UGANDA: Usar uma rádio comunitária depois da guerra de Kony

GULU, Uganda,, 15/02/2012 – A torre de transmissão em FM da Rádio Mega eleva-se do centro da cidade de Gulu, transmitindo debates e as últimas músicas mais populares para os ouvintes em todo o distrito. Mas também funciona como memória informal do esforços de paz efectuados pela rádio durante a destruição causada pelo Exército de Resistência do Senhor (LRA) no norte do Uganda. O LRA iniciou a sua guerra contra o governo do Uganda em 1987. Em meados dos anos 90, o comandante do LRA, Joseph Kony, atacou o seu próprio povo, os Acholi. Os seus combatentes mataram milhares de aldeões, raptaram e recrutaram milhares de crianças para o seu exército e levaram à fuga de cerca de dois milhões de pessoas para o campo para Deslocados Internos. Os líderes Acholi e funcionários das ONG, responsáveis por comunicarem com uma população em estado caótico com uma baixa taxa de alfabetização e elevada pobreza, precisavam de uma forma de começar a reorganizar as comunidades e a falar com os rebeldes acerca da paz e reconciliação. As estações da rádio em Gulu "“ o coração da Acholilândia "“ tornaram-se o eixo condutor desses esforços. Viraram-se para a rádio porque "pode chegar aos lugares mais longínquos," disse Arthur Owor, director da Associação dos Meios de Comunicação Social do Norte do Uganda, sediada em Gulu. Com um auscultador e uma bateria, os locutores podiam comunicar com dezenas de pessoas. "Os retornos líquidos eram muito elevados em termos da mensagem," disse. Nalgumas estações locais como a Mega, que existiam no início dos anos 2000, a programação era usada para envolver os rebeldes num diálogo de paz, e proporcionar um fórum para as comunidades começarem a discutir a temática da justiça e para os membros da famílias suplicarem aos seus filhos raptados que fugissem do LRA e regressassem a casa. Okema Lazech Santo é o coordenador de programas de Ker Kwaro Acholi, uma organização de líderes Acholi, que se descreve a si próprio como estando "no centro" da guerra e dos esforços de reconstrução. Refere que a rádio era "útil para mobilizar as pessoas. Era útil para apelar aos que tinham sido raptados que regressassem a casa… A única ferramenta que realmente funcionava de forma eficaz para trazer a paz ao norte do Uganda." Os membros da fraternidade da rádio do norte do Uganda assumem o seu papel de construtores da paz de forma muito séria. Frequentemente contrastam a resposta ao conflito na sua comunidade ao genocídio no Ruanda, onde a rádio foi usada para incitar ao assassinato. A Mega, que foi fundada em 2002 e rapidamente contou com o apoio do governo do Uganda e do Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional, foi criada "com a finalidade de ajudar a acabar com o conflito na região," de acordo com Nicky Afa-Ei, o funcionário responsável pelos programas na estação. Trabalha na estação desde o seu início. A mensagem principal da Mega era que a região queria paz. E o público-alvo não era necessariamente a comunidade mas antes os rebeldes que "tinham os seus próprios auscultadores" e que recebiam as transmissões da estação, refere Afa-Ei. A Mega criou programas para discutir a amnistia e a justiça tradicional, por vezes com o apoio das ONG, convidando as pessoas de "todos os quadrantes" a gravarem mensagens de paz: líderes tradicionais, pais e mesmo alunos. E a Mega encontrou o seu público. Um dia, no auge do conflito em Dezembro de 2002 "“ dois meses depois das estações terem começado a transmitir "“ Afa-Ei estava a orientar um programa de entrevistas quando recebeu uma chamada do próprio Kony. "Foi aí que as pessoas ouviram a sua voz pela primeira vez depois de muito, muito tempo," disse Afa-Ei. "Falou de forma cordial mas culpou o governo a certo momento, dizendo que não estava a ser realista." A conversa iniciou um comportamento próprio de Kony e os seus subalternos que usavam as estações de rádio locais para