Vacinas antidrogas enfrentam obstáculos

Cidade do México, México, 09/02/2012 – As vacinas contra drogas aparecem como uma estratégia melhor do que o enfoque repressivo da guerra contra quem as usa em todo o mundo, mas primeiro devem superar os muros dos laboratórios e encontrar apoio financeiro. Experimentos contra a dependência da cocaína e da heroína feitos no México e nos Estados Unidos estão em marcha, mas ainda precisam de dois ou três anos de trabalho para comprovar se o tratamento é viável. Além disso, devem ser esclarecidos dilemas éticos, como a obrigatoriedade de medicação para os viciados e a autorização de doses para menores de idade.

"Teria que se pensar em outras formas de aplicação. É preciso tirar o efeito agradável das drogas, o que é factível. Contudo, seria preciso começar a fazer isso em meninos e meninas, o que implica uma série de temas legais e éticos", explicou o médico Rogelio Rodríguez à IPS. Em sua clínica particular, Rodríguez oferece tratamentos à base de soros contra a dependência da cocaína e do álcool, acompanhados de terapia psicológica. Durante sete dias, ao custo diário de US$ 64, o paciente recebe uma dose que acaba provocando a rejeição à droga e o afastamento dela.

O Ministério da Saúde do México já patenteou uma vacina contra a heroína, aplicada com êxito em ratos e que em breve deve passar à fase de testes em humanos, e para isto o governo busca financiamento internacional. Como o sistema imunológico humano não pode detectar a presença de moléculas de drogas, a injeção engana o organismo ao criar anticorpos que isolam os componentes químicos das drogas. Assim, o viciado já não sente seus efeitos e abandona o consumo.

Em 2008, havia no México pelo menos 465 mil viciados, segundo estimativa da Pesquisa Nacional sobre Drogas daquele ano, cuja atualização está sendo feita. O estudo revelou que o consumo de drogas ilegais e médicas na população rural e urbana chegou a 5,7% da população entre 12 e 65 anos de idade. Substâncias ilegais, como maconha, cocaína, heroína e anfetaminas ficaram em 5,2%. Maconha e cocaína são as de maior consumo, com 4,2% e 2,4%, respectivamente, seguidas pelas substâncias inaláveis, anfetaminas e heroína.

A vacina "é promissora para os usuários que querem ajuda. Porém, não é uma cura nem um bloqueio completo", esclareceu à IPS o professor Frank Orson, do Departamento de Patologia e Imunologia do Colégio Baylor de Medicina, na cidade norte-americana de Houston. No artigo Desenvolvimento de uma vacina contra a cocaína, publicado na revista Expert Review of Vaccines, em 2010, Orson e seus colegas norte-americanos Berma Kinsey e Thomas Kosten destacam a persistência de "uma necessidade urgente de novos tratamentos para o vício pela cocaína, especialmente porque não há intervenções farmacológicas efetivas disponíveis para ela", ao contrário da morfina ou da heroína.

Os primeiros experimentos sobre vacinação contra morfina e heroína datam da década de 1970, mas depois desapareceu, talvez pela disponibilidade da metadona para os usuários de heroína. O interesse ressurgiu em 1992, quando se registrou um tratamento preventivo contra o pó branco que produziu anticorpos em ratos vacinados.

Após assumir o cargo em dezembro de 2006, o presidente do México, Felipe Calderón, enviou milhares de policiais e soldados para combater o narcotráfico, uma campanha repressiva que deixou mais de 47 mil mortos, segundo os últimos dados governamentais, mas que contagens jornalísticas situam em mais de 50 mil. Por essa razão, o enfoque preventivo e clínico ganha preponderância, embora o desenvolvimento das vacinas exija apoio financeiro para sua elaboração em escala industrial.

"Não é negócio para a indústria e o mesmo acontece com outras doenças. O Estado teria que subsidiar. Já ouvimos que vem uma vacina e nada acontece", lamentou Rodríguez, que tentou introduzir, inutilmente, seu tratamento em prisões da cidade do México, "mas fizeram muitas exigências".

A Pesquisa Nacional sobre Drogas detectou que os adolescentes são os que mais caem na dependência. Sua pesquisa registrou que 35,8% dos entrevistados nessa faixa etária são usuários, 24,6% dos adultos entre 18 e 25 anos, e 14,5% dos maiores de 25 anos. Também mostra que metade dos fumantes de maconha a provam antes da maioridade, enquanto apenas um terço havia consumido cocaína antes dos 18 anos. Mas é diferente o caso dos adultos entre 18 e 25 anos, que começaram a usar cocaína, alucinógenos e heroína nesse período.

"É impossível as empresas farmacêuticas se comprometerem com a produção comercial. Serão necessários subsídios, pois o mercado é pequeno, com os que precisam de tratamento e não têm, geralmente, muito dinheiro disponível", comentou Orson. O desenvolvimento destes métodos apresenta dilemas profundos, por exemplo, se os pais devem autorizar que seus filhos sejam inoculados, se o Estado pode obrigar infratores menores a se submeterem aos tratamentos, ou a proteção dos dados pessoais de quem se vacinar.

"Melhores vacinas ou novos métodos não serão a conclusão para tratar o abuso de substâncias. O usuário de drogas interessado necessitará de outras intervenções, como terapia e programas de reabilitação para superar o vício", sugerem Orson, Kinsey e Kosten em seu artigo. "Os programas antidrogas escolares devem ser fortalecidos, pois o vício por cocaína normalmente começa antes dos 20 anos", alertaram.

Também recomendaram que o sistema judiciário deve reconsiderar a prisão indiscriminada de usuários de cocaína e oferecer ajuda em lugar de castigo. A Pesquisa Nacional sobre Drogas mostra que 16% dos usuários procuram tratamento e que os grupos de ajuda mútua, como os viciados anônimos, são recursos importantes. Envolverde/IPS

Emilio Godoy

Emilio Godoy es corresponsal de IPS en México, desde donde escribe sobre ambiente, derechos humanos y desarrollo sustentable. En el oficio desde 1996 y radicado en Ciudad de México, ha escrito para medios mexicanos, de América Central y de España.

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