PETRÓLEO: Abundância energética cubana poderia vir do mar

Havana, 16/02/2012 – A busca por petróleo em águas cubanas do Golfo do México, iniciada pela empresa espanhola Repsol, abre encontradas conjecturas sobre o futuro de Cuba e sua eventual passagem de importador a exportador de petróleo. Por sua significação estratégica para Cuba e seu vizinho Estados Unidos, a energia poderia ser, inclusive, área importante de uma colaboração que, no médio prazo, contribua para a normalização das relações entre os dois países, afirmam analistas. No entanto, as autoridades e o pessoal cubano vinculado à indústria do petróleo mantêm discreto silêncio. O órgão estatal Cupet limitou-se a confirmar a chegada, em 19 de janeiro, da plataforma petrolífera Scarabeo 9 para "reiniciar nos próximos dias a campanha de perfuração de poços de exploração petrolífera em águas profundas". A Scarabeo 9 tem capacidade de explorar a uma profundidade superior a 3.600 metros.

Supõe-se que as operações de perfuração começaram no final de janeiro. Segundo o Cupet, o objetivo dos trabalhos é continuar as pesquisas para determinar o potencial de petróleo e gás da zona econômica exclusiva (ZEE) e seus resultados ajudarão a determiná-lo. Cuba, que em 1991 abriu-se ao investimento estrangeiro, definiu nessa zona, de 112 mil quilômetros quadrados, 59 blocos com possibilidades de abrigar gás e petróleo. No dia 11, o diretor de exploração e produção do Cupet, Rafael Tenreiro, reiterou que a estimativa potencial de hidrocarbonos na ZEE é de 20 bilhões de barris.

Na apresentação do livro Perfuração de poços de petróleo marinhos, de Roland Fernández, supervisor do grupo de operações do Golfo, Tenreiro considerou "possível" que Cuba se converta em exportadora. Temos que preparar o país para essa boa notícia"™, que pode permitir a produção de tecnologia e a participação em todo esse processo, acrescentou. Em 2011, grandes companhias operadoras já haviam contratado mais de 20 blocos submarinos. Além da Repsol, têm contratos na área a norueguesa Statoil, a indiana ONGC Videsh, a Petronas da Malásia, a vietnamita Petrovietnam, a russa Gazprom, a angolana Sonangol e o consórcio Petróleos da Venezuela (PDVSA).

Pensando no possível sucesso das explorações, o acadêmico Fernando Martirena disse à IPS que "evidentemente" um desenvolvimento petroleiro de envergadura oxigenaria os programas governamentais em andamento e representaria uma "necessária entrada de divisas novas na tensa economia nacional". Este cenário, "junto com o pacote de medidas aplicadas em consequência da atualização do modelo econômico cubano, esquentará o bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba", acrescentou.

O embargo disposto por Washington, que este mês completou meio século de aplicação, impede empresas dos Estados Unidos de aproveitarem um eventual boom petroleiro cubano. Se o congresso desse país quiser ser pragmático, "terá que decidir entre continuar apoiando o histérico grupo cubano-americano que tanto lobby faz com o tema do bloqueio, ou simplesmente aceitar a realidade de que não há razões" para manter essa política, afirmou o professor universitário.

Legisladores norte-americanos de origem cubana, liderados pela presidente do influente Comitê de Assuntos Exteriores da câmara, ileana Ros-Lehtinen, tentou impedir as operações da Repsol em águas cubanas alegando razões ambientais e de segurança para os Estados Unidos. Contudo, antes de chegar a Cuba, a plataforma Scarabeo 9 "“ de fabricação chinesa e montada em Cingapura para evitar o embargo norte-americano "“ passou com êxito na inspeção do Escritório de Segurança e Controle Ambiental do Departamento do Interior (BSSE) e do Serviço de Guarda Costeira dos Estados Unidos.

Cupet também garante que o equipamento de última geração arrendado pela Repsol conta com meios necessários e devidamente verificados para garantir que as operações sejam eficientes e seguras. As tarefas de busca podem durar cerca de dois meses e meio. "Tecnicamente, as probabilidades de na área econômica de Cuba ocorrer algum incidente são muito menores, não só pelas previsões, mas por razões puramente estatísticas. Trata-se de uma plataforma contra as incontáveis que existem fora da zona cubana", no Golfo do México, informou à IPS o economista Luis René Fernández.

Especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos, Fernández admitiu que os riscos políticos estão associados aos enfoques de segurança e aos impactos ecológicos. No entanto, há experiências que ajudam a pensar que esses também "podem e devem ser reduzidos". A "Venezuela bolivariana não deixou de fornecer petróleo aos Estados Unidos, apesar de tentar diversificar os mercados", ponderou Fernández. Os acordos migratórios entre Havana e Washington e as compras cubanas de alimentos norte-americanos continuam, "apesar de todas as restrições e limitações", acrescentou.

"Nestes casos, entre as razões para certo tipo de comunicação e colaboração, figura sempre a mesma: a geografia importa, existem assuntos comuns que as duas partes têm benefícios em tratá-los diretamente, e mesmo colaborar. Não fazê-lo pode ter altos custos econômicos, e inclusive para o meio ambiente a segurança", alertou. Fernández recordou que Washington não é um "ator unificado" e existem diferentes instâncias para tratar assuntos como os energéticos e ambientais. "Há especialistas e profissionais que cumprem suas missões e podem ter impactos reais na política concreta", tanto pela proximidade geográfica quanto por ser "aconselhável cooperar além das diferenças políticas e ideológicas", ressaltou.

Em sua opinião, as duas nações se movem a médio "e sobretudo" a longo prazo para uma normalização de relações, além da conjuntura política nos Estados Unidos. "Do lado cubano, sabe-se da disposição em colaborar e mesmo debater em condições de respeito e igualdade todos os assuntos do conflito bilateral", recordou. "Assim, esta pode ser outra área importante dessa cooperação, precisamente pelo significado estratégico que têm os produtos energéticos, tanto para Estados Unidos quanto para Cuba", destacou. "Resumindo, há riscos? Sem dúvida, mas a balança se inclina decididamente para os benefícios da colaboração", concluiu. Envolverde/IPS

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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