TÚNIS, 17/02/2012 – m mês depois do primeiro aniversário de sua revolução, a TunÃsia é sacudida por protestos trabalhistas apoiados pela União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT), com epicentro nas regiões pobres do ocidente do paÃs.
Gafsa e seus aldeões são conhecidos por sua riqueza em minas de fosfato. A mineração é extremamente lucrativa, mas quem trabalha no setor e os moradores do lugar veem pouco desse lucro, que historicamente vai para as elites costeiras. A greve de 2008 rapidamente se viu diante da dura e fatal repressão do governo. A população de Gafsa esperava que a revolução do ano passado e as posteriores eleições pusessem fim a décadas de corrupção na região. Mas se desiludiram.
Na semana passada, duas irmãs de na faixa dos 20 anos de Gafsa, Sousou e Asma Didi, falaram com a IPS na área de cafeterias do hotel Jugorta, nos arredores da cidade. Apesar do luxuoso projeto do hotel, suas piscinas e fontes estão secadas devido à escassez de água. Sousou nasceu em Gafsa e se mudou para a capital em busca de trabalho. Sua irmã Asma ainda vive em sua cidade natal. "Não há nenhuma mudança. Tomara que dentro de dez anos vejamos alguma"¦", disse Asma.
Ambas votaram no Hizb Muqtamar (Congresso da República), partido centrista que integra a coalizão governante junto com o esquerdista Ettakatol e o islâmico Ennahda. Perguntada se pensa que a coalizão de governo faz um bom trabalho, Asma disse que não acredita nisto, acrescentando que os novos partidos deveriam combater mais a corrupção endêmica. A população já empobrecida tem de pagar para contar com serviços básicos e emprego, reclamou.
Apesar dessa frustração, as duas irmãs se apressaram em culpar a velha ditadura pelos problemas de Gafsa. "Estamos no zero. Não é fácil fazer mudanças agora", ponderou Asma. Os problemas não terminam com a emigração para regiões da costa, comparativamente prósperas. Os moradores de Gafsa e regiões vizinhas são facilmente reconhecidos porque falam um dialeto do árabe. Assim, sofrem uma discriminação flagrante e generalizada.
A indignação por essa injustiça frequentemente se fez presente, inclusive durante a ditadura, quando o regime de Zine El Abidine Ben Ali (1987-2011) apoiou com firmeza o statu quo. Após uma onda de demissões em 2008, os moradores de Gafsa organizaram uma greve maciça que só terminou quando a polÃcia começou a prender e torturar os organizadores, bem com a atirar contra os manifestantes nas ruas.
A UGTT teve um papel ambÃguo, tanto no levante de Gafsa de 2008 como na posterior revolução. Essa central sindical era reconhecida pela ditadura, e seus principais cargos sempre foram ocupados por aduladores mais leais ao regime do que aos seus próprios integrantes. Apesar disto, as bases da UGTT foram conhecidas por serem abertamente progressistas e pró-democráticas. Antes da revolução, era a única instituição nacional importante onde os crÃticos do regime podiam alcançar certo grau de autoridade. Desde a revolução, a União esteve na primeira linha das demandas por maior igualdade regional e econômica.
Por telefone, de seu escritório em Gafsa, o secretário-geral regional da UGTT, Mohamed Sghaiyer Miraoui, apoiou as manifestações e transmitiu as queixas de outras pessoas em sua região. "Os operários da mina já se dirigiram ao governo anterior reclamando mais direitos", contou à IPS. "Exigimos o direito ao emprego (o desemprego se aproxima de 60% em certas áreas de Gafsa), compensações para famÃlias dos mártires (que morreram nos levantes de 2008 e 2011), seguro médico por acidente de trabalho e seguridade social para os aposentados. Nenhum governo jamais nos respondeu. Só palavras", denunciou.
"A UGTT dá as boas-vindas e apoia manifestações pacificas e que não alterem a ordem pública, bem como o funcionamento das empresas, e condena toda greve que bloqueie estradas e proÃba que outros trabalhadores façam sua tarefa", acrescentou Miraoui. Em Gafsa e nas áridas aldeias vizinhas, a pobreza e os persistentes grafites revolucionários são lembranças de quanto a TunÃsia avançou no último ano, e de quanto ainda falta percorrer. O governo trava uma dura batalha para criar empregos e combater a desigualdade. Envolverde/IPS


