Construir uma Empresa em Moçambique – Um Amendoim de Cada Vez

MAPUTO, 19/07/2012 – Quando entrar num avião da transportadora nacional moçambicana, Linhas Aéreas de Moçambique, provavelmente receberá um pequeno pacote cor-de-laranja com amendoins para ir comendo à medida que o avião o leva da capital do país, Maputo, para outros locais distantes como a Europa. Os amendoins têm sabor a açúcar, sal ou pimenta. A escolha é sua. O petisco é chamado Ndoiim, uma versão abreviada da palavra portuguesa amendoim. E é uma ideia de Lucia Bebane, uma empresária que está a conquistar um lugar para a sua pequena empresa neste país da África Austal, apesar das difíceis condições alí existentes para os empresários.

A história de Bebane é única em Moçambique, onde as pequenas e médias empresas (PMEs) contribuem quase 70 por cento do PIB. Mas, apesar disto, as PMEs não produzem muito nem têm lucros significativos.

O Instituto Nacional de Estatística calcula que, em 2010, o PIB per capita no país era apenas 423 doláres. Em comparação, em 2010, o PIB per capita na África do Sul era quase 25 vezes mais, ou 10.700 doláres.

É um clima económico que leva a que muitas companhias não sejam bem sucedidas.

"Iniciar algo é difícil. Há alguns empresários neste país mas os Moçambicanos têm a tendência de imitar o que os outros fazem," afirmou Bebane.

Por exemplo, os vendedores que andam pelas ruas de Maputo vendem todos os mesmos amendoins nos mesmos pacotes.

Há três anos, ao ver os vendedores, esta antiga secretária de 54 anos teve a ideia de transformar o amendoim produzido localmente num produto que pudesse competir com o melhor que existia no mercado.

"Era quase impossível….porque ninguém aqui tinha feito isso anteriormente," explicou, enquanto uma torradeira de amendoins fazia um barulho estridente na pequena fábrica fora do seu escritório.

Bebane é a primeira moçambicana a torrar e a empacotar os amendoins em escala industrial no país. Enquanto que os vendedores de amendoins os torram manualmente e os empacotam à mão, ela foi a primeira pessoa a importar máquinas de torrar e empacotar, conduzindo à mecanização de todo o processo.

Moçambique é um dos países mais pobres do mundo: mais de 54 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza, de acordo com o relatório sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio apresentado às Nações Unidas em 2010.

Também não tem as indústrias e infra-estruturas consideradas como dados adquiridos noutros locais. Não há estradas a ligar as fábricas aos mercados, o abastecimento de electricidade é frequentemente instável, e não há fabricantes de maquinaria, o que obrigou Bebane a importar as máquinas de que precisava para o seu negócio.

Mas, alguns anos depois da sua companhia ter começado "de uma forma tímida", a produção está praticamente mecanizada. Os amendoins naturais são transportados em camiões da cidade de Nampula, no norte do país, a mais de 1.400 quilómetros de Maputo.

Quando os amendoins chegam, os três empregados a tempo inteiro de Bebane separam os melhores amendoins dos restantes. Uma das máquinas torra-os e adiciona-lhes sabores enquanto que outra empacota os amendoins nos sacos de plástico cor-de-laranja vivo que se tornaram parte da sua marca, agora bem visível.

Mas, apesar de vender os seus amendoins à linha aérea nacional, Bebane afirma que mal consegue pagar as contas e continua à espera de obter lucro.

O economista João Mosca, da Universidade Pedagógica, disse que esta é uma situação típica nas pequenas empresas dno país.

"A economia de Moçambique está em crescimento, o que significa que existem mais e melhores oportunidades. No entanto, não há uma tradição empresarial nas companhias formais modernas."

A economia moçambicana cresceu uns elevadíssimos 7.3 por cento em 2011 mas as companhias não acompanharam este crescimento.

"Em geral, as companhias não estão modernizadas nem estão habituadas a trabalhar em ambientes competitivos. É por isso que elas próprias não são competitivas," asseverou Mosca à IPS.

Na moderna história de Moçambique, as pequenas empresas têm passado por tempos difíceis. Durante o período do colonialismo português, os comerciantes não conseguiram desenvolver-se. O país adoptou o socialismo depois da independência em 1975 e suprimiu vigorosamente a livre iniciativa, explicou Mosca.

O espírito empresarial só surgiu nos finais dos anos 80 e de forma limitada, numa altura em que os políticos agarraram a oportunidade de monopolizar a economia, acrescentou.

"Este surgimento foi politizado de modo que os políticos tinham acesso privilegiado às companhias privatizadas, muitas das quais foram vendidas a preços simbólicos. Estes homens de negócios formaram grupos de interesses económicos beneficiando de uma protecção generalisada contra as políticas públicas, acesso ao crédito e aplicação da lei de forma selectiva," afirmou.

Para conseguir chegar onde chegou, Bebane teve de evitar os erros de um sistema corrupto e nepotista e obter o seu próprio capital.

O relatório "Avaliação da Corrupção: Moçambique" encomendado em 2005 pela USAID, a agência governamental dos EUA que presta assistência económica e humanitária, apontou "favoritismo e nepotismo nas nomeações e aquisições públicas, conflitos de interesse, abuso de informação privilegiada para benefício de amigos, familiares e aliados políticos, assim como decisões eleitorais e de partidos políticos que reduzem as escolhas democráticas e a participação por parte dos cidadãos."

Portanto, os empresários como Bebane, sem contactos de alto nível, deparam-se com dificuldades quando é necessário obter dinheiro para dar vida às suas companhias.

"Um outro problema não é a falta de ideias mas o risco de entrar no mercado. Se a família não puder garantir os empréstimos, é necessário pedir dinheiro emprestado ao banco," afirmou Bebane. "Tive de oferecer a minha casa como garantia."

É preciso fazer mais antes de as pequenas empresas no país começarem a ganhar dinheiro e a ajudar as pessoas a ultrapassar o limiar da pobreza, afirmou Mosca.

Mas é uma tarefa árdua.

"Temos de melhorar o ambiente empresarial – especialmente o acesso ao crédito e o custo de pedir dinheiro emprestado – reduzir a corrupção e desordem institucional, e criar um mercado mais aberto e competitivo. Precisamos de formar recursos humanos, prestando uma atenção especial à qualidade," sublinhou.

A associação com empresa fora de Moçambique pode ser saudável para o sector empresarial, afirmou Mosca.

"As parcerias com companhias estrangeiras podem constituir uma forma de acelerar o nascimento do capitalismo competitivo e empresarial," disse à IPS.

Bebane não está somente à espera que o seu negócio melhore. Procura fora das fronteiras de Moçambique segurança e um parceiro de negócios que a ajude a empurrá-la rumo ao sucesso.

"Corro de um lado para o outro, desde a China ao Brasil, à procura de um parceiro permanente."

Johannes Myburgh

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