UGANDA: Mulheres dirigem bancos para tempos difíceis

Wakiso, Uganda, 01/02/2012 – A maioria das ugandesas não conta com títulos de propriedade sobre suas terras que lhes sirvam de garantia para obter um empréstimo, e não podem pagar os altos juros bancários.

Dorothy Kabajungu, de 50 anos, começou a vender lenha graças ao empréstimo que obteve em um banco para mulheres. - Wambi Michael

Dorothy Kabajungu, de 50 anos, começou a vender lenha graças ao empréstimo que obteve em um banco para mulheres. - Wambi Michael

Porém, seis bancos rurais com lideranças femininas começaram a mudar as suas vidas. Estas instituições facilitam o acesso a créditos, permitindo iniciar pequenos negócios e melhorar a segurança alimentar da solicitante e de sua família.

A cerca de 20 quilômetros da capital fica a aldeia de Wakiso. Aqui existe a Iniciativa de Agricultura Alimentar das Mulheres Africanas, uma cooperativa de poupança e crédito, um dos seis bancos rurais administrados por mulheres. Tem 1.600 poupadores e tomadoras de empréstimos e conta com apoio do The Hunger Project, uma organização internacional que promove soluções sustentáveis contra a fome.

"É um banco único por ser dirigido por mulheres e apoiar as mulheres, especialmente as dedicadas à agricultura.

Mobilizamos e incentivamos estas mulheres, para combater a fome e a pobreza economizando e tendo acesso a pequenos empréstimos", contou a gerente da cooperativa, Rose Nanyonga. Ao contrário dos bancos comerciais, a instituição é propriedade das mulheres que participam de seu crescimento, explicou. "Nossas integrantes compram ações no banco, assim são suas donas e obtêm dividendos no final de cada ano", disse Nanyonga. Também são mulheres as sete integrantes da junta diretora.

Os serviços não se limitam ao crédito. Na entrada estão à venda insumos agrícolas, lanternas e inclusive painéis solares. Joel Kamakec, do Hunger Project, disse à IPS que sua organização busca garantir que as clientes comprem as sementes e os equipamentos corretos com o dinheiro emprestado. "Com a atual crise energética que sofre o país, todos se apressam a comprar painéis solares. Contudo, pode acontecer de usar o empréstimo na compra de um equipamento de baixa qualidade. Assim, garantimos que obtenham o correto", acrescentou.

A diretora do Hunger Project em Uganda, Daisy Owomugasho, disse à IPS que o programa de microfinanças da aldeia é parte de uma estratégia que a organização promove em Uganda e em mais oito países africanos. "O crédito sob a forma de microfinanças tem por objetivo ajudar as comunidades a cultivar alimentos, ter acesso a insumos, a sementes melhoradas ou a qualquer outra coisa que possam precisar. Vemos isso como um enfoque integrado para acabar com a fome e a pobreza da população", afirmou Owomugasho, explicando que os homens também podem solicitar empréstimos.

As comunidades obtêm treinamento para lidar e usar efetivamente o crédito para sair da pobreza. "Entretanto, nos demos conta de que para dar poder às mulheres também é necessário que elas possam obter crédito. A elas é ensinado contabilidade e conhecimentos bancários para que possam manejar elas mesmas os bancos rurais", detalhou Owomugasho. Os seis bancos não apenas conseguem lucro como também registram uma proporção grande de pagamento dos empréstimos, porque suas integrantes sentem que são suas proprietárias, acrescentou.

A 14 quilômetros de Wakiso, uma cabine de metal azul fornece serviços bancários às áreas rurais que circundam Kikandwa Parish e zonas vizinhas. É administrada por Aisha Nansuna, que recebe os depósitos diários e facilita as retiradas quando as clientes não podem viajar até a sede central. Essa cabine ajudou a criar a cultura da poupança nas mulheres rurais de Wakiso, disse Nansuna à IPS. "As mulheres trazem até mesmo uma quantia menor para poupar porque o banco está perto", contou.

Nansuna também é beneficiária do banco. Atrás da cabine está sua bem abastecida loja de remédios. "Me beneficiei muito com nosso banco. Comecei com um empréstimo para avicultura e depois pedi US$ 1,5 mil que usei para montar esta farmácia", contou. Com o dinheiro que ganha conseguiu enviar um de seus filhos para a universidade.

Outra beneficiária, Dorothy Kabajungu, de 50 anos, disse à IPS que estes bancos cooperativos cobram juros menores do que os comerciais. "Agora pagamos 20% de juros, e nos dão dez meses para devolver a quantia. Soube que os outros bancos cobram em torno de 30% de juros", afirmou. "Este banco é muito bom porque é nosso. Gostamos muito porque não nos pressionam muito para pagar", acrescentou.

Kabajungu começou tomando emprestado US$ 125, que investiu em criação de aves. Quando pagou, recebeu outro empréstimo, de US$ 500, que também investiu na avicultura, mas também usou o dinheiro para começar a vender lenha. "Decidi me dedicar a este negócio, porque o carvão é muito caro e há procura por lenha", contou à IPS, acrescentando que nos cursos de capacitação ensinaram a identificar e dar seguimento a uma necessidade. Graças a essa formação aprendeu a sobreviver mesmo em tempos difíceis, afirmou. Envolverde/IPS

Wambi Michael

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *