Arusha, Tanzânia, 28/09/2012 – Os governantes deveriam aprender as lições da Primavera Árabe e perceberem que com boa governança e segurança alimentar seriam evitadas crises, disse Kofi Annan, ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e presidente da Aliança para uma Revolução Verde na África.

Agricultores do sudoeste da Tanzânia se negam a vender o milho porque o preço está muito baixo. - Erick Kabendera/IPS
Um dos objetivos do encontro era criar planos de ação concretos para impulsionar o setor agrícola e promover a segurança alimentar no continente.
"Creio que se os governantes africanos prestaram atenção e compreenderam que os sistemas democráticos têm que funcionar na África, temos que aceitar uma rotação periódica de autoridades e ouvir o povo e a sociedade civil", afirmou Annan. "Desta forma – prosseguiu – evitaríamos as crises que vimos na África. Lembrem que não se trata apenas de alimentos, mas também de sistemas políticos".
Várias centenas de delegados, representantes de governos africanos, da ONU e de agências doadoras, bem com de companhias agroindustriais com Yara e Cargill, estão reunidos em Arusha para discutir a transformação da agricultura africana. Também há agricultores presentes.
"A África oriental tem um grande potencial para o desenvolvimento agrícola", disse à IPS a diretora do programa de acesso ao mercado da Aliança para uma Revolução Verde na África (Agra), Anne Mbaabu. "O único ambiente propício para garantir a segurança alimentar é harmonizar questões políticas para evitar proibições às exportações de produtos agrícolas e a imposição de gravames inacessíveis", acrescentou.
"Também devemos conjugar qualidade e padrões para que sejam os mesmos nos cinco países que formam a Comunidade da África Oriental (CAO). Mas, somente funcionará criando infraestrutura adequada como portos, estradas e ferrovias", acrescentou Mbaabu.
"É importante assinalar que com problemas de segurança não é fácil o comércio com os países vizinhos, ainda que se padeça uma profunda crise alimentar", disse o ministro de Agricultura, Segurança Alimentar e Cooperativas da Tanzânia, Christopher Chiza. Ele se referia à situação na Somália, que dificultouo o trabalho de organizações humanitárias para distribuir alimentos durante a última fome que atingiu o Chifre da África.
Mas, ainda restam dificuldades a serem resolvidas pela CAO antes de abrir as fronteiras aos mercados de importação e exportação sem controle na região, disse Chiza. "A situação política em nossos países é uma barreira. Necessitamos de certo grau de confiança. Uma das coisas sobre as quais muita gente fala é a nacionalização da terra e dos recursos agrícolas na Tanzânia", explicou. "Temos que facilitar o investimento. Também faz falta uma moeda comum e muitos outros assuntos complicados que os países membros deverão resolver antes de se unirem" acrescentou.
O importante do fórum, segundo Annan, é sair do ponto de inflexão para expandir a transformação da agricultura africana. "Antes, os governos africanos não se concentravam na agricultura, mas hoje representa uma oportunidade para alimentar, empregar e criar segurança alimentar global", ressaltou. O objetivo é apoiar os pequenos agricultores na transição de uma agricultura de subsistência para uma de gestão de tipo empresarial para produzir um excedente para vender, acrescentou Annan.
A África tem a maioria das terras cultiváveis, mas não cultivadas, do mundo, e as áreas trabalhadas estão subutilizadas. A chave para garantir o sustento, reforçar a segurança alimentar e a África assumir um lugar adequado no sistema mundial de produção de alimentos implica investimentos em infraestrutura rural e que cada vez mais produtores pequenos e grandes adotem melhores sementes, fertilizantes e técnicas de cultivo "É disso que precisamos. Garantirmos que os agricultores estejam bem organizados e recebem o conhecimento e o apoio necessários para promover a transformação", disse Annan.
O ex-secretário-geral da ONU esteve acompanhado na conferência de imprensa por Melinda Gates, a qual afirmou que a fundação que dirige com seu marido, Bill Gates, está entre os principais doadores da Agra. A estratégia da Fundação Bil & Melinda Gates em matéria agrícola sempre começa por pensar nos objetivos dos agricultores e em como investir para apoiá-los, acrescentou.
Melinda também assegurou que "os pequenos produtores são engenheiros incríveis" e que "é necessário vincular os agricultores aos grandes mercados e não oferecer seus produtos quando os preços são baixos, para que possam obter uma renda melhor".
Para garantir que os agricultores aproveitem as vantagens das mudanças rurais, a Agra, entre outras organizações, incentiva as associações e as cooperativas como forma de amplificar suas vozes e juntar esforços.
"A agricultura nos oferece uma verdadeira oportunidade, não apenas para nos alimentarmos, mas também para gerar emprego para os jovens e conseguir que a vida rural seja confortável", concluiu Annan. Envolverde/IPS

