estero, que foi formada por uma câmara empresarial.

O presidente do Grupo de Empresas de Mineração Exploradoras da Argentina, Julio Ríos Gómez, afirmou que empresas internacionais colocaram o país “entre as zonas mais ricas do mundo quanto à disponibilidade deste recurso”. Segundo o executivo, há pedidos de exploração de terras raras apresentados por firmas da Austrália e do Canadá, levadas pelas reduções nas exportações que a China realiza desde o final de 2010.

Julio afirmou em declarações à imprensa que na região de Sumampa, no sul de Santiago, “há empresas explorando em busca de terras raras, e há um plano para reativar toda a atividade mineradora na província, onde não existem leis que limitem a exploração”. Nem Julio nem a Fundação para o Desenvolvimento da Mineração Argentina – que alegou ter “pouca informação” sobre as terras raras – responderam aos pedidos de entrevista feitos pelo Terramérica.

No entanto, nem todos são a favor da exploração de metais raros. Segundo moradores de Jasimampa, localidade junto às serras de Sumampa, pessoas de uma empresa apresentada como Gaia Energy Argentina S.A. tentou convencê-los dos benefícios da exploração mineira nessa região. A Gaia Energy pertence à empresa canadense U308 Corp, dedicada à exploração de urânio.

“A companhia entrou em terras de uso comunitário pela força, com a polícia, e a comunidade resistiu, havendo inclusive detidos”, contou ao Terramérica o dirigente Adolfo Farías, do Movimento Camponês de Santiago del Estero (Mocase). “ A Gaia foi fazendo um trabalho de confusão, falando sobre o progresso da mineração, que gera emprego, dizem eles, mas houve mobilização e resistência e o projeto foi detido”, assegurou Adolfo.

O camponês disse que as comunidades de povos originários e habitantes rurais da área “continuarão resistindo. Nosso objetivo é a soberania alimentar e a custódia dos bens naturais contra o saque”, ressaltou. “Sabemos que em Sumampa há terras raras e que a empresa tem uma estratégia para explorá-las, mas somos contra por sabermos que isto contamina a água e não cria emprego, como dizem”, afirmou Adolfo.

Outra subsidiária da U308 Corp, a South American Rare Earth Corp, também possui áreas para exploração em Jasimampa. A geóloga Diana disse que o método para extrair os minerais depende da rocha. Se estiver exposta, a exploração é superficial ou a céu aberto. Contudo, como se trata de corpos de rocha com não mais de 50 por dez metros, seriam jazidas de pequena escala. Também pode haver exploração subterrânea, o que aumenta o investimento necessário. Por isso deve ser um projeto muito rentável, reiterou.

Em sua opinião, este tipo de exploração, “em geral, é bem sustentável, mas sabemos que qualquer atividade tem impacto sobre o meio ambiente. Neste caso, não se usa cianureto e não são geradas águas ácidas, mas há certo impacto na paisagem, na flora e na fauna do lugar, e movimentos de solo”. Também pode haver explosões, deslizamentos ou afundamentos, alertou. A geóloga recomenda avaliar como esses impactos seriam mitigados, e se a obtenção do recurso gera, na cadeia produtiva, uma alternativa mais sustentável e com um desenvolvimento mais limpo.

* A autora é correspondente da IPS.

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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