Havana, Cuba, 26/04/2012 – Um aumento do nível do mar e tempestades de grande intensidade alternadas com secas, entre outros eventos extremos derivados da mudança climática, impõem aos países insulares do Caribe o desafio de aplicar medidas de adaptação que podem ser muito caras para suas economias.
"Uma mensagem importante do informe é que, para atenuar os efeitos de eventos extremos não é preciso fazer investimentos elevados. Há outras formas de enfrentá-los não relacionadas com grandes gastos em infraestrutura", disse Field à IPS. A precisão é importante porque na região os recursos econômicos para a adaptação são muito escassos, reconheceu Field, copresidente do Grupo de Trabalho II (Impacto e Adaptação à Mudança Climática) do IPCC, que desde sua criação, em 1988, concluiu quatro ciclos de avaliações integrais.
O IPCC recebeu em 2007 o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços para construir e difundir um conhecimento maior sobre o aquecimento global causado pelo homem e indicar as medidas para enfrentar seu impacto. Field visitou Havana para participar de uma reunião de divulgação deste "Informe Especial do IPCC sobre gestão dos riscos de fenômenos meteorológicos extremos e desastres para melhorar a adaptação à mudança climática", um documento definido como uma ferramenta de trabalho para a tomada de decisões.
Dados apresentados no encontro, realizado nos dias 18 e 19 deste mês, indicam que o aumento do nível médio das águas oceânicas pode levar a uma redução do tamanho das ilhas caribenhas e ter impacto negativo na infraestrutura, incluindo aeroportos, estradas e cidades importantes, que tendem a se localizar perto do litoral. Calcula-se que mais da metade da população da região vive a menos de 1,5 quilômetro da costa.
Para Ian King, especialista em Barbados do programa da Organização das Nações Unidas (ONU) para manejo de riscos e desastres, o primeiro desafio é avaliar as ameaças para depois decidir as políticas mais adequadas de adaptação. Ele explicou à IPS que, em Barbados, se pesquisa sobre o manejo das zonas costeiras e ecossistemas marinhos, e agora se procura investir nessas áreas para proteger não só as espécies, mas sua população e infraestrutura, facilitando informação que permita avaliar a melhor maneira de enfrentar os riscos de desastre.
"Uma das vias é criar modelos de diferentes cenários diante da possibilidade de ocorrerem tempestades de grande intensidade e seu impacto nas áreas costeiras. Sobre esta base mais científica, pode-se estabelecer melhores políticas de adaptação", apontou King, para quem a decisão de se retirar ou não das zonas de perigo depende muito das comunidades.
Embora esteja claro que a adaptação às variações do clima é uma necessidade imperiosa, a questão do financiamento de programas para nações com economias fracas como as caribenhas gera incerteza. "São justamente os setores de menores recursos os mais vulneráveis a estes problemas", declarou à IPS o diretor da Oxfam em Cuba, Beat Schmid. Os programas de adaptação dos países em desenvolvimento serem financiados pelos causadores do aquecimento global é um princípio de "justiça climática", ressaltou.
Cientistas especializados em clima concordam que o aumento da temperatura média do planeta se deve aos gases-estufa liberados na atmosfera por atividades humanas, particularmente nas nações industrializadas. Schmid recordou que nas negociações internacionais a Oxfam e outras organizações defendem a criação de um fundo de US$ 100 bilhões ao ano para adoção de medidas concretas. "Na mesa também estão outros mecanismos, como a taxa sobre transações financeiras e imposto sobre passagens aéreas", acrescentou.
A capacidade dos países em desenvolvimento para empreenderem algumas ações de adaptação é limitada, explicou o especialista da Oxfam, uma confederação internacional de 14 organizações que trabalham em conjunto em mais de cem países na busca de soluções duradouras contra a pobreza. Em sua opinião, o caso de Cuba é exemplo do que se pode conseguir, ressaltando que se trata de um Estado forte, com uma organização social que chega aos mais remotos lugares do país e um investimento sustentado em capital humano.
Schmid disse também que Cuba leva adiante vastos programas de longo prazo, como os relacionados com recursos hídricos e florestais, iniciados há anos, não com a ideia da adaptação, mas para reduzir riscos como a escassez de água e a desertificação de seus solos, problemas que a mudança climática agrava. "Entretanto, muitos não têm essas fortalezas ou o nível de pobreza é tamanha que os governos não podem nem pensar em planos de adaptação à mudança climática. Mesmo no caso cubano, as necessidades para custear estes programas ultrapassam com juros as possibilidades financeiras disponíveis", destacou o especialista.
Schmid lamentou que até agora se continue falando que a adaptação seja paga por cada país e que apenas cinco nações industrializadas estejam cumprindo seu compromisso de aportar ao desenvolvimento do Sul 0,7% de seu produto interno bruto. Por outro lado, vários países começaram a reduzir os fundos de cooperação. O Informe Especial do IPCC sobre a gestão de riscos alerta que continuam aumentando as perdas econômicas com desastres relacionados a fenômenos climáticos, que no futuro terão maiores impactos em setores como turismo, agricultura e recursos hídricos. Envolverde/IPS


