Oportunidade para a América Latina com doenças esquecidas

Rio de Janeiro, Brasil, 02/02/2012 – O surgimento de economias emergentes na América Latina é uma oportunidade para melhorar as estratégias de combate a doenças esquecidas e ampliar sua contribuição à luta mundial contra elas, afirmou o diretor regional da Iniciativa Medicamentos para Enfermidades Esquecidas (DNDi), Eric Stobbaerts. "Nossa região passa por uma plena mutação em termos econômicos e sociais", destacou Stobbaerts ao citar os avanços nesse aspecto no Brasil, Chile, México, na Argentina e Colômbia. Essa mudança positiva deveria ser aproveitada para "redefinir a maneira como essas doenças foram abordadas no passado", várias delas endêmicas na região, como o mal de Chagas e a leishmaniose visceral, afirmou à IPS na sede da DNDi no Brasil.

Trata-se de males desatendidos pelos grandes laboratórios internacionais por serem consideradas "doenças de países pobres", sem maior retorno lucrativo no desenvolvimento de remédios para combatê-las. O surgimento dessas economias emergentes no cenário mundial "significa mais recursos disponíveis para o desenvolvimento, a produção industrial e a inovação no combate a doenças tropicais esquecidas", disse Stobbaerts.

O especialista conversou com a IPS após o encontro "Unidos para combater as enfermidades tropicais esquecidas", realizado em Londres no dia 30 e organizado em apoio ao "Mapa do caminho 2020 para as doenças tropicais esquecidas", com o qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) pretende erradicar dez delas nesta década.

A DNDi comemorou em um comunicado, ao final do encontro na capital britânica, os avanços alcançados em nível mundial. Mas, exortou no sentido de se acabar com as lacunas em pesquisa e desenvolvimento para melhorar as ferramentas de diagnóstico e criar novos medicamentos antes de terminar esta década.

A iniciativa é uma organização não-governamental de pesquisa e desenvolvimento sem fins lucrativos que desde 2003 trabalha no desenvolvimento de medicamentos e tratamentos para as doenças esquecidas. Foca-se especialmente em enfermidades com alta taxa de mortalidade: a tripanosomiasis africana (doença do sono), infecções por vermes e aids infantil, além do Mal de Chagas e da leishmaniose visceral.

Stobbaerts destacou que a América Latina é tradicionalmente uma região com altos níveis endêmicos e um grande depósito de doenças desatendidas, para as quais existe "ótimo conhecimento técnico e científico". Acrescentou que, "no entanto, as necessidades continuam sendo grandes diante da variedade de doenças esquecidas devido às leis de mercado, e grande número de pacientes continua sem tratamento".

A DNDi tem entre seus sócios na América Latina a Fundação Fiocruz, e laboratórios públicos como Farmanguinhos e Lafepe, no Brasil. Entre seus sócios fora da região se destacam o Instituto Pasteur, da França, e a organização Médicos Sem Fronteiras. Estas sociedades permitem acordos com o setor privado e instituições acadêmicas para desenvolver atualmente projetos no Brasil, na Argentina, Bolívia e Colômbia.

Além disso, foi possível desenvolver em nível mundial seis tratamentos para a malária, a doença do sono ou a leishmaniose. Desde a América Latina se contribuiu com um remédio infantil contra o Mal de Chagas, o benznidazol pediátrico (http://envolverde.com.br/noticias/brasil-desenvolve-medicamento-contra-mal-de-chagas/).

"O apoio político em todas as fases da pesquisa e do desenvolvimento foi fundamental para esses êxitos", recordou Stobbaerts. "Mas, sabemos que não são suficientes os esforços em termos de desenvolvimento farmacêutico", disse o especialista. "As regulamentações e a distribuição, bem como os sistemas de saúde, são essenciais para o sucesso da inovação. São inúmeras as barreiras que podem fazer com que um novo medicamento fique na prateleira", ressaltou.

Stobbaerts citou como exemplo o que ocorre na América Latina com o mal de Chagas, ou tripanosomiasis americana, por suas vinculações com a doença do sono. As pessoas portadoras ou infectadas da região com o parasita tripanosoma cruzi, muitas sem saber disso, passam de oito milhões. A doença afeta especialmente Brasil, Argentina, Bolívia, México e Paraguai, e as mortes registradas relacionadas com esse mal são cerca de 12 mil ao ano, embora se considere que, na realidade, sejam muitas mais, porque "existe um sub-registro evidente", segundo o diretor da DNDi.

A falta de ferramentas adequadas para diagnosticar o mão de Chagas é outro problema. "Há urgência em contar com um exame para o diagnóstico que permita de maneira confiável um tratamento de sucesso", afirmou. "Sem isso, se continua tratando sem ter a perspectiva da situação parasitária do paciente no longo prazo. Isso exige intenso acompanhamento médico e um custo para os serviços de cuidados de saúde primária e secundaria", acrescentou Stobbaerts.

"O desafio é conseguir ferramentas que sejam aplicáveis no terreno, muitas vezes em lugares remotos e isolados. Ou seja, que sejam fáceis na utilização e no manejo para o pessoal da saúde no local. E, também, que sejam de tecnologia barata, devido aos limitados orçamentos de saúde pública", ressaltou o especialista.

No encontro de Londres a DNDi mencionou entre outros aspectos-chave no combate das doenças esquecidas os da promoção da inovação, o intercâmbio aberto dos conhecimentos e da pesquisa, e a criação de associações de instituições públicas e privadas para o desenvolvimento de medicamentos.

Nesse sentido "“ afirmou-se "“ nesta região "se trabalha desde a sociedade civil até as áreas mais avançadas da ciência no sentido de demandar posições abertas com soluções pragmáticas dos grandes países da América Latina nos fóruns internacionais, com a Assembleia Mundial da Saúde ou o G-20" (maiores países industrializados e emergentes). Para Stobbaerts, existe "um caminho na região que traz esperança".

"As universidades se mobilizam, abrindo bibliotecas e laboratórios a iniciativas sem fins lucrativos, o setor farmacêutico privado parece mais interessado em questões de responsabilidade social e corre um vento de filantropia privada que poderia se interessar mais em questões de saúde", acrescentou o especialista.

Para a DNDi as plataformas regionais para a pesquisa clinica de doenças específicas, que aglutinam pesquisadores, médicos, reguladores, controladores nacionais e, idealmente, os próprios afetados, "são vitais para garantir que trabalhamos com base nas necessidades dos pacientes". Nesse contexto, citou a Plataforma de Pesquisa Clinica no Mal de Chagas, que desde 2009 reúne um grande número de associados na América Latina.

A DDNi também disse que é chave garantir a participação e a liderança dos países endêmicos para responder aos pacientes e conseguir um financiamento sustentável e diversificado para ampliar o desenvolvimento e a pesquisa. "Aqui o interesse de nossa região é duplo: por estar liderando em nível global, proporcionando novas ideias, além de resolver emergências de saúde que se sofre localmente. É um trabalho cotidiano para alimentar a reflexão e romper os modelos de que pouco se pode fazer", concluiu Stobbaerts. Envolverde/IPS

Fabiana Frayssinet

Fabiana Frayssinet nació en Buenos Aires, Argentina. Ha colaborado con IPS desde 1996, abordando con reportajes y crónicas la realidad brasileña. Se desempeña como corresponsal extranjera desde 1989, primero desde América Central y luego desde Brasil, donde se instaló en 1996, colaborando con medios internacionales de radio, televisión y prensa: CNN en Español, Univisión, Telefé de Argentina y los servicios latinoamericanos de Radio Suecia y de Radio Nederland.

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