DESTAQUES: Cientistas vinculam La Niña com a gripe

CIDADE DO MÉXICO, México, 14/02/2012 – (Tierramérica).- Pesquisadores sugerem estudar as relações entre variações climáticas, aves migratórias e pandemias de gripe.

Gansos azuis em voo de inverno sobre a Floresta Apache, no Novo México, Estados Unidos - Photostock/IPS

Gansos azuis em voo de inverno sobre a Floresta Apache, no Novo México, Estados Unidos - Photostock/IPS

As variações climáticas poderiam influir na propagação de pandemias como a da gripe A/H1N1, inicialmente conhecida como gripe suína, surgida no México e nos Estados Unidos em 2009.

Esta é a hipótese de um artigo científico que propõe investigar os vínculos entre variações climáticas, migrações de aves e pandemias de gripe.

"Examinamos as quatro pandemias de gripe "“ de 1919, 1957, 1968 e 2009 "“, e encontramos que cada uma ocorreu na primavera ou no começo do verão boreal, precedida por temperaturas da superfície marinha abaixo do normal, indicador da fase do La Niña", explicou ao Terramérica o doutor em ciências climáticas, Jeffrey Shaman, da Mailman School of Public Health, da Universidade de Columbia.

"Sabe-se que as aves silvestres são o primeiro reservatório de vírus da gripe A e que facilitam a emergência de novas linhagens pandêmicas, transmitindo vírus para humanos e animais domésticos", diz o artigo escrito por Jeffrey e seu colega Marc Lipsitch, da Harvard School of Public Health.

"As aves migratórias, com suas viagens de longa distância e muitas escalas, são consideradas particularmente cruciais para a mescla e recombinação dos genomas dos vírus de gripe", afirmam os autores.

O artigo The El Niño-Southern Oscillation (Enso) "“ Pandemic Influenza Connection: Coincident or Causal? (O Fenômeno El Niño Oscilação do Sul (Enos) "“ Conexão com a Gripe Pandêmica: Coincidência ou Casual?) foi publicado em janeiro pela revista Proceedings of the National Academy of Sciences, dos Estados Unidos.

O La Niña é a fase fria do Enos, um fenômeno climático e marítimo cíclico, que afeta os padrões meteorológicos em todo o mundo e é parte do sistema que regula o calor na zona entre os trópicos no Oceano Pacífico oriental.

O Enos está pautado por mudanças na temperatura da superfície oceânica e na pressão atmosférica. O La Niña transporta água mais fria ao longo do Pacífico e costuma apresentar-se com uma frequência entre dois e sete anos, mas também de forma consecutiva, como ocorreu em 2011 e nos primeiros meses de 2012.

Os especialistas sugerem que as condições do La Niña podem juntar subtipos divergentes de gripe em algumas partes do mundo, e favorecer a recombinação da doença mediante infecções múltiplas e simultâneas em portadores individuais e a geração de novas cepas pandêmicas.

O Enos afeta a saúde e o comportamento das aves migratórias, ao alterar a biomassa dos animais, os padrões de voo e escalas, o tempo de troca da plumagem e a densidade populacional.

A Oscilação do Sul muda drasticamente as condições meteorológicas "“ temperatura, precipitação pluvial, velocidade e direção do vento "“, que por sua vez podem influir no comportamento das aves.

Em abril de 2009, começaram a surgir no México casos de um tipo de gripe A até então desconhecido, que logo seria batizado de H1N1.

Devido à onda de contágios, o governo federal e a prefeitura da Cidade do México ordenaram o fechamento de escolas e estabelecimentos comerciais, e a suspensão de atividades públicas como concertos e missas.

Em junho daquele ano, a Organização Mundial da Saúde declarou estado de pandemia e promoveu o desenvolvimento de vacinas e o fornecimento do medicamento oseltamivir, que o laboratório Roche vende sob o nome de Tamiflu.

"Sempre se soube que as variações climáticas mudam os vírus, desde o tempo dos gregos. Eles evoluem muito em épocas de frio e seca, e agora as duas condições se juntam", explicou ao Terramérica o médico mexicano, Federico Ortiz, que em 2009 publicou o livro Código A (H1N1). Diário de uma Pandemia.

Desde 2009 até este mês, foram registrados no México 252.388 casos de gripe, dos quais 75.328 correspondem ao A/H1N1, segundo o Ministério da Saúde. Morreram 2.261 pessoas, 1.837 pela nova cepa.

Entre 2011 e este ano, parece ter ocorrido uma onda de contágios. No ano passado, foram registrados 925 casos de gripe, 345 de A/H1N1. Neste 2012, já foram contabilizados 2.815 infectados, e 2.544 pelo novo vírus.

No ano passado, morreram 50 pessoas no México por gripe, e 40 delas por A/H1N1. Nos dois primeiros meses de 2012, os mortos foram 58 e 54, respectivamente.

"O efeito do Enos sobre a saúde e a conduta das aves migratórias poderia ser um meio pelo qual o ambiente em grande escala altera a probabilidade de eventos de recombinação do vírus da gripe e a transmissão para portadores humanos", ponderou Jeffrey.

Para provar sua hipótese, os acadêmicos sugerem estudar a genética das populações de gripe, a prevalência dos vírus em várias espécies portadoras e os padrões de migração de aves.

Há uma ampla literatura que documenta os efeitos do Enos em doenças infecciosas como malária, dengue e cólera, e alguns estudos parciais sobre seus vínculos com epidemias locais de gripe sazonal.

Entretanto, até agora, "nossa capacidade para prever o desenvolvimento de uma gripe pandêmica é limitada", afirmam os autores.

"A gripe típica tem maior incidência e mortalidade. O A/H1N1 não é tão letal como se pensou", afirmou Federico.

"No entanto, conforme o vírus se expande, aumenta sua diversidade genética. Por isto, é possível que haja um crescimento maior", previu.

* O autor é correspondente da IPS.

Emilio Godoy

Emilio Godoy es corresponsal de IPS en México, desde donde escribe sobre ambiente, derechos humanos y desarrollo sustentable. En el oficio desde 1996 y radicado en Ciudad de México, ha escrito para medios mexicanos, de América Central y de España.

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