RIO+20: Entrevista: "Apenas uma grande catástrofe nos forçará a mudar"

Rio de Janeiro, Brasil, 20/06/2012 – Não é mais novidade que o estado ambiental da Terra é catastrófico.

O biólogo inglês Jonathan Baillie no Rio de Janeiro - Julio Godoy/IPS

O biólogo inglês Jonathan Baillie no Rio de Janeiro - Julio Godoy/IPS

Contudo, entender alguns números que descrevem esta catástrofe ainda provoca um choque – por exemplo, que 30% da biodiversidade desapareceu desde 1970, e que 60% desse declínio ocorreu nas áreas tropicais do planeta.

Jonathan Baillie, um biólogo britânico, membro da Sociedade Zoológica de Londres, e chefe do programa Edge para a conservação das espécies, tem esses números alarmantes na ponta da língua. Baillie, que está no Rio de Janeiro como consultor científico para a organização Globe de legisladores ambientais, disse ao TerraViva que esses números servem como indicador do estado dramático da situação ambiental do mundo.

P: Você pinta um quadro bastante sombrio do ambiente global.

R: A humanidade está se movendo na direção absolutamente errada. Nosso modelo de produção e consumo é insustentável, e a Terra não pode mais lidar com ele. Hoje é preciso um ano e meio para que a Terra absorva o dióxido de carbono produzido e regenere os recursos renováveis que as pessoas usam em um ano. Se continuarmos a consumir os recursos do planeta nessa mesma taxa global, em 2030 vamos precisar de dois planetas para sustentar a população mundial.

P: Que soluções o senhor vê para lidar com esta insustentabilidade?

R: Tenho medo de que apenas uma grande catástrofe, que afetasse diretamente e em massa a vida das pessoas, nos obrigaria a fazer as mudanças necessárias para acabar com este declínio. O que precisamos é ter em conta o capital natural nos sistemas nacionais de contabilidade e a utilização de tecnologias limpas, para transformar comportamentos e padrões de produção e consumo.

P: Os novos números da concentração de dióxido de carbono na atmosfera sugerem que podemos ter chegado a um ponto sem retorno.

R: Uma medida recente da concentração de CO2 no Ártico registra 400 partes por milhão. Este é um pico, um marco ruim, mas é ainda um valor pontual. Durante o ano, esse valor oscila, e chega a um ponto mais baixo. Contudo, esse número significa que a acidificação dos oceanos atinge com frequência um índice que, se permanecer constante, conduziria à destruição de ecossistemas marinhos vitais.

P: Mas não é só a biodiversidade marinha que está em risco.

R: Não, em absoluto. Mais de 20% dos mamíferos estão ameaçados de extinção. Uma parcela semelhante de invertebrados também sofre o risco de extinção. No entanto, as espécies mais ameaçadas são as de anfíbios – cerca de 32% de todas as espécies de anfíbios estão listadas como ameaçadas globalmente. Quase a metade de todas as espécies conhecidas de anfíbios estão em declínio.

P: Então, quais são as soluções que você vê como capazes de reverter essa situação preocupante?

R: É absolutamente necessário incorporar o valor do capital natural nos sistemas de contas nacionais, para levar em conta os ecossistemas e seu uso no cálculo do PIB. É absolutamente necessário usar tecnologias limpas, tais como fontes renováveis de energia, para substituir as fontes antigas e poluentes.

P: O que o senhor quer dizer por capital natural?

R: Por exemplo, estimativas aproximadas dos custos causados pelo desmatamento chegam a US$ 4,5 trilhões por ano. Tais valores, que incluem a captura de carbono pelas florestas, o valor das florestas para lazer e similares, não são levados em conta no cálculo do produto interno bruto.

P: Por tecnologias limpas o senhor quer dizer a chamada bioengenharia, para tentar reduzir a acidificação das águas oceânicas?

R: Não, em absoluto. Nós certamente precisamos tentar todas as tecnologias disponíveis, mas a manipulação artificial da química da água marinha certamente não é uma solução.

P: O senhor é pessimista sobre o futuro da Terra?

R: Eu acredito que somente a ação das gerações mais jovens pode forçar os governos a finalmente cumprirem seus próprios compromissos. As gerações mais jovens vão suportar as consequências das atuais omissões e políticas equivocadas. Por isto, elas têm que forçosamente exigir dos governos que tomem medidas na direção certa, para interromper a destruição da biodiversidade e de outros recursos naturais. Envolverde/IPS

* Publicado originalmente no site TerraViva. (IPS)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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