MONTEVIDÉU, Uruguai, 24/07/2012 – (Tierramérica).- Uma quantidade incomum de tartarugas verdes saíram da água e ficaram perdidas nas praias do Uruguai com sintomas de hipotermia.

Uma criança e sua mãe observam pelo vidro os cuidados que recebe uma tartaruga verde no Centro de Reabilitação Karumbé. - Victoria RodrÃguez/IPS
A tartaruga verde, em risco de extinção segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), escolhe as costas uruguaias para crescer e se desenvolver, e no inverno migra para o Brasil em busca de um ambiente mais quente. É comum vê-las nas pontas rochosas dos departamentos de Rocha e Maldonado, com litorais oceânicos, embora também possam ser encontradas em praias do Rio da Prata, um amplo estuário que desemboca no mar.
Os animais adultos podem medir de um metro a um metro e meio de comprimento e pesar até 500 quilos. Mas as que visitam as costas deste país são jovens e medem cerca de 40 centímetros de comprimento. "Já houve registros de desorientação por causa dos frios invernais, mas a média era de dez tartarugas verdes em todo o inverno", explicou ao Terramérica o especialista do centro de tartarugas marinhas Karumbé, Andrés Estrades. "Nunca havíamos chegado a essa quantidade, e o frio está apenas começando", disse.
O Karumbé (que em língua guarani significa tartaruga) nasceu em 1999 como iniciativa de um grupo de jovens pesquisadores, estudantes, biólogos e veterinários, para conservar os recursos marinhos do Uruguai e estudar, em especial, a ordem dos quelônios. Um centro de reabilitação do Karumbé para estes animais e um pequeno museu se localizam no zoológico de Villa Dolores, em Montevidéu. Ali chegaram 32 tartarugas resgatadas, jovens entre dois e 12 anos, com peso entre quatro e 15 quilos, contou Andrés.
Uma equipe de voluntários do Karumbé trabalha duramente para diagnosticar seu estado e recuperá-las. O restante da centena de animais foi distribuído em centros semelhantes em Rocha e Maldonado e cerca de 20 apareceram mortos. Segundo o centro de realibitação, no Uruguai se registra uma média anual de 120 tartarugas perdidas. Metade ingeriu objetos plásticos, 15% ficaram presas no lixo ou em redes de pesca, 15% apresentaram choque térmico e o restante diferentes enfermidades.
Uma campanha informativa no Facebook explica ao público como atuar caso encontre uma tartaruga na praia. A recomendação principal é não devolver os animais ao mar, aquecê-los com mantas ou água morna e avisar os especialistas.
Nos dias 14, 15 e 16 deste mês apareceu um total de 50 animais. No Karumbé, duas estudantes estrangeiras trabalhavam de forma voluntária junto com a veterinária Virginia Ferrando. As piscinas e os tanques não eram suficientes para colocar os animais e os aquecedores também eram insuficientes para manter a temperatura da água. Os visitantes do zoológico, muitos na segunda semana de férias, se depararam, surpreendentemente, com um centro de reabilitação em plena ação e repleto de animais.
Dois jovens que levaram uma tartaruga resgatada observaram o processo: primeiro se coloca o animal em uma piscina com água morna e depois se faz o diagnóstico. "Algumas já estão muito bem e com um pouco de soro e calor podem se recuperar", detalhou Virginia ao Terramérica. Também se investiga se contraíram alguma doença antes de se perderem.
"A maioria apresenta condições corporais muito boas. Temos 32 no centro e metade está flutuando, o que indica que têm outro problema, pneumonia, infecção viral ou plástico no intestino. Estamos avaliando isso, o que exigirá mais trabalho", acrescentou Andrés. Os animais deverão permanecer no Karumbé até a primavera, quando há condições ambientais para libertá-las no mar. "Cada tartaruga que libertamos é um evento. Queremos conseguir alguns aparelhos de acompanhamento via satélite para monitorar se estamos fazendo as coisas como devem ser feitas", destacou.
O Karumbé, que integra a direção da Sociedade Internacional de Tartarugas Marinhas, participa de um estudo de tese doutorado em convênio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O brasileiro Gustavo Martinez pesquisa a permanência anual e estacionária das tartarugas marinhas em costas uruguaias e seus movimentos em direção ao Brasil. "Muitas migram, mas outras ficam", indicou Andrés. Uma hipótese para o ocorrido é que os exemplares que se internaram mais no Rio da Prata não conseguiram regressar a tempo para o oceano e, "ao diminuir a temperatura da água rapidamente, entraram em choque térmico", afirmou.
No momento a água do mar tem dez graus, "não é um recorde de temperatura mínima, mas está abaixo da média" prevista, de 12 graus. Segundo Andrés, essa diferença pode ser fatal para certos animais. "Estamos vendo as tendências de máximas e mínimas que estão se modificando, possivelmente pela mudança climática. Tivemos um outono bastante quente, e repentinamente chegou o inverno. Isto pode ter desorientado as tartarugas", ponderou.
Segundo Andrés, há "uma espécie de tropicalização da costa uruguaia: cada vez mais a água está mais quente e há animais raros" para esta região. Por exemplo, a tartaruga de pente (Eretmochelys imbricata), da qual não havia registros de sua presença em mares deste país. Esta espécie habita águas brasileiras mais quentes, mas em 2007 apareceu um exemplar, e outros tantos em anos seguintes. Em 2011, foram encontradas seis, "todas muito fracas e cheias de plástico", ressaltou.
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