A ONU aperta o cinto

Nova York, Estados Unidos, 05/01/2012 – Com US$ 260 milhões a menos em seu orçamento para 2012-2013, a Organização das Nações Unidas (ONU) se prepara para implantar medidas de austeridade, entre as quais não se descarta demissões, congelamento de salários, redução das viagens oficiais e uma drástica diminuição nos documentos impressos.

Sede da ONU em Nova York. -

Sede da ONU em Nova York. -

A Comissão Internacional de Serviço Civil (ICSC – iscs.un.org/rootindex.aps) se reunirá duas semanas a partir de 27 de fevereiro para analisar a estrutura de salários do pessoal da ONU e avaliar se os congela ou os reduz, devido ao menor orçamento para o próximo biênio. A ICSC é um órgão de 15 membros encarregado de regular as condições trabalhistas do pessoal das Nações Unidas, cerca de 44 mil pessoas no mundo.

Após uma longa sessão em dezembro, o Comitê de Administração e Orçamento (conhecido como Quinto Comitê) recomendou um orçamento de US$ 5,15 bilhões para 2012-2013, menor do que os US$ 5,41 bilhões do biênio passado. Um prolongado debate entre as nações ocidentais, encabeçadas pelos Estados Unidos, e o Grupo dos 77 países em desenvolvimento (integrado por 132 Estados) deixou pelo menos dois assuntos sem resolver: é preciso realizar um corte generalizado no orçamento para os responsáveis por projetos? Deve-se eliminar ou suspender os aumentos anuais automáticos do pessoal?

As duas propostas se devem à crise econômica e financeira mundial que, cedo ou tarde, repercutirá nos fundos da ONU e, em especial, da miríade de agências que dependem das contribuições voluntárias, principalmente dos Estados Unidos e de outras nações ocidentais ricas. Falando na Assembleia Geral das Nações Unidas após a adoção do novo orçamento na semana passada, o secretário-geral, Ban Ki-moon, disse: “Estou aqui para agradecer por terem consolidado comigo nosso pacto para obter o máximo com nossos recursos e continuar cumprindo cada um dos importantes mandatos globais confiados às Nações Unidas. São tempos de austeridade financeira”, acrescentou.

Barbara Tavora-Jainchill, presidente do Sindicado do Pessoal da ONU em Nova York, disse à IPS que “felizmente não foram aprovadas” algumas das propostas examinadas pelo Quinto Comitê. Em carta enviada na semana passada ao pessoal, Tavora-Jainchill pediu um esforço coletivo para se manter unido contra qualquer iniciativa de castigá-los.

“Obrigado por seu compromisso e duro trabalho”, disse ao pessoal da Secretaria. “Entendemos que o rascunho aprovado no Quinto Comitê não diminui nosso salário e não nos tira o ajuste por lugar de destino ganho há alguns meses”, acrescentou. Além do mais, não há indícios de eliminação de cargos na sede de Nova York. “Como isto é muito difícil de ler nos documentos, acompanharemos o assunto de perto e, sabendo de mudança na situação, agiremos imediatamente. Não teríamos conseguido este resultado não fosse pelo nosso esforço coletivo”, ressaltou Tavora-Jainchill.

“O efeito deste ato foi incrível, pois pudemos mostrar aos membros que existimos, que não somos títeres, que trabalhamos seriamente e às vezes damos demais à organização, inclusive nossas vidas, e merecemos respeito”, acrescentou Tavora-Jainchill. A luta continuará este ano, e na próxima sessão da Assembleia Geral serão discutidos vários assuntos importantes em matéria de recursos humanos, incluída a mobilidade do pessoal de Nova York para escritórios regionais.

Em carta enviada a altos funcionários em abril, o secretário-geral insinuou cortes profundos, tais como suspender viagens oficiais e realizar mais videoconferências, reduzir ou interromper consultorias, diminuir os informes impressos e substituí-los por documentos eletrônicos, bem como uma redução geral no pagamento de horas extras. Além disso, Ban Ki-moon, disse que desejava revisar o uso das bibliotecas em toda a organização, talvez prevendo cortes ou eliminação destes serviços e a cobrança de outros oferecidos pela Secretaria a vários fundos e programas do sistema das Nações Unidas.

O embaixador Joseph M. Torsella, representante dos Estados Unidos na ONU para Gestão e Reforma, disse ao Quinto Comitê que o secretário-geral deu um primeiro passo audacioso ao pedir às autoridades das Nações Unidas para apertarem o cinto. “O aplaudimos por tentar acabar com a tendência dos últimos dez anos de aumentar o orçamento e por não dizer à sua organização o que ela quer ouvir, mas o que precisa ouvir. Não são tempos normais”, ressaltou.

Segundo Torsella, “vemos inovação, o Departamento de Informação Pública propõe gastar cerca de US$ 5 milhões a menos do que no período 2010-2011, usando as tecnologias modernas, recorrendo mais à internet e às redes sociais para divulgar informes, e oferecendo ferramentas de gestão on line. O embaixador também lembrou que, desde 2009, o Departamento da Assembleia Geral e de Gestão de Conferências (DGACM) reduziu em 65% a quantidade de páginas impressas pela ONU. “Isto significa que o DGACM economizou por ano em papel 49 vezes a altura do edifício da Secretaria”, disse Torsella.

Sobre o orçamento de US$ 5,15 bilhões para 2012-2013, uma declaração da missão dos Estados Unidos na ONU afirmou que é a primeira vez em 14 anos, e a segunda em 50, que a Assembleia Geral aprova um orçamento inferior ao do biênio anterior. O orçamento atual representa uma economia de aproximadamente US$ 100 milhões para os contribuintes norte-americanos, disse Torsella, se calcularmos a diferença entre a quantia aprovada na semana passada e o que poderia ser aceito segundo os aumentos históricos. Os Estados Unidos são o maior contribuinte das Nações Unidas, com 22% do orçamento geral. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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