Imaginando uma Nova York sustentável em 2030

Uxbridge, Canadá, 21/03/2013 – O centro do distrito metropolitano de Manhattan está repleto de silenciosos automóveis, enquanto milhares de pessoas caminham pelas ruas ouvindo o cantar primaveril dos pássaros entre os arranha-céus que reluzem no límpido ar matinal.

Empire State Building à noite. - NLNY/cc by 2.0

Empire State Building à noite. - NLNY/cc by 2.0

É a cidade de Nova York em abril de 2030. Isto não é uma fantasia. É um objetivo perfeitamente possível de cumprir, segundo o especialista em energia Mark Jacobson, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos.

De fato, todo o Estado de Nova York poderia obter sua energia do vento, da água e da luz solar, com base em um detalhado plano do qual Jacobson é coautor. Fazer Nova York funcionar com energia verde não só é possível, como é "sustentável e barato", e permitiria salvar vidas e economizar custos em saúde, afirmou à IPS. A cada ano a contaminação aérea mata quatro mil pessoas no Estado de Nova York, e custa aos cofres públicos US$ 33 bilhões com gastos em saúde, segundo o estudo de Jacobson e outros especialistas de todos os Estados Unidos, que será publicado na revista Energy Policy.

"Mudar para fontes eólicas, hídricas e solares é viável, estabilizará os custos da energia e criará empregos, além de reduzir os danos à saúde e ao clima", afirmou o especialista. Segundo o plano, 40% da energia do Estado de Nova York procederá do vento, 38% do Sol e o restante da combinação de fontes hidrelétricas, geotérmicas e maremotrizes. Todos os veículos serão movidos eletricamente mediante baterias e/ou células de combustível de hidrogênio. A calefação e a refrigeração das casas e empresas serão geradas com bombas aéreas e terrestres, geotérmicas, trocadores de calor e aquecedores de resistências elétricas como apoio, em substituição ao gás natural e ao petróleo.

Os aquecedores de água serão movidos pelas mesmas bombas de calor, enquanto os pré-aquecedores fornecerão água quente às casas. As altas temperaturas para os processos industriais seriam obtidas com eletricidade e combustão de hidrogênio. Tudo isto pode ser conseguido com a tecnologia já existente. Os mais novos carros elétricos podem viajar 300 quilômetros entre cargas, ressaltou Jacobson.

Os significativos custos de construir centrais elétricas à base de fontes renováveis, adquirir novos veículos, bombas de calor e outros equipamentos seriam compensados com o tempo, e com juros, por meio da economia em gastos sanitários e por não mais ser preciso comprar carvão, petróleo e nem gás. O ponto de equilíbrio ocorreria entre dez e 15 anos, segundo o estudo. Outra conclusão é que, como a eletricidade verde é mais eficiente do que a queima de combustíveis fósseis, a demanda final de Nova York será 37% menor.

"Os veículos elétricos são cinco vezes mais eficientes do ponto de vista energético do que os movidos a gasolina", pontuou Jacobson. E utilizam 90% de sua energia para movimentar as rodas, enquanto os veículos convencionais a gasolina utilizam apenas entre 20% e 25%, e o restante se perde na forma de calor e ruído. Em média, as centrais elétricas alimentadas a carvão e petróleo têm eficiência de apenas 33%, e são importantes fontes de poluição do ar e aquecimento global. O custo de contaminação derivado da queima de combustível fóssil é amplamente subestimado, segundo uma pesquisa canadense que concluiu que o custo para a saúde pública que implica dirigir um carro ou um caminhão é de US$ 300 a US$ 800 anuais por veículo.

As ideias do público e os custos oficiais da contaminação podem ser drasticamente subestimados, disse Amir Hakami, da Universidade de Carleton, no Canadá. "Embora reduzir as emissões dos veículos e das centrais elétricas seja caro, não reduzi-las também custa dinheiro. Nossa pesquisa sugere que ignorar a contaminação custará muito mais no longo prazo", advertiu Hakami em um comunicado.

Quando o Sol não brilhar e o vento não soprar, há muitas maneiras de adaptar a oferta à demanda de energia, segundo o estudo. Todas as redes elétricas dependem de várias fontes energéticas, e as centrais alimentadas com combustível fóssil e as nucleares são retiradas da rede, às vezes durante meses ou anos, para serem reparadas. As fontes renováveis, geograficamente dispersas, podem unir-se às hidrelétricas para preencher os vazios que surgirem.

A energia também pode ser armazenada de várias maneiras, por exemplo, como calor, água bombeada e baterias. As melhorias na eficiência energética tornarão mais fácil a conversão de Nova York para 100% de energia verde, de um modo mais rápido e menos caro, pontuou Jacobson. Os governos investem muito pouco em melhorar a eficiência energética. A maior parte dos investimentos destinados à pesquisa é dedicada a gerar mais energia, indicou Charlie Wilson, cientista do austríaco Instituto Internacional de Análises de Sistemas Aplicados.

Criar um refrigerador barato e de alta eficiência ajudará muito na redução do consumo de energia e nas emissões de carbono, disse Wilson. "Também há um enorme potencial de economia energética nos prédios", explicou à IPS. Mas os políticos não pensam que criar medidas de retroadaptação seja atraente, por isso o dinheiro público é destinado a novas usinas elétricas. O mercado tampouco impulsionará essas medidas porque o custo da energia é muito baixo na maioria dos países, afirmou.

Mudar isto não será fácil. De longe, as maiores corporações do mundo são as produtoras de energia a partir de combustíveis fósseis, que têm enorme influência política, acrescentou Wilson. Para Jacobson, é necessária liderança para criar uma cidade de Nova York saudável e sem contaminação até 2030. "Penso que o público apoiará este plano em 100%, se o conhecer", opinou. "A economia deste plano tem sentido", disse Anthony Ingraffea, professor de engenharia na Universidade de Cornell e coautor do estudo. "Agora está nas mãos da esfera política", ressaltou. Envolverde/IPS

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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