ILOCA, Chile, 28/02/2012 – (Tierramérica).- O presidente do Chile, Sebastián Piñera, não poderá cumprir sua promessa de reconstrução após o terremoto de 2010: 110 mil moradias reparadas e 112 mil novas até o final de seu mandato em 2014.

Casa no povoado costeiro de Iloca mostra, dois anos depois, a magnitude do tsunami - Marianela Jarroud/IPS
Na madrugada de 27 de fevereiro de 2010, Rosa Núñez, de 75 anos, não conseguia conciliar o sono. Ela vive no pequeno povoado turÃstico de Iloca, no litoral do PacÃfico, aonde se chega, a partir de Santiago, percorrendo 300 quilômetros de carro na direção sul. Ali teve durante anos um pequeno restaurante em uma casa que a água levou. Como não dormia, quando começou o terremoto saiu correndo de sua casa e o suportou na intempérie.
A casa ficava a cerca de cem metros do mar e a 30 metros de um morro frondoso onde se refugiou junto com a famÃlia de seu filho mais velho. Já no morro, ficou de costas para o Oceano a fim de não presenciar a destruição. "Não esqueço o som do mar destruindo tudo, levando tudo o que construÃmos com tanto esforço", contou ao Terramérica. Duas horas depois, quando regressou com seu filho, comprovou que "o mar levara tudo. Não havia paredes, o mar havia engolido tudo". Hoje, vive em uma pequena casa sólida que já possuÃa perto da que perdeu e que conseguiu recuperar com ajuda.
Seu filho mais velho mora ao lado, em uma pequena construção que levantou a partir da metade de uma meia-água (casa pré-fabricada, de madeira, sem banheiro) que recebeu em doação. Seu filho mais novo, pescador de ofÃcio, ocupa uma cabana de madeira com banheiro em um pequeno conjunto habitacional doado por um estrangeiro. Na parte posterior, está construindo uma casa mais sólida. Perdido o restaurante, Rosa sobrevive da ajuda de seus filhos.
A paisagem de Iloca, na região central do Maule, não recuperou sua tranquila beleza. Os escombros continuam na costa. Casas que foram luxuosos abrigos de veraneio ainda se erguem com vista para o mar, mas com danos irreparáveis. Apenas a metros delas, pescadores e trabalhadores rurais vivem em acampamentos de meia-água. Segundo dados oficiais, foram feitas 76 mil obras de reparação e reconstrução de moradias nas seis regiões afetadas (BÃo-BÃo, La AraucanÃa, Maule, O"™Higgins, Santiago e ValparaÃso) e outras 140 mil estão em execução.
Entretanto, esses dados são refugados pelas vÃtimas, que se queixam da lentidão na reconstrução. Lorena Arce, porta-voz das vÃtimas do povoado costeiro e turÃstico de Dichato, em BÃo-BÃo, no sul, afirma que apenas 10% das casas derrubadas ali foram reconstruÃdas, e correspondem a pessoas de escassos recursos que habitam em acampamentos ou aldeias. Os outros 90% das famÃlias que ficaram sem teto são de classe média, e muitas não foram atendidas pelo programa de reconstrução do governo, assegurou Lorena.
Para a senadora Ximena Rincón, do opositor Partido Democrata Cristão, "o governo fixou números para poder medir um maior avanço mesclando subsÃdios de reconstrução com subsÃdios ordinários". Há "uma mistura pouco transparente, que não permite dimensionar qual é progresso real", disse ao Terramérica. O presidente Sebastián Piñera se comprometeu a entregar 110 mil casas reparadas e 112 mil novas ao término de seu mandato em março de 2014. Esta promessa não será cumprida, afirmou Ximena, senadora pelo Maule. "Haverá muita frustração na população por causa das promessas não cumpridas", ressaltou.
Em viagem por cinco das seis regiões afetadas, entre os dias 21 e 27 deste mês, o presidente repetiu seu compromisso de que "nenhuma famÃlia passará mais do que dois invernos vivendo em aldeias que eram soluções de emergência e transitórias". Contudo, reconheceu que isto "não será possÃvel antes de começar o próximo inverno" austral. Enquanto isso, a televisão divulga uma campanha publicitária que custou US$ 805 mil sobre os progressos na reconstrução.
O território afetado é uma faixa de 600 quilômetros de extensão. Rosa e grande parte dos moradores de Iloca e seus arredores asseguram que não viram a ajuda do governo. Como puderam, se colocaram de pé lançando mão de suas economias e com doações privadas de meia-água e utensÃlios domésticos para os mais necessitados. Os especialistas acreditam que o problema está no modelo da reconstrução, centrado na promoção da construção de casas por meio da destinação de subsÃdios que devem ser executados pela indústria imobiliária.
Se as empresas estimam que os subsÃdios governamentais estão abaixo do valor que cobram pela casa construÃda, o negócio não é lucrativo para elas, e o Estado não pode responder. Além da lentidão, segundo Lorena, as empresas entregam casas de menor qualidade para compensar a rentabilidade que consideram reduzida. O Chile conta com normas antiterremotos para a construção, mas elas não existem em relação a tsunami. Neste aspecto, a localização das edificações e a proximidade da costa são cruciais.
Lorena afirma que há expropriação de terrenos na borda costeira, mas, ao mesmo tempo, são erguidos nestas áreas grandes edifÃcios ao estilo de complexos turÃsticos. Porém, ela não perde a esperança.
"Esperamos que o governo trabalhe com consciência, que reconheça que ainda há muito por construir, que dê mais recursos porque são necessários, não pode fazer uma reconstrução de papelão, que aplique mais esforços, que tenha polÃticas de Estado que sejam contÃnuas e transpassem para o novo governo que começará em 2014", manifestou ao Terramérica.
Não há dados oficiais sobre escolas danificadas ou destruÃdas, mas muitas foram substituÃdas por salas modulares pré-fabricadas, com a de Iloca, que foi doada por privados. Estudantes secundaristas, que em 2011 protagonizaram o maior protesto social em 20 anos de democracia, preparam mobilizações contra a lenta reconstrução das escolas, e organizações da sociedade civil aprontam uma pesquisa pública nacional sobre os avanços no tema.
* A autora é colaboradora da IPS.

