UGANDA: Mães solteiras e avós abandonadas em pântano alagado

KAMPALA, 09/01/2012 – A vida em Bwaise – um bairro de lata nos arredores da capital do Uganda – nunca foi fácil. Mas as chuvas cada vez mais irregulares dos últimos três anos têm trazido cheias constantes neste antigo pântano. Os residentes com mais posses estão a abandonar a área, deixando os mais pobres – frequentemente mães solteiras e avós – abandonados. Os jardins em redor da casa de Regina Bayiyana em Bwakise continuam a desaparecer, O marido e os cinco filhos morreram depois de uma doença prolongada, deixando-a sozinha a criar 15 netos numa casa de um quarto. As colheitas que produzia no quintal – banana, batata doce e inhame – eram a principal fonte de alimento e rendimento.

Agora, ela e a família começaram a comer uma única refeição por dia e já não há dinheiro para as propinas escolares.

“Há dez anos este era um bom sítio para se viver,” disse Bayiyana. “Agora não podemos plantar… A água entra nas nossas casas logo que chove. A minha casa desapareceu devido às chuvas.”

Na zona montanhosa de Kampala, Bwaise é uma zona de baixa altitude povoada no início da década de 80, de acordo com Florence Masuliya, funcionária responsável por programas junro do Grupo Tusitukirewamu – uma organização localizada neste bairro de lata que trabalha em prol da autonomização das mulheres. Muitas pessoas que chegaram a este local eram refugiados provenientes de áreas assoladas pela violência em várias partes do país. Apesar de nunca ter sido uma comunidade invejada, as pessoas podiam montar uma loja e cultivar alimentos suficientes para sobreviver, explicou Msualiya. Pelo menos, até que o regime de chuvas na capital começou a mudar.

“O que acontecia era que Novembro e Dezembro era a época das chuvas,” contou. “Mas agora, desde Janeiro, temos tido chuva e mais chuva. Penso que se chegou a este ponto devido às alterações climáticas.”

Um relatório de 2008 da Oxfam, preparado com o apoio de funcionários distritais no Uganda, indica que muitas das alterações climáticas do país – incluindo as chuvas “pesadas e violentas” – eram consistentes com os efeitos do aquecimento global.

Embora os padrões meteorológicos no Uganda sempre tenham sido imprevisíveis, os autores indicam que as recentes chuvas inconsistentes e a contínua desflorestação podiam aumentar o risco de cheias, visto que o solo não conseguia absorver tanta água. O relatório previa que toda a região se podia tornar ainda mais chuvosa no futuro.

A água das comunidades circundantes que escorre para Bwaise reforça os resultados do relatório. Devido ao facto de haver pouco planeamento oficial para o desenvolvimento da comunidade, os sistemas de drenagem existentes são poucos e muito rudimentares para lidar com o volume de água despejada no bairro. Em vez disso, a água atravessa casas e lojas.

Muitos prédios estão a começar a apodrecer ou a desmoronar-se. As chuvas à noite são particularmente perigosas, já que as cheias apanham as famílias desprevenidas, causando afogamentos das crianças mais pequenas. E a água que sobra fica estagnada nas estradas e jardins, transformando-se em terreno fértil para doenças como a cólera e tifóide.

Apesar de não estar preparada para as cheias quando começaram a chegar, Bayiyana aprendeu agora a preparar-se para a chuva. Quando ouve chuva à noite, coloca os três colchões da família em cima uns dos outros e diz aos netos que subam para o topo para evitarem a água e as cobras que às vezes são transportadas para dentro de casa pelas chuvas.

Mas ainda não conseguiram evitar completamente a água contaminada. Vários netos de Bayiyana recentemente tiveram uma alergia cutânea e ela teve de levá-los ao hospital para tratamento.

Gostava de mudar de sítio, mas “ninguém quer comprar este terreno. Se eu o vendesse receberia muito pouco dinheiro.”

Apesar das chuvas ocorrerem indiscriminadamente, o grupo que sofre mais são as mães e avós que vivem em Bwaise, explicou Florence Kasule, directora de programas da Rede das Mulheres Africanas para a Política Económica. A sua organização trabalha para sensibilizar as pessoas sobre os problemas da comunidade.

Afirma que desde que as chuvas chegaram, os homens têm abandonado a comunidade para conseguirem um rendimento mais estável visto que as cheias tornam o trabalho obsoleto. A maior parte abandonou mulheres e filhos.

“As mulheres não se podem mudar facilmente devido aos filhos,” explicou Kasule. “Ninguém quer ficar com três ou quatro crianças.” Com os maridos ausentes, muitas mulheres têm de procurar qualquer tipo de trabalho, às vezes vendendo alimentos à noite à entrada dos bares ou vendendo paixe seco à beira da estrada.

O marido de Susan Nakayiza deixou-a, obrigando-a a criar 12 crianças sozinha. Ela disse que a família não estava preparada para as chuvas. Não tinha havido avisos oficiais e, como ela não sabia que as chuvas normais anteriores se podiam transformar em cheias, quando tudo começou em 2008, as chuvas quase destruíram tudo o que ela possui.

Para conseguir sobreviver, usa agora a casa como lavandaria, levando a que a casa esteja sempre cheia de roupa suja dos vizinhos.

Os filhos ajudam-na no negócio, recebendo as encomendas e lavando as roupas no minúsculo pátio. Teve de tirar os filhos mais novos da escola porque lhe faltava o dinheiro. E o negócio está a ficar pior, porque muitas pessoas estão a abandonar a área.

Tal como Bayiyana, Nakayiza sonha em partir, “mas não tenho dinheiro para pagar renda noutro sítio,” explica.

A organização de Masuliya está à procura de financiamento para apoiar as mulheres que ficam para trás. Recentemente organizou a obtenção de crédito da Embaixada dos Estados Unidos, através do Plano Presidencial de Emergência para o Combate à SIDA, que oferece financiamento para as mulheres cultivarem cogumelos, que depois podem comer ou vender.

Bayiyana é uma das participantes. Devido ao facto dos seus jardins estarem cheios de água, Masuliya deixa a avó cultivar um terreno atrás dos escritórios do Grupo Tusitukirewamu.

Masuliya também trabalha afincadamente com funcionários locais, encorajando-os a desenvolverem um sistema de drenagem mais eficiente em Bwaise, com vista a remover a água das casas dos moradores. Foi-lhe prometido que no próximo ano seria introduzido um novo sistema financiado pelo Banco Mundial.

Os funcionários locais também se envolveram no caso. A Autoridade da Cidade de Kampala (KCCA) tem organizado seminários que visam encorajar as pessoas a eliminarem o seu lixo, para que não seja levado pelas cheias, segundo Janet Massazi, funcionária responsável pelo desenvolvimento comunitário.

Também se têm realizado seminários oficiais nos últimos três anos sobre a preparação necessária em caso de catástrofes em Bwaise e nas comunidades circundantes. Não é um novo sistema de drenagem mas constitui um esforço para sensibilizar e preparar as pessoas para as cheias.

Bayiyana afirma que está grata pelos esforços envidados por outras pessoas para ajudar a população que ainda vive em Bwaise, mas não conta que as coisas realmente mudem até ao fim da sua vida.

“A minha mensagem para o governo é: “Apoiem estas pessoas,” apelou. “Sou viúva. Não posso fazer nada. Tenho de obter apoio de algum lado.”

Andrew Green

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *