RIO DE JANEIRO, Brasil, 10/04/2012 – (Tierramérica).- A maior parte do desmatamento mundial acontece no Brasil, na República Democrática do Congo (RDC) e na Indonésia, afirma o especialista Jeffrey Hatcher.

Rio+20 deve dar poder à s comunidades que vivem nas florestas, afirma Jeffrey Hatcher - Iniciativa para os Direitos e Recursos/Divulgação
Em 2008, essa proporção caÃa para 70%, segundo a Iniciativa para os Direitos e Recursos, uma coalizão de 14 organizações, com sede em Washington, que promove reformas a favor das comunidades pobres que vivem nas florestas.
Neste cenário, se destaca o progresso do Brasil em direitos comunitários e indÃgenas, observou Hatcher, diretor global de programas da Iniciativa, conhecida pela sigla RRI. A RRI analisa o status legal das selvas e registra as mudanças em informes que publica a cada cinco ou seis anos, explicou Hatcher, de 31 anos, em uma entrevista concedida no Rio de Janeiro. Em sua opinião, o Brasil demonstrou liderança e esforço para racionalizar a gestão das selvas.
TERRAMÉRICA: Quais resultados observa na evolução da posse de florestas nas últimas décadas?
JEFFREY HATCHER: A partir de 1992 ocorreu uma mudança legislativa significativa para garantir mais direitos à s comunidades que vivem nas selvas, não apenas os povos indÃgenas. Na Ãfrica, legalmente quase todas as florestas são de propriedade estatal, mas desde 1992 foram criados regimes especiais que permitem a concessão de direitos à s populações que as habitam. Muita gente vive na selva, mas não tem um direito formal de fazê-lo. Vive na selva desde antes de existir o Estado.
Provavelmente, o Brasil seja um dos mais avançados, junto com China e Suécia. Houve uma grande inovação em sua Constituição de 1988, que permitiu reconhecer terras indÃgenas em grande escala. Não há muitos paÃses que elaboraram leis a respeito.
TERRAMÉRICA: Qual o papel dos povos indÃgenas na conservação das florestas?
JH: Nos últimos 15 anos foram feitos muitos estudos para entender esta questão. As investigações revelaram que, quando as comunidades têm direitos legais e se sentem protegidas, fazem um excelente trabalho para manter as áreas verdes, a biodiversidade, os animais e a absorção e captura de carbono. A maior parte do desmatamento mundial acontece no Brasil, na República Democrática do Congo (RDC) e na Indonésia.
Porém, nos últimos anos o desmatamento diminuiu drasticamente no Brasil. Só a Indonésia responde por 20% das emissões de dióxido de carbono procedentes do desmatamento. Nem nesse paÃs nem na RDC as comunidades têm direito à terra.
TERRAMÉRICA: É possÃvel que os povos indÃgenas se mantenham na floresta para protegê-la, embora seu número seja reduzido em relação aos territórios que ocupam?
JH: Sim, é possÃvel. Como vivem ali, sabem como administrar melhor. Um estudo recente comparou áreas protegidas pelo governo e por comunidades indÃgenas e descobriu 18 vezes mais risco de incêndios nas geridas pelo Estado, pois nelas não há ninguém. Quando se precisa de um monitoramento intenso é preciso atrair gente.
Por outro lado, nos territórios indÃgenas há suficiente dispersão e estas comunidades têm uma grande habilidade para manter fora outras populações, o que é bom para a conservação. O complicado do Brasil, na Amazônia em particular, é o emaranhado de reclamações agrárias superpostas, tÃtulos irregulares ou ilegais. Quando não há clareza, sempre existem os que se aproveitam. E isto ocorre em muitos lugares.
TERRAMÉRICA: A delimitação e homologação de terras indÃgenas podem levar décadas no Brasil.
JH: Poderiam ser feitas em menos tempo, mas a razão da demora é polÃtica, sobre quem controla os recursos. A homologação traz consigo muita negociação para fixar os limites, já que cada dia que passa a terra vale mais. Por isto, é preciso apoio polÃtico de alto nÃvel e também vontade das comunidades.
TERRAMÉRICA: O Congresso está para votar uma reforma do Código Florestal, rechaçada por ambientalistas por outorgar anistia aos produtores agropecuários que desmataram e também flexibilizar controles. Como vê essa discussão?
JH: Entendo que exista o desejo do desenvolvimento, mas este modelo agropecuário expansivo, que consome grandes extensões de terras, não parece o mais racional. Pode ser que o novo Código Florestal seja relevante para a agricultura, mas, provavelmente, não o é para o resto do paÃs.
TERRAMÉRICA: Em que consiste o estudo que a RRI vai publicar no final de maio, antes da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20)?
JH: É uma análise sobre a posse das selvas e o que mudou desde 1992 nos 50 paÃses que vamos estudar. Haverá também casos especÃficos para mostrar a relação entre direitos agrários, pobreza e desmatamento. Empregamos imagens feitas por satélite e registros de propriedade para revisar quais mudanças ocorreram em áreas onde a população obteve tÃtulos.
No Brasil vamos observar a diversidade de leis e sua aplicação. Queremos mostrar o que este paÃs faz para proteger suas florestas e também expor a ameaça que constitui o novo Código Florestal.
TERRAMÉRICA: O que espera da Rio+20?
JH: Pode ser uma oportunidade para levantar este tema dos direitos florestais, um dos poucos êxitos desde a Rio 92 (Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável realizada no Rio de Janeiro em 1992).
Gostaria de ver um grande compromisso com a economia verde que, em minha opinião, se vincula ao poder dos que vivem perto dos recursos naturais. Há milhares de milhões de pessoas cuja existência diária depende do que a natureza lhes dá. Se houver o reconhecimento de que é preciso dar-lhes poder para tomarem decisões e usarem seus recursos de forma legal, isso seria um resultado positivo.