comunicarem com funcionários "“ e directamente com as pessoas "“ até que o governo considerou que os comunicados rebeldes se estavam a tornar em propaganda e recusou autorizar as estações de rádio de emitirem entrevistas sem estar presente um representante oficial. O programa emblemático da Mega "Regressa a Casa" "“ Dwag Paco na língua Luo local "“ ainda é referido de forma respeitosa pela comunidade, mesmo pelos funcionários das estações rivais. O programa tentou ultrapassar a propaganda do LRA e encorajar as crianças que tinham sido recrutadas à força a regressar às suas aldeias. O anfitrião do programa, John Lacambel, trouxe antigas crianças-soldado ao programa para descreverem o seu regresso, a fim de contrariar a afirmação do LRA de que seriam mortas se regressassem às suas famílias. Dwag Paco foi fundamental para os esforços de reconciliação na região, afirmou Santo. Fez "com que muitos dos rebeldes desertassem, tendo depois regressado a casa." Agora o Norte "“ especialmente Gulu "“ está a começar uma fase de expansão. O fim das hostilidades "“ resultado de conversações de paz inconsistentes e do esforço envidado pelas forças do Uganda em 2008 "“ assim como a migração das pessoas dos campos de Deslocados Internos de regresso às aldeias abriram caminho para a renovação de infraestruturas e novos negócios. A torre da rádio Mega já não chama a atenção numa linha do horizonte congestionada por bancos reluzentes, hotéis e mercearias. Outras sete estações de rádio comunitárias estão igualmente em funcionamento. "Estamos agora ocupados com o processo de recuperação e estabilidade," afimou Qswor. Isso significa que as estações de rádio também viram o seu papel alterar-se por forma a ajudar a reconstrução e o entretenimento de Guku. Em vez de programas das ONG, há agora mais programas de entrevistas na televisão e programas de notícias regionais. Os programas de música com telefonemas por parte público preenchem a hora do almoço. Mas a programação continua a lidar principalmente com as repercussões da guerra, afirmou Willy Chowoo, locutor na rádio Choice FM. Isso inclui a questão da amnistia para os soldados que regressam. Uma das práticas mais horríveis do LRA era obrigar os soldados a regressar às suas comunidades para pilhar, raptar e assassinar. Estes actos ajudavam a romper os laços entre os soldados e as suas comunidades. Sem local para onde pudessem regressar, os soldados ficavam mais firmemente presos ao exército. Ma,s com o LRA em fuga, alguns dos rebeldes "“ muitos dos quais foram vítimas de raptos quando crianças "“ estão a regressar gradualmente às suas aldeias. Os dramas gravados previamente criam situações onde as aldeias são confrontadas com a questão de como lidar com o problema. A mensagem, afirmou Chowoo, é "que não se deve retaliar. As pessoas não devem vingar-se. E as pessoas não devem responder ao pior com algo negativo." O trabalho que as estações estão a fazer ajusta-se perfeitamente à quarta das quatro intervenções "“ a reintegração de antigos rebeldes "“ que o Presidente Barack Obama já tinha planeado para a região antes do envio da tropas americanas para ajudar a caçar Kony no início do ano. Também há as questões do confisco das terras à medida que as pessoas regressam dos campos de Deslocados Internos, para descobrir que as suas casas foram ocupadas por outras pessoas, assim como da segurança alimentar na comunidade que durante muito tempo foi provida pelas ONG e dos cuidados de saúde básicos devido à falta de infraestruturas. Os líderes tradicionais e os membros da comunidade discutem estes problemas em debates públicos, com especialistas a oferecerem soluções durante os programas educativos. Embora os Ugandeses do norte sejam constantemente confrontados com o legado do passado, Afa-Ei disse que as estações de rádio comunitárias estão a tentar "construir um caminho para o futuro."

Andrew Green

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