Falcões republicanos mostram as garras nos Estados Unidos

Washington, Estados Unidos, 20/03/2013 – Dez anos depois de alcançar sua máxima influência com a invasão do Iraque, os neoconservadores e outros "falcões" (ala mais belicista) de direita lutam denodadamente para manter seu controle no opositor Partido Republicano dos Estados Unidos.

O senador Rand Paul é uma das principais figuras republicanas do setor libertário, oposto aos "falcões". - Gage Skidmore/CC-BY-SA-2.0

O senador Rand Paul é uma das principais figuras republicanas do setor libertário, oposto aos "falcões". - Gage Skidmore/CC-BY-SA-2.0

Essa campanha ficou evidente entre os dias 14 e 17 deste mês, na Conferência de Ação Política Conservadora, como apontou o jornal The New York Times em um artigo de primeira página.

O partido parece cada vez mais dividido entre o setor mais intervencionista, que impulsionou a guerra há uma década, e uma coalizão mais "realista" e libertária, isto é, defensora até a morte das liberdades individuais e do Estado reduzido, que se mostra cada vez mais cética, se não contrária, a novas aventuras militares no exterior. O componente libertário, que parece estar crescendo, se identifica mais com o chamado Tea Party, particularmente com o senador Rand Paul, do Estado do Kentucky, cuja resistência à ideia de usar aviões não tripulados em território norte-americano o converteu em herói, tanto para a direita quanto para a esquerda.

Tampouco contribuiu para a unidade republicana a hostil reação do senador John McCain e sua histórica aliada, Lindsay Graham, cujas opiniões em matéria de segurança nacional são fortemente neoconservadoras. Ambos são considerados pelos grandes meios de comunicação como os principais porta-vozes do partido em política externa. McCain disse que Paul e seus admiradores eram "pássaros loucos" que "tomam o megafone da mídia", e afirmou que os senadores republicanos que os apoiaram – entre eles o líder da bancada, Mitch McConell – deviam "conhecer melhor" sobre o que falam.

Além dos aviões não tripulados, o partido está profundamente dividido entre os obcecados com o déficit, entre eles muitos do Tea Party, que não acreditam que o Pentágono deva ser isento dos cortes orçamentários e mostram receio diante de novas campanhas militares no exterior, e os "falcões da defesa", liderados por McCain e Graham. Pouco a pouco vai aumentando a brecha entre esses dois setores, que já se chocaram em várias ocasiões na administração de Barack Obama em temas como a intervenção na Líbia e o conflito na Síria.

No momento, parece que se impõem os que lutam contra o déficit, ao menos a julgar pelas reações ao lançamento, no dia 1º deste mês, do plano "sequester" (confiscar), que supõe cortes automáticos em grande parte do gasto público e que poderia exigir do Pentágono redução de seu orçamento em outros US$ 500 bilhões. Também implica a redução em quase US$ 500 bilhões já acordada por Obama e o Congresso em 2011.

"Indefensável", escreveu o líder neoconservador Bill Kristol no Weekly Standard ao se referir à complacência dos republicanos frente aos cortes no orçamento militar. "O Partido Republicano, primeiro se recusando e depois com entusiasmo, uniu-se ao presidente em seu caminho para a irresponsabilidade", lamentou. O grande temor dos neoconservadores é que, devido ao cansaço pela guerra e pela atenção centrada no déficit, os republicanos regressem ao isolacionismo, postura que caracterizou o partido em sua resistência à intervenção dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), até o ataque japonês contra Pearl Harbour, em 1941.

A posterior declaração de guerra de Adolf Hitler contra os Estados Unidos silenciou os isolacionistas, e o surgimento em seguida da União Soviética como uma ameaça aos interesses de Washington, assegurou aos falcões o domínio sobre a política exterior por 45 anos. Mas o fim da Guerra Fria deu mais lugar a alguns membros do partido particularmente atentos a temas de orçamento e defensores de um Estado reduzido, que viram o grande aparato de segurança nacional e as aventuras militares no exterior como ameaças tanto às liberdades individuais quanto à saúde fiscal do país.

Portanto, muitos legisladores republicanos apoiaram significativos cortes na defesa, que começaram no governo de George H. W. Bush (1989-1993). O partido também se dividiu diante de várias ações militares na década de 1990, incluindo a intervenção "humanitária" de George H. W. Bush na Somália e as campanhas na Bósnia e em Kosovo durante o governo de Bill Clinton (1993-2001). Vários legisladores republicanos se opuseram veementemente à decisão de Clinton de enviar tropas ao Haiti em 1994, para apoiar o deposto presidente Jean-Bertrand Aristide. Mas, por outro lado, neoconservadores republicanos aliaram-se com os intervencionistas liberais no Partido Democrata para pressionar o inicialmente reticente Clinton a intervir nos Bálcãs.

Em 1996, Kristol e Robert Kagan escreveram um artigo na revista Foreign Affrairs alertando para um giro dos republicanos para um novo isolacionismo. No ano seguinte, ambos fundaram o Projeto para um Novo Século Norte-Americano, cuja carta foi assinada, entre outros, por oito altos funcionários do futuro governo de George W. Bush (2001-2009), como Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz. O novo grupo ideológico não serviu apenas de âncora para republicanos que apoiavam a visão de uma "hegemonia benevolente" dos Estados Unidos no mundo com base sem seu poderio militar, mas também de alavanca de pressão para maior orçamento para a defesa, uma postura mais desafiadora em relação à China e uma "mudança de regime" no Iraque.

Ao ocuparem postos estratégicos no segundo governo de George W. Bush, os falcões aproveitaram a comoção devido aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington e alcançaram sua maior influência, há exatamente dez anos, quando lançaram a invasão do Iraque. Mas, dez anos depois, estão perdendo domínio no Partido Republicano, não apenas pelo crescente consenso nacional de que a invasão foi uma grande catástrofe, mas também pelo temor popular, registrado em pesquisas de opinião nos últimos seis meses, de que Washington simplesmente não pode pagar o sonho imperial dos falcões.

Segundo as mesmas pesquisas, os eleitores mais jovens, entre 18 e 29 anos, são contra essa visão hegemônica, o que fortalece os membros do partido mais moderados em política exterior. Entretanto, fiéis à sua natureza, os falcões não estão dispostos a ceder, e sua influência no partido continua sendo elevada, como demonstrou o fato de que apenas quatro senadores republicanos, incluindo Paul, apoiaram a designação de Chuck Hagel como novo secretário de Defesa. Os neoconservadores lançaram uma forte campanha contra Hagel.

É muito cedo para que os defensores do orçamento declarem a vitória, disse Chris Preble, do libertário Cato Institute, no site Foreignpolicy.com. "Os neoconservadores não partirão sem lutar, e terão outras oportunidades nos próximos meses para ajustar o orçamento do Pentágono", alertou. Envolverde/IPS

* O blog de Jim Lobe está no endereço www.Lobelog.com.

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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