Capoeira brasileira leva sua magia à Palestina

Jerusalem, Israel, 23/03/2012 – Sob um enorme toldo na Cidade Velha de Jerusalém oriental, cerca de 20 crianças e adolescentes palestinos se movimentam ao som dos instrumentos da capoeira.

Meninos e meninas em uma aula de capoeira em Jerusalém oriental. - Jillian Kestler-D'Amours/IPS

Meninos e meninas em uma aula de capoeira em Jerusalém oriental. - Jillian Kestler-D'Amours/IPS

Esta expressão cultural brasileira que mistura dança, acrobacia e artes marciais está lançando raízes na Cisjordânia.

"Na capoeira encontram um espaço seguro onde despejar a energia e a agressividade. Há muito que aprender sobre o controle de nossos movimentos, de nós mesmos e da capacidade de nos expressarmos, e além do cuidado dos que estão à nossa volta", explica o professor, brasileiro, Jorge Goia, responsável pela turma. "Por ser um tipo de arte marcial, exige grande disciplina para ser parte de um grupo e atuar em conjunto. Creio que tem um impacto muito forte nos rapazes", acrescentou.

A organização não governamental Bidna Capoeira (queremos capoeira, em árabe) começou a dar aula para meninos, meninas e jovens, em março de 2011, em acampamentos de refugiados da Cisjordânia. Cerca de 800 pessoas já participaram do programa. Hoje os cursos acontecem nos acampamentos de refugiados de Shuafat, em Jerusalém oriental, e Jalazone, em Ramalá, centro da Cisjordânia. E se mantém o objetivo de empoderar os jovens e oferecer-lhes um espaço saudável e positivo para desafogarem suas frustrações.

"A capoeira pode ser uma poderosa ferramenta para que as crianças potencializem a confiança em si mesmos e o sentido de pertinência. Pratica-se em grupo e precisa de gente cantando e tocando, e é assim que se cria a ideia de que se é parte de algo e de que todos se ajudam a se desenvolverem e aprender", explicou Goia à IPS. Ahmad, o filho de seis anos de Sahar Qawasmeh, começou em fevereiro as aulas de capoeira na Cidade Velha. "É algo novo. Ele fez caratê e natação, mas a mudança é boa", disse o pai, morador em Beit Hanina, Jerusalém oriental. "Já tinha visto algumas apresentações. Ahmad toma consciência de sua fortaleza e gosta", disse à IPS.

O impacto é evidente, segundo Ilona Kassissieh, oficial de informação pública da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina, que colaborou com a Bidna Capoeira na organização das aulas nos acampamentos da Cisjordânia. "As crianças aprenderam bem e se mostram entusiasmadas por conseguirem avançar rápido", destacou. Oferecer atividades extracurriculares às crianças que moram nos acampamentos de refugiados abre uma oportunidade para fugir das dificuldades diárias.

Kassissieh relatou que "os refugiados, em geral, e as crianças, em particular, pertencem a um setor vulnerável por viverem circunstâncias muito difíceis. A infraestrutura não ajuda a receberem os elementos necessários para terem uma vida normal. Este tipo de atividade extracurricular sempre é benéfico e deixa um impacto positivo. Cria um mecanismo de sobrevivência que lhes permite pensar a partir de outras perspectivas e também direcionar suas energias para algo que gostam e sobre o que desejariam saber mais".

Além disso, Goia lembrou que a história da capoeira como movimento de base das comunidades oprimidas do Brasil permite uma conexão direta com os palestinos, que sofrem a ocupação e o domínio de Israel. "A capoeira foi criada por escravos no Brasil, que se serviram dela para se fortalecer, ganhar confiança em si mesmos e assim enfrentar todas as necessidades que se tem quando se vive em condições de opressão", explicou o professor. "O interesse está em escapar e em aprender a lidar com uma situação na qual se é o lado fraco. Sem nenhum tipo de arma, apenas com seu corpo. Como fazer para sobreviver? Como se pode escapar da opressão?", questionou. Envolverde/IPS

Correspondentes da IPS

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