África: Árvore do milagre é como um supermercado

Cidade do Cabo, 13/02/2012 – Quando uma crise alimentar afecta o continente, os países africanos têm a tendência de confiar na comunidade de doadores internacionais para mobilizar ajuda humanitária. Mas uma árvore de crescimento rápido, resistente à seca e com folhas extremamente nutritivas pode ajudar os países pobres e áridos a lutarem contra a insegurança alimentar e a subnutrição. Uma plantação de 15 hectares da "árvore do milagre", cujo nome botânico é Moringa oleifera, já começou a fazer uma mudança positiva na aldeia rural de Tooseng, localizada numa das províncias mais pobres da África do Sul, Limpopo.

As folhas de Moringa são apelidadas de "super alimento", visto que os cientistas descobriram que contêm uma quantidade de cálcio equivalente a quatro copos de leite, assim como ao teor de vitamina C de sete laranjas, ao potássio de sete bananas, a uma quantidade de ferro três vezes superior ao encontrado nos espinafres, a quatro vezes a quantidade de vitamina A duma cenoura e a duas vezes a quantidade de proteína no leite. É como se fosse um supermercado numa árvore.

Mavis Mathabatha, antiga professora de Tooseng, tem trabalhado afincadamente nos últimos três anos para estabelecer uma exploração agrícola de Moringa que produza um número suficiente de folhas para marcar uma diferença positiva na sua comunidade e noutras zonas. "Quero ter um impacto na zona e na província onde vivo e em todo o país através deste projecto," explicou.

Em 2009, começou a colher, secar e a triturar folhas de Moringa provenientes das primeiras árvores que plantara e com elas polvilhar as refeições fornecidas a cerca de 400 crianças pobres no centro de acolhimento Sedikong sa Lerato (que significa "Círculo de Amor" na língua sotho).

O centro alimenta crianças de agregados familares cujo rendimento combinado é inferior a 250 dólares por mês, o que inclui praticamente todos os rapazes e raparigas em Tooseng, uma comunidade que sofre de elevadas taxas de desemprego, pobreza, insegurança alimentar e uma dieta pouco diversificada, além de subnutrição e infecção pelo VIH.

"Os resultados tornaram-se visíveis quase imediatamente. A saúde das crianças melhorou num curto período de tempo," afirmou Elizabeth Serogole, directora do centro de acolhimento que trabalha em estreita colaboração com Mathabatha. Adiantou que muitas crianças apresentavam sinais de subnutrição, como feridas abertas na pele, que começaram a sarar pouco depois de começarem a comer as folhas com regularidade.

O fortalecimento das refeições com Moringa também aumentou de forma significativa a capacidade das crianças de prevenirem doenças e infecções, e estimulou o seu desenvolvimento mental. Serogole acrescentou: "A maior parte das crianças revela agora uma maior concentração na escola." Tudo o que é preciso é uma colher de chá de pó de Moringa diariamente.

O Dr Samson Tesfay, investigador pós-doutoral do Departamento de Ciências Hortícolas da Universidade sul-africana do KwaZulu-Natal, confirma que a Moringa é um produto maravilhoso com aplicações polivalentes. "A planta de Moringa é excepcional, na medida em que que todos os seus componentes podem ser utilizados em aplicações benéficas. Tem aplicações práticas medicinais, terapêuticas e nutritivas. É muito efectiva no combate à subnutrição," disse Tesfay. Além disso, as vagens imaturas da Moringa estão cheias de aminoácidos essenciais.

As folhas de Moringa também podem ser usadas para fins medicinais, para tratar de infecções de pele, baixar a tensão arterial e o açúcar no sangue, reduzir inchaços, curar úlceras gástricas e acalmar o sistema nervoso, explicou ainda Tesfay. A planta, originária do norte da Índia, tem sido usada na medicina Ayurveda há séculos e diz-se que pode curar 300 doenças.

Além disso, as sementes da árvore também podem ser usadas para purificar a água em zonas rurais once o acesso à água potável é difícil e muitas vezes causa de doenças. "As sementes são eficazes na remoção de 98 por cento de impurezas e micróbios da água contaminada," disse Tesfay.

Esta árvore esguia com ramos pendentes, não invasiva, precisa de pouca água e cresce rapidamente, atingindo três metros de altura ao fim de um ano. Cresce de forma constante em Tooseng, no nordeste da África do Sul, uma região árida que tem sofrido com a falta de precipitação nos últimos anos.

"A árvore pode sobreviver em condições relativamente pouco favoráveis e não exige métodos agrícolas ou insumos sofisticados e dispendiosos," explicou Tesfay.

De acordo com especialistas alimentares, a Moringa pode tornar-se um método amplamente usado para a prevenção da fome, visto que pode crescer em todas as áreas subtropicais do mundo onde são prevalentes as secas e a subnutrição "“ na maior parte de África, na América do Sul e Central, no Médio Oriente e no Sudeste Asiático.

Desde 2009 que Mathabatha tem aumentado a sua plantação de Moringa gradualmente. Depois de ter ouvido falar dos múltiplos benefícios da árvore, pediu um subsídio ao Southern Africa Trust (SAT), ou Fundo Fiduciário da África Austral), agência de fundos regionais, que a ajudou a estabelecer a sua própria plantação. Hoje, ela é a orgulhosa proprietária de 13.000 árvores Moringa.

Mas Mathabatha não ficou por aqui. Ela queria partilhar a descoberta dos benefícios nutricionais da Moringa com outras pessoas e, portanto, distribuíu mais de 6.000 sementes de Moringa a famílias pobres em diversas comunidades em redor de Tooseng, juntamente com uma campanha de educação nutricional. "Plantar e distribuir a Moringa é uma abordagem holística para lidar com o problema da insegurança alimentar," Ashley Green-Thompson, que geriu o subsídio para o projecto, explicou a razão pela qual o SAT decidiu financiar o projecto. "O nível de insegurança alimentar dos agregados familiares constitui um dos indicadores de pobreza, e é muito elevado nesta região."

Hoje, a exploração agrícola de Mathabatha produz e embala mais de 10.000 toneladas de pó de folhas de Moringa anualmente, que são distribuídas não só na África do Sul mas também exportadas para o Botsuana, Suazilândia e Lesoto. "Espero continuar a aumentar o meu mercado nos próximos anos. Há muito interesse no meu produto," apontou Mathabatha.

Mas é o forte desejo de ajudar, mais do que o desejo de fazer dinheiro, que motiva Mathabatha a expandir o seu negócio. A um custo de 60 cêntimos por 40 gramas de folhas em pó "“ que duram cerca de um mês para uma pessoa "“ esta mulher de negócios de 52 anos coloca a acessibilidade à frente dos lucros.

Kristin Palitza

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