UGANDA, Kanungu, 19/07/2012 – É o meio da manhã no IV Centro de Saúde de Kanungu e a fila de pacientes aumenta depois de surgir um grande número de pessoas para receber tratamento neste estabelecimento rural a mais de 400 quilómetros de Kampala, a capital do Uganda. A maioria está aqui para ter acesso aos serviços de planeamento familiar, enquanto alguns estão à espera de exames de rastreio de cancro.
Geralmente cerca de 100 pacientes visitam o centro de saúde por dia. Mas hoje o número foi quatro vezes superior.
"Vemos uma média de 400 pessoas por dia quando o médico de Kampala faz a sua visita uma vez por mês," explica Kwesiga Muteisa, enfermeira.
A maioria das pessoas na fila são mulheres, embora algumas estejam acompanhadas dos parceiros.
"Aquelas que vêm com os maridos são atendidas primeiro para encorajar o envolvimento dos homens no planeamento familiar," afirmou a representante interina de saúde distrital, Rwabahima Florence, enfermeira-chefe.
Explicou que isso também constitui uma oportunidade para os homens fazerem a despistagem do VIH e receberem aconselhamento e ainda aprenderem outros métodos de planeamento familar que não são normalmente praticados pelos Ugandeses, como a vasectomia.
O crescente número de pacientes que visitam o centro de saúde são a prova do sucesso do grupo de saúde voluntária (VHT). Há três anos, o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), em colaboração com o Ministério da Saúde do Uganda e o governo local do distrito de Kanungu, criou estes grupos. O UNFPA financia 95 por cento dos serviços de planeamento familiar neste país da África Oriental e o governo oferece o resto.
O VHT engloba membros voluntários da comunidade que recebem formação sobre planeamento familiar a fim de encorajar esta prática nas suas áreas
Os membros fazem visitas domiciliárias e educam o público sobre planeamento familiar, distribuem preservativos e encaminham pacientes para estabelecimentos de saúde com vista a obterem informações e serviços adicionais. Cada VHT é responsável por 25 famílias.
Babwicwa Mark, reformado e membro de um grupo de saúde voluntária, sorri de orelha a orelha, satisfeito com o número de casais que adoptaram o planeamento familiar no distrito de Kanungu.
Embora o Levantamento Demográfico e de Saúde (DHS) indique que a taxa de prevalência do uso de contraceptivos a nível nacional é 26 por cento, em Kanungu é 41 por cento.
"Convenci algumas pessoas a visitarem o centro de serviços de planeamento familiar," disse Mark. "A maioria das pessoas na minha área não acredita em contraceptivos mas, depois de muita educação, percebe que nada tem a temer."
É vital consciencializar os Ugandeses sobre a necessidade de terem acesso ao planeamento familiar num país com a terceira maior taxa de crescimento populacional do mundo: 3.2 por cento.
"As pessoas nas comunidades prestam mais atenção aos grupos VHT do que aos trabalhadores de saúde, porque pelo menos os conhecem melhor do que nós," explicou Saturday Nason, enfermeiro e formador de VHT no Centro de Saúde de Kihihi, no distrito de Kanungu.
As mulheres ugandesas têm em média seis filhos, segundo o Levantamento Demográfico e de Saúde, um decréscimo de 0.5 por comparação à média de sete em 2006. Nason atribui este decréscimo a uma maior sensibilização sobre planeamento familiar.
Embora 26 por cento da população ugandesa produtiva entre os 15 e os 49 anos utilize métodos modernos de planeamento familiar de acordo com o Levantamento Demográfico e de Saúde, ainda prevalecem crenças culturais e mitos sobre esta matéria.
Muitas vezes as mulheres estão sujeitas a pressões por parte dos homens para terem mais filhos. "O maior desafio é o facto de, embora muitas mulheres desejarem adoptar o planeamento familiar e ter menos filhos, os maridos insistirem em ter mais filhos," afirmou Nyakato Peace, membro do VHT e mãe de três filhos.
Embora a maioria das mulheres que foram entrevistadas no IV Centro de Saúde de Kanungu queira uma média de quatro filhos, a maioria dos homens deseja ter sete ou mais filhos. Twesigye Chrisente e o marido Niwagaba Savio são um exemplo.
Esta mãe de quatro filhos está satisfeita com o número de filhos que tem agora mas Savio quer sete e ameaça casar com uma segunda mulher se ela insistir em não ter mais filhos. "Só tenho um irmão e uma irmã e não somos respeitados na comunidade porque a nossa família é pequena," afirmou Savio.
"Não quero que isto aconteça aos meus filhos."
Por outro lado, Chrisente sustenta que os seus rendimentos não chega para sustentar os filhos que já têm. Marido e mulher são agricultores de subsistência sem rendimento estável.
O casal teve se se submeter a aconselhamento no II Centro de Saúde de Kinaaba, no distrito de Kanungu, antes de Savio concordar que a sua mulher podia receber um implante contraceptivo. Isto vai impedi-la de engravidar nos próximos três anos enquanto Savio pondera se deve ou não ter mais filhos.
Apesar de Chrisente ter a certeza que não terá mais filhos nos próximos três anos, a situação não é tão fácil para as outras mulheres que utilizam outros tipos de contraceptivos. Peace aponta que, quando as mulheres sentem os mínimos efeitos secundários, a tendência é deixar de os utilizar, levando inevitavelmente a gravidezes não planeadas.
"Quando nos referirmos aos efeitos secundários, as pessoas preferem discutir os seus problemas com outras mulheres em situação semelhante em vez de regressarem ao centro de saúde para pedir conselhos," explicou Florence. "É por isso que precisamos de pessoas na comunidade que possam dar conselhos."
O Levantamento Demográfico e de Saúde informou que a utilização de contraceptivos modernos aumentou de oito por cento em 1995 para 26 por cento em 2011, indicando um aumento da procura dos serviços de planeamento familiar. Contudo, há uma grave falta de serviços nesta área.
Os VHT queixam-se que as pílulas e os preservativos femininos não estão disponveis em Kanungu.
O representante adjunto do UNFPA, Dr Wilfred Ochan, afirma que há uma lacuna nas necessidades de planeamento familiar no Uganda quantificada em 41 por cento. Atribui isto à insuficiência de fundos e ao facto dos trabalhadores de saúde terem qualificações insuficientes.
"Contudo, fizemos progressos porque é a primeira vez que assistimos a uma diminuição da taxa de fertilidade neste país," afirmou Ochan.

