Doha, Catar, 14/12/2012 – Mais de cem países reconheceram a nova coalizão opositora síria, abrindo a porta para maior ajuda às forças que tentam derrubar o presidente Bashar Al Assad, e que poderia chegar ao campo militar.

Assim ficou o acesso à sede do Ministério do Interior da SÃria, após a explosão de um carro-bomba. - Televisão Estatal da SÃria
Os grupos opositores estiveram sob forte pressão internacional para criarem um âmbito mais organizado e representativo, por meio do qual pudesse ser canalizada a ajuda de terceiros países. A coalizão agradeceu a decisão, mas disse que busca apoio político e financeiro mais tangível e que pretende que os membros do governo de Assad sejam levados perante o Tribunal Penal Internacional, com jurisdição sobre crimes de lesa humanidade.
No ano passado, o reconhecimento internacional à oposição da Líbia significou um enorme impulso para sua luta contra o então líder desse país, Muammar Gadafi, que depois foi referendado por bombardeios aéreos das potências ocidentais. No momento, a intervenção militar não aparece nas cartas que se jogam sobre a Síria, cujo governo ainda goza do apoio de China e Rússia (com poder de veto no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas) e do Irã.
O ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, disse que a conferência de Marrakesh representa um "avanço extraordinário". A União Europeia está renovando seu embargo de armas para a Síria a cada três meses, em lugar de fazê-lo anualmente, para ganhar flexibilidade diante de uma situação muito mutável no terreno, disse Fabius. "Queremos contar com a capacidade de manter ou mudar nossa atitude a este respeito", acrescentou.
No dia 12, um carro-bomba e outras duas explosões aconteceram na entrada principal do Ministério do Interior da Síria, em Damasco, informou a televisão estatal do país. Mais cedo, o mesmo canal informou que outro carro-bomba havia causado a morte de pelo menos uma pessoa, perto do Palácio da Justiça.
"O fato de a coalizão, que reclama o direito à autodefesa, ser reconhecida por uma centena de países, ontem os Estados Unidos e antes a França, é um ponto muito importante", destacou Fabius. Os Estados Unidos anunciaram que entregariam US$ 14 milhões em nova ajuda humanitária destinada a "apoio nutricional para a infância, bem como mais suprimentos de emergência médica e de abrigo para famílias necessitadas na Síria". Segundo comunicado do Departamento de Estado norte-americano, os novos fundos elevam a ajuda humanitária à Síria para US$ 210 milhões.
A declaração final da conferência afirma que Assad perdeu toda legitimidade, mas não chega a pedir sua renúncia, algo que foi feito de forma individual pelos ministros presentes. O texto também alerta contra o uso de armas químicas, "o que daria lugar a uma dura resposta" da comunidade internacional. "De todas as reuniões feitas até agora pelos amigos da Síria, esta será a mais significativa", disse o secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, William Hague, na coletiva de imprensa.
Os membros da conferência também anunciaram maior ajuda humanitária, incluindo US$ 100 milhões da Arábia Saudita e um fundo que será administrado por Alemanha e Emirados Árabes Unidos para a reconstrução do país, após a presumível queda de Assad. As potências ocidentais se mostraram reticentes quanto a enviar armas à Síria, em boa parte para não repetir a experiência da Líbia, quando o Ocidente prestou ativo apoio a uma das partes combatentes na guerra civil de um país que depois acabou inundado de grupos armados.
O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Anders Fogh Rasmussen, declarou, de Bruxelas, que o reconhecimento internacional da oposição síria "é um passo correto para uma solução política". Em declarações à rede de televisão Al Jazeera, afirmou que, "claramente, não há solução militar para o conflito sírio; é necessária uma solução política. Não temos nenhuma intenção de intervir militarmente".
O chanceler da Rússia, Sergei Lavrov, disse que o reconhecimento da oposição contradiz acordos internacionais anteriores destinados a iniciar um diálogo que incluísse todas as partes em conflito. Por outro lado, a câmara baixa do parlamento alemão debaterá o envio de mísseis Patriot e de 400 soldados para a fronteira sírio-turca. A Alemanha analisa, a pedido turco, armar essa fronteira para evitar que o conflito sírio avance para países vizinhos. Envolverde/IPS
* Publicado sob acordo com a Al Jazeera.

