NAIROBI, 20/03/2012 – Jesse Mtembe, enfermeiro no Centro de Saúde de Akithenesit, em Teso Norte, na ProvÃncia Ocidental do Quénia, mal pode esperar que o centro fique ligado ao novo sistema de software que faz o diagnóstico do VIH em bebés e que está a ser desenvolvido na principal universidade privada do paÃs. Dentro em breve, os doentes de Mtembe poderão receber os resultados dos exames de VIH dos filhos logo que as relevantes análises de sangue sejam efectuadas num dos laboratórios centrais do paÃs, localizado a mais de 200 quilómetros de distância. Actualmente, os pais nos centros de saúde rurais esperam cerca de 18 semanas pelos resultados destas análises.
Desde 2011 que os alunos da Universidade de Strathmore no Quénia desenvolvem e aperfeiçoam o software ligado ao diagnóstico do VIH em bebés. Este software já foi implementado em 75 centros de saúde nas regiões mais remotas do paÃs como parte dos ensaios da primeira fase.
O software parece bastante simples. Logo que as colheitas de sangue chegam a um dos quatro laboratórios do Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças (CDC) do Instituto de Investigação Médica do Quénia (KEMRI), todas as colheitas são registadas no sistema. Depois de isto ser feito, o software automaticamente cria um serviço de mensagens curtas (SMS) para o centro de saúde onde a colheita foi recolhida para confirmar a respectiva recepção.
Depois de concluir o diagnóstico, o sistema envia outro SMS para confirmar a respectiva realização e, se o resultado for negativo, os resultados são igualmente apresentados. Os resultados são recebidos nas zonas rurais através de impressoras de SMS, sendo depois os pais informados pela clÃnica que os resultados já estão prontos.
"Nas impressoras de SMS que já instalámos nas clÃnicas rurais apenas enviamos os resultados negativos em tempo real. Isto deve-se ao facto de, como norma, todos os resultados positivos produzidos pelo equipamento que indica a reacção em cadeia da polimerase (PCR) têm de ser repetidos e confirmados a fim de evitar falsos positivos que podem ser o resultado de contaminação," explicou Oscar Mulondanome, técnico de laboratório no Centro de Alupe, um dos laboratórios do paÃs onde são realizados estes exames.
Ao contrário do que acontece com outros métodos para testar o VIH, como os exames rápidos, em que o doente recebe os resultados após alguns minutos, o teste do vÃrus em bebés exige o uso da técnica PCR, usada para ampliar a composição genética (ou ADN) de um único vÃrus ou de vários vÃrus do VIH.
No Quénia, o diagnóstico precoce em bebés é efectuado com o apoio do Programa Nacional de Controlo da SIDA e das Infecções Transmitidas Sexualmente (IST) e da Unidade de Investigação Médica do Exército dos Estados Unidos.
"A aplicação da base de dados permite a análise em tempo real da informação gerada por intervenções activas e tem uma cobertura geográfica alargada," disse à IPS Silvia Kadima, cientista que faz pesquisa sobre o VIH no laboratório do Instituto KEMRI.
"Contamos que, em Abril deste ano, a ferramenta de software seja adaptada à s necessidades locais do Quénia, e que essa seja a altura do seu lançamento oficial e da distribuição governamental," afirmou Kadima.
Explicou ainda que outros 50 centros iriam ser ligados, passando por fases experimentais adicionais antes do produto ser oficialmente distribuÃdo no fim do ano. O Quénia tem um total de 904 centros de saúde pública registados em todo o paÃs.
O sistema representa uma ajuda bem recebida em lugares longÃnquos como o Centro de Saúde de Akithenesit.
""Dada a localização do nosso centro de saúde numa área remota, estamos dependentes das listas entregues pelos funcionários do campo militar aqui perto referentes ao transporte das colheitas (para o Hospital de Alupe em Busia) a mais de 200 quilómetros de distância, onde há um centro que faz os testes do VIH em bebés," disse Mtembe.
É um percurso que demora pelo menos 10 horas devido ao mau estado da estrada.
"Após alguns meses, passamos pela mesma estrada para recolher os resultados. E se não estiveram prontos, então temos de organizar outra viagem num outro dia," contou Mtembe, que também dirige o centro, que só tem três enfermeiras.
Contudo, no Condado de Kitui, na ProvÃncia Oriental, os residentes afirmam que já estão a sentir o impacto do sistema.
"Para os meus primeiros dois filhos, recebi os resultados dos testes do VIH 18 semanas depois de ter sido colhida uma amosta de sangue, feita durante uma visita de rotina pós-natal na clÃnica. Mas para o meu terceiro filho, recebi um SMS cinco dias depois da colheita de sangue, pedindo-me que fosse buscar os resultados," contou Elizabeth Mwende, residente na aldeia de Mutomo, em Kitui.
A diferença de 17 semanas para receber os resultados dos testes do VIH em bebés é crucial para um tratamento eficaz.
"O diagnóstico dos bebés no prazo de seis semanas após o parto permite que se inicie atempadamente a terapia anti-retroviral (ART) para crianças com idade inferior a dois anos e pode salvar vidas. Sem ART, quase 50 por cento das crianças que contraÃam o vÃrus da mãe normalmente morriam antes de atingir os dois anos de idade," explicou a Drª Lucy Matu, da Fundação de Pediatria Elizabeth Glaser para a SIDA.
"O diagnóstico precoce em bebés pemite uma intervenção precoce e atempada. Se uma criança cuja mãe é seropositiva tem um resultado negativo, então as medidas de intervenção apropriadas podem ser implementadas de modo a garantir que a criança não adquira o vÃrus,", acrescentou a assessora da Fundação responsável pela Prevenção da Transmissão Vertical Mãe-Filho.

