Antananarivo, Madagascar, 19/07/2012 – Toda sexta-feira, mães e filhos se reúnem no centro comunitário de nutrição da pequena aldeia de Rantolava, a 450 quilômetros da capital de Madagascar, para aprender a ter uma dieta saudável.

Mães e filhos se reúnem em um centro comunitário de nutrição na aldeia de Rantolava, em Madagascar, para aprender a ter uma dieta saudável. - Alain Rakotondravony/IPS
Estes painéis semanais são parte do Programa Nacional de Nutrição Comunitária, implantado em seis mil centros de todo o país. Madagascar é um dos seis países com maior prevalência mundial de desnutrição metade de todas as crianças menores de cinco anos nesta grande nação insular africana sofre desnutrição crônica, e diversificar sua dieta é um elemento fundamental do programa nacional.
Jean Serge Rambeloson trabalha para o Escritório Nacional de Nutrição (ONN) de Madagascar, que controla o programa em locais como Rantolava. O objetivo da demonstração de culinária é passar às mães receitas que as ajudem a variar a dieta de seus filhos, além de conselhos sobre como preservar os alimentos, explicou à IPS. "Por exemplo, ensinamos a fazer farinha a partir de produtos localmente disponíveis", acrescentou.
Com o objetivo de dar à população acesso a uma variedade mais ampla de alimentos, o programa também criou um plano para popularizar novos cultivos. Em Rantolava, o centro de nutrição tem uma área reservada para cultivar várias verduras. "Plantamos abobrinha, tomate, repolho, moringa, batata doce, fava verde e repolho chinês", contou Viviane Vaviaby, responsável pela horta do centro.
Um trabalhador de extensão explica como cultivar cada um destes alimentos. "As pessoas daqui estão acostumadas a comer arroz. É importante aprenderem a variar sua dieta, e de seus filhos, com base nos produtos locais", ressaltou Angelo Tiandrazana, coordenador regional do ONN. "A desnutrição crônica não é apenas uma questão de acesso a alimentos suficientes, mas também de variedade", afirmou Stephen Lauwerier, representante residente em Madagascar do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), à IPS.
Ao contrário da desnutrição severa, que se torna evidente com uma drástica perda de peso, os efeitos da desnutrição crônica se revelam de modo mais sutil, atrasando o crescimento. Os pais podem não perceber a seriedade do problema que afeta seus filhas quando muitas outras crianças da mesma idade também são pequenas.
Toky Raharimanana é o médico-chefe do Centro de Saúde Básica em Mahambo, uma comunidade vizinha a Rantolava. "As crianças desnutridas são pequenas e se desenvolvem fisicamente depois daquelas melhor alimentadas. Também são mais frágeis e mais suscetíveis a doenças (como diarreia ou malária) do que as demais crianças. Seu desenvolvimento cognitivo é limitado e não têm bom desempenho escolar", explicou.
O atraso no desenvolvimento físico também pode ter consequências de mais longo prazo, com na hora de ter seus próprios filhos. Por exemplo a Pesquisa Demográfica de Saúde 2008-2009 de Madagascar mostrou que as mulheres cuja complexão é pequena devido à desnutrição crônica sofrida na infância correm um risco adicional de complicações durante a gravidez e o trabalho de parto.
A diversificação das dietas infantis não é em si mesma uma solução para a desnutrição crônica neste país. Segundo o Unicef, também é importante melhorar o acesso a água limpa, saneamento e cuidados com a saúde, para reduzir a incidência de gravidez e casamentos precoces, e para melhorar a nutrição de adolescentes mulheres, particularmente as grávidas e durante a amamentação.
A desnutrição crônica é um problema da pobreza e exige atenção do governo e de seus sócios para o desenvolvimento, alertou Lauwerier. "A desnutrição crônica não se vê, é uma crise silenciosa", afirmou. "É um dos maiores problemas de Madagascar. Quando uma criança é mal alimentada no longo prazo, seu cérebro não se desenvolve adequadamente, o que tem impacto no desenvolvimento geral dessa criança e no futuro do país", enfatizou. Envolverde/IPS

