YAOUNDÉ, 27/09/2012 – Victorine Fomum é a campeã africana de ténis de mesa de 2005. Costumava "treinar sem raquetes, sem bolas, sem roupa apropriada e sem boas mesas." Mas, apesar disso, ganhou a medalha de ouro no Campeonato Africano das Nações de 2005. E como recompensa pela sua conquista o governo deu-lhe um cheque – de 25 dólares. "Pode imaginar o que acontece a nível local. Muitas vezes ganhava 10 dólares de prémio monetário – por ter ganho a medalha de ouro! Se não fosse funcionária pública, talvez tivesse fugido também," disse à IPS.
Está a referir-se aos sete atletas dos Camarões que desapareceram durante os Jogos Olímpicos em Londres no dia sete de Agosto. Fomum compreende por que motivo o fizeram.
"As condições de treino aqui são horríveis," declarou, "Os atletas têm indubitavelmente o direito de quererem melhores condições,"
Os atletas – cinco pugilistas, um nadador e um futebolista – desapareceram da aldeia olímpica e reapareceram mais tarde pedindo asilo no Reino Unido. Disseram que não queriam regressar à sua nação na África Ocidental devido às difíceis condições de treino.
Um dos pugilistas, Thomas Essomba, disse à BBC que o seu país não lhe conseguia oferecer as oportunidades que lhe eram proporcionadas no Reino Unido. "Tudo o que pedimos é podermos ser campeões. A Inglaterra oferece-nos melhores oportunidades. A questão mais importante agora é encontrarmos patrocinadores e tornarmo-nos membros de clubes de pugilismo," asseverou.
Mesmo o futebol, o desporto mais popular no país – em 1990 a equipa nacional foi a primeira equipa africana a atingir os quartos-de-final no Camponato do Mundo de Futebol – é sobejamente conhecido pelas más infraestruturas e pela falta de fundos.
Os Camarões estão neste momento classificados em 59ª posição pela Federação de Futebol Internacional, FIFA – oito lugares à frente da África do Sul que tem consideravelmente mais recursos. A África do Sul vai ser a anfitriã do Campeonato Africano das Nações em 2013, com um custo de 400 milhões de dólares, 300 milhões dos quais serão pagos pela Federação de Futebol do país.
Mas nos Camarões, Simon Lyonga, analista desportivo da empresa estatal de radiodifusão Rádio e Televisão dos Camarões, disse à IPS que os futebolistas locais ganhavam uns meros 25 dólares por mês.
E embora os outros atletas não ganhem o seu salário aqui, as competições locais atribuem prémios de baixo valor monetário. Os medalhistas de ouro dos Camarões muitas vezes recebem apenas seis dólares.
Mesmo num país onde, segundo o Banco Mundial, 40 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza com 1.25 dólares por dia, seis dólares de prémio monetário é considerado um valor extremamente baixo.
"Não são condições que atraiam os jovens," disse à IPS Fondo Sikod, professor de economia na Universidade de Yaounde II.
Fomum sabe tudo acerca da compensação financeira limitada. Apontou para uma prateleira com mais de 50 troféus, a maior parte deles prémios por ter ganho o primeiro lugar.
"Com base em tudo o que está aqui, podem pensar que sou rica. Mas todo o treino culminou só com a glória de ganhar. Tem muito pouco a ver com compensação financeira, o que é muito frustrante."
O Presidente do Comité Olímpico dos Camarões, Kalkaba Malboum, admitiu que o país não tinha boas instalações de treino.
"Não temos boas condições de treino como noutros países. Por conseguinte, os nossos atletas não hesitam em partir para outros países com melhores condições de treino que podem melhorar o seu desempenho, realizar os seus sonhos de se tornarem atletas profissionais e proporcionar mais dinheiro para melhorarem as suas condições de vida e também as das suas famílias," afirmou na televisão estatal no dia 10 de Agosto.
Um exemplo da falta de boas infraestruturas é o estádio Ahmadou Ahidjo, que foi construído para acolher o Campeonato Africano das Nações em 1972. Ainda está a ser utilizado como principal estádio dos Camarões, apesar de a FIFA frequentemente suspender a sua utilização para jogos internacionaais por não ter sido mantido.
"A falta de construção das infraestruturas desportivas do país fica a dever-se apenas à falta de vontade política e não de recursos financeiros," disse Lyonga.
Acrescentou que os desportos, especialmente o futebol, traziam recursos financeiros para o país. Parte destes recursos, disse Lyonga, deviam ser utilizados na construção e manutenção das infraestruturas desportivas locais.
"Em 2010, os Camarões receberam 800.000 dólares pela sua participação do Campeonato do Mundo de 2010 na África do Sul. Ninguém sabe de que forma foi usado o dinheiro," explicou.
Espera-se que os Camarões registem um crescimento económico de 5.2 por cento em 2012, uma subida em comparação aos 4.8 por cento de 2011. E Malboum espera que o governo possa investir mais no sector dos desportos.
Actualmente, o governo chinês co-financia os custos da construção de quatro estádios. Além disso, existem planos para a construção de um Centro Nacional de Preparação Olímpica em Obala, nos arredores de Yaounde, capital do país.
Entretanto, os atletas locais esperam que se verifique uma mudança na atitude demonstrada em relação ao patrocínio desportivo. Actualmente os atletas locais não têm qualquer patrocínio.
"Cada atleta luta sozinho," refere Fomum. Acrescentou que, embora os Camaroneses gostem de desporto e de vencer, não gostavam da ideia de investir neste sector. Por isso, ela tinha de usar o seu próprio dinheiro para poder continuar a sua carreira desportiva.
"O meu pai diz que as pessoas de sucesso devem sempre enfrentar os desafios."

