Uma guerra invisível dizima a juventude brasileira

Rio de Janeiro, Brasil, 08/03/2013 – Desde que aconteceu, em 1992, quando morreram 111 presos metralhados no que foi o maior presídio do Brasil, o massacre do Carandiru foi registrado por milhares de notícias e imagens na televisão, além de cinco livros e um filme de grande bilheteria. Contudo, a cada dia, uma quantidade semelhante de pessoas, na maioria jovens, é assassinada a tiros neste país, sem nenhuma repercussão. "Perdemos a sensibilidade" para esse "massacre cotidiano", lamentou Julio Jacobo Waiselfisz, autor do Mapa da Violência 2013: Mortes Matadas por Armas de Fogo.

O informe divulgado no dia 6, no Rio de Janeiro, foi realizado para o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) e a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), se baseia em registros oficiais e totalizou 799.226 mortes por armas de fogo no Brasil entre 1980 e 2010. Desse total de mortos, 450.225 eram jovens de 15 a 29 anos, diz o Mapa, que tem em seu título a expressão coloquial de "mortes matadas", usada para se referir aos assassinatos.

É uma matança invisível, equivalente à soma de vítimas fatais nos conflitos armados de 12 países, incluindo Afeganistão, Iraque, Sudão e Colômbia, nos anos críticos de 2004 e 2007, compara o Mapa. Os homicídios representam, em média, 84% nas três décadas registradas, no informe que também inclui as mortes por acidente, suicídios e outras causas indeterminadas, não naturais. Em 2010, a porcentagem aumentou, em parte por melhoras no sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde.

O índice de homicídios por cem mil habitantes passou de 5,1 em 1980 para 19,3 em 2010. A escalada é especialmente grave entre os jovens, um grupo em que a taxa passou de 9,1 para 42,5. Outro elemento importante é que as balas matam 2,5 pessoas negras para cada branca. O aumento desta taxa não foi uniforme. Aumentou até 2003, quando ficou em 20,4 por cem mil habitantes, diminuiu até cair para 18 em 2007 e voltou a subir ligeiramente.

"Vivemos um equilíbrio instável" desde 2005, com a diminuição da letalidade nos Estados mais povoados e ricos do Sudeste, especialmente no Estado de São Paulo, enquanto houve um "crescimento drástico" no Norte e Nordeste do país, observou Waiselfisz à IPS. Em Maceió, capital do Estado de Alagoas, triplicou o índice de mortes por armas de fogo, chegando a 94,5 por cem mil habitantes em 2010, enquanto na cidade de São Paulo caiu para 10,4, um quarto a menos do que uma década anterior.

Três grandes fatores explicam a migração da violência criminosa, segundo o autor do Mapa, um sociólogo argentino que vive em Recife, uma das cidades mais violentas do nordeste brasileiro e capital do Estado de Pernambuco. O desenvolvimento econômico, concentrado nas regiões metropolitanas industriais do Sudeste, teve uma descentralização a partir dos anos 1990, criando novos polos em outros Estados e no interior do país, atraindo população e investimentos para esses lugares.

A isso se somou o Plano Nacional de Segurança Pública, com um fundo que ajudou a melhorar o combate à criminalidade nas grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Além disso, uma aprimoramento nos registros de mortalidade reduziu os "cemitérios clandestinos" e o sub-registro caiu quase pela metade. Apesar dos avanços obtidos, a taxa de homicídios por armas de fogo continua extremamente alta. "Repete-se um Carandiru por dia", pontuou Waiselfisz.

Trata-se, segundo o sociólogo, de uma chaga compartilhada com o restante da região latino-americana, fruto de uma "herança colonial e escravagista, de desprezo pela vida humana", fundamentada na "cultura da violência, em que os conflitos são resolvidos exterminando o outro", e não mediante a negociação ou a justiça, e a uma "elevada impunidade". Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que a taxa média de homicídios na América Latina foi de 26 para cada cem mil habitantes, em 2010, o triplo da registrada na Europa. A ONU caracteriza como epidêmica a violência de mais de oito homicídios por cem mil pessoas.

Estudos realizados em São Paulo estimam que apenas 4% dos homicidas são presos, com "perdas" sucessivas na cadeia de denúncias, averiguações policiais, processos e condenações judiciais. Isto estimula a criminalidade e a quantidade excessiva de crimes aumenta a impunidade em um "círculo vicioso", observou Waiselfisz, dando como exemplo o brutal aumento de assassinatos no Estado de Alagoas, de 248% na década passada, devido à chegada ao Estado de outra mácula criminosa latino-americana: as máfias do narcotráfico, expulsas de outras regiões, e a debilidade da polícia local, que realizou greves de mais de sete meses.

Jorge Werthein, presidente do Cebela, destacou à IPS uma contradição que merece uma grande reflexão: a persistência da mortandade, e inclusive seu ligeiro aumento, nos últimos dez anos, quando cresceram a economia, a inclusão social e a geração de empregos, com forte redução da pobreza e desigualdade. A sociedade brasileira tem de reconhecer sua realidade, na qual "predomina a violência em níveis inaceitáveis", e buscar respostas "que não sejam apenas repressivas", afirmou.

O período de redução dos homicídios no Brasil foi fruto da campanha contra a posse e o uso de armas de fogo durante o final do século passado e começo do atual, parcialmente por um referendo que, em 2005, não aprovou a proibição no país do comércio de armas e munições. No Brasil e nos demais países latino-americanos o controle da venda de armas é necessário para reduzir os assassinatos, além de ações em áreas como a da persistência da cultura da violência, opinou Werthein.

O Mapa sobre a criminalidade letal no Brasil pretende principalmente "trazer à luz pública" as mortes cotidianas que permanecem "invisíveis" para a sociedade e cuja redução exige "políticas nacionais" e não apenas as tradicionais intervenções pontuais, ali onde há focos de violência criminosa, concluiu Waiselfisz. Envolverde/IPS

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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