Brics pensa em novo banco próprio

Moscou, Rússia, 20/03/2012 – A proposta da Índia, de criação de um banco do Brics, ocupará o lugar central da agenda na cúpula deste grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que acontecerá no dia 28 em Nova Délhi. A Índia considera que a ideia de um banco conjunto está em concordância com o crescente poderio econômico destes cinco países e permitirá reafirmar sua posição nos processos de decisão globais.

"Um banco do Brics não precisa de muito capital para começar", afirmou à IPS o especialista Alexander Appokin, do Centro de Previsões e Análise Macroeconômica, com sede em Moscou. "O mais importante é que um banco de desenvolvimento do grupo será uma oportunidade única de investimento direto interno das reservas estrangeiras dos países-membros", ressaltou.

Por exemplo, permite emitir dívida conversível, que pode ter uma boa qualificação e ser comprada pelos bancos centrais dos países do grupo. "A China seria a maior beneficiária", acrescentou Appokin. "Além disso, o que mais exige o investimento em infraestrutura não é só financiamento de longo prazo, mas controle externo para melhorar a transparência e aumentar a eficiência", explicou.

"Um banco de desenvolvimento do Brics também ofereceria assessoria para implementar projetos de sucesso", destacou Appokin. "Este tipo de estrutura financeira só é efetiva se tem independência dos governos para decidir sobre a assistência de projetos ou, pelo menos, se tem espaço para operar em um contexto de desenvolvimento de longo prazo", acrescentou.

Yuhua Xiao, professor-adjunto do Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China, afirmou que a ideia de criar um banco de desenvolvimento é sinal do crescente domínio e de independência ou interdependência das economias emergentes. "Como o enfoque das potências emergentes sobre o desenvolvimento pode variar a respeito das normas estabelecidas, uma instituição como esta colocará à prova a possibilidade de cooperação em um contexto diferente e gerar novas ideias", opinou Yuhua à IPS por e-mail.

A proposta da Índia vem de longa data, afirmou John Masaka, analista financeiro da multinacional Wells Fargo Capital Markets. "É a forma como as nações emergentes procuram sair da dependência do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional" (FMI), dominados pelos países ricos, disse à IPS. "Basicamente, Índia, China e, talvez, Rússia, tentem mostrar ao ocidente seu poderio econômico e que não sentem falta de sua participação", ressaltou.

Segundo Masaka, além de ser uma instituição financeira para os países Brics, o banco coletivo também poderia apoiar projetos de infraestrutura em países em desenvolvimento da África, Ásia e América Latina. Contudo, ainda há muito caminho pela frente, destacou. "É preciso ver a eficácia do banco. Não será fácil. A China já disse que quer a presidência permanente, e Rússia e Índia podem reclamar o mesmo", ponderou.

"Sabemos que a África é um mercado lucrativo para Pequim em termos de recursos naturais e como mercado de produtos industriais", acrescentou Masaka. "Sendo a África uma região estratégica, a China pode querer que o banco financie muitos de seus projetos ali ou simplesmente que coopere com o Banco de Desenvolvimento Africano", detalhou.

Masaka também disse que há assuntos que não têm resposta quanto à estrutura do capital, como quais membros do Brics colocarão maior quantidade de dinheiro para criar o banco e o papel que terão os membros. Albert Khamatshin, do Centro de Estudos sobre a África austral, da Academia de Ciências da Rússia, acredita que a África do Sul seria o país mais beneficiado, pois o principal centro de interesse do banco seriam os projetos de desenvolvimento dentro do Brics.

Alexandra A. Arkhangelskaya, diretora do Centro de Informação e Relações Internacionais, do Instituto de Estudos Africanos da Academia de Ciências da Rússia, afirmou que um banco como este poderia mudar o equilíbrio econômico, embora sua criação seja difícil. "É bom em termos de um contexto multicultural de cooperação. Porém, os países do Brics têm diferente peso econômico, e encontrar o equilíbrio correto para evitar que um ou mais membros sejam dominantes poderá significar um desafio. A ameaça de que alguns sejam marginalizados pela China é evidente", ressaltou.

O grupo "Brics é uma unidade na diversidade, e será um desafio dar novos passos para uma cooperação mútua. Assim, é interessante observar o desenvolvimento desta ideia e compreender de forma clara o mecanismo de sua implementação", destacou Arkhangelskaya. Também considerou que o banco poderá ser muito benéfico para outros, como as nações menos adiantadas, como fez o Fundo de Desenvolvimento Ibas (Índia, Brasil, África do Sul), que tem em seu haver vários projetos de sucesso.

Os países em desenvolvimento estariam dispostos a colocar dinheiro para resolver os problemas da zona do euro em troca de mais poder no FMI, afirmou o professor Adams B. Bodomo, da Faculdade de Humanidades da Universidade de Hong Kong. Entretanto, alertou que o Fundo Monetário Internacional não é realmente para os países em desenvolvimento e o chamou de Fundo Monetário Ocidental. Envolverde/IPS

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

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