Água e saneamento buscam um lugar na agenda após 2015

Nações Unidas, 21/03/2013 – Quando a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) adotou por unanimidade os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio em 2000, a água e o saneamento ficaram relegados a um segundo plano, sem estarem à altura do alívio da fome e da pobreza.

Os moradores de Clara Town, bairro pobre da Monróvia, na Libéria, enfrentam problemas de saneamento ao começar a temporada de chuvas. - Travis Lupick/IPS

Os moradores de Clara Town, bairro pobre da Monróvia, na Libéria, enfrentam problemas de saneamento ao começar a temporada de chuvas. - Travis Lupick/IPS

Agora que a ONU inicia o processo para formular os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para sua agenda posterior a 2015, há uma campanha para destacar a importância da água e do saneamento, para que o fórum mundial desta vez lhes dê o lugar que merecem.

O embaixador da Hungria, Csaba K?rösi, cujo governo será anfitrião em outubro de uma cúpula internacional da água em Budapeste, disse que "os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para a água deveriam ser desenhados para evitar a crise hídrica mundial que se avizinha". Em conversa com jornalistas na semana passada, o representante permanente da Hungria junto à ONU relembrou que os recursos hídricos praticamente não sofreram mudanças durante quase mil anos. "Entretanto, desde então a quantidade de usuários aumentou cerca de oito mil vezes", acrescentou.

Ao se projetar um aumento de 80% na produção mundial de alimentos até 2030 – e com 70% do consumo de água fluindo para o setor agrícola -, K?rösi afirmou que, muito em breve, 2,5 bilhões de pessoas viverão em áreas com escassez hídrica. Ao falar na Sessão Temática Especial da Assembleia Geral sobre Água e Desastres, este mês, o vice-secretário-geral Jan Eliasson foi taxativo: "Devemos abordar a vergonha mundial de milhares de pessoas que a cada dia morrem em emergências silenciosas causadas pela água suja e pelo saneamento de má qualidade".

O tema da cúpula de Budapeste, prevista para começo de outubro, será: "O papel da água e do saneamento na agenda mundial para o desenvolvimento sustentável". Este encontro será precedido por uma Conferência Internacional de Alto Nível sobre Cooperação Hídrica, em agosto no Tajiquistão, e pela Semana Mundial da Água, patrocinada pelo Instituto Internacional da Água de Estocolmo (Siwi), que será realizada em setembro na Suécia, além de várias outras conferências e reuniões regionais na Ásia, África e América Latina. As reuniões acontecem quando a Assembleia Geral declara 2013 Ano Internacional da Cooperação na Esfera da Água, e comemora o Dia Mundial da Água amanhã.

O diretor-executivo do Siwi, Torgny Holmgren, disse à IPS que, segundo uma pesquisa de Estados membros da ONU sobre áreas prioritárias para objetivos posteriores a 2015, os alimentos, a água e a energia surgiram como cruciais. Pelo segundo ano consecutivo, afirmou, a crise no fornecimento hídrico figurou entre os três principais riscos mundiais no levantamento anual feito pelo Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.

"Também estamos vendo como os assuntos relativos à água estão sendo priorizados pelos atores de fora da comunidade hídrica tradicional", e de modo particularmente significativo os dos setores da alimentação e da energia, explicou Holmgren, embaixador e diretor do Departamento de Políticas de Desenvolvimento no Ministério de Assuntos Exteriores da Suécia.

Em meio a tudo isto, acrescentou Holmgren, tem lugar um debate importante com o olhar voltado para o desenvolvimento de novas ambições, que objetivem o movimento para um mundo sustentável e desejável para a agenda posterior a 2015. "Sou otimista quanto a esta nova consciência sobre a importância da água se converter em objetivos e metas de longo alcance a propósito da água como recurso, como direito e como serviço", pontuou.

John Sauer, diretor de relações externas da Water for People, disse à IPS que a ONU deu um passo importante ao declarar a água e o saneamento em um direito humano por meio de uma resolução da Assembleia Geral (64/292) em 2010, e apontou que, apesar deste esforço, sua tarefa de garantir um serviço barato de água e saneamento deve evoluir e inovar, para enfrentar este desafio em toda sua imensidão. "Enquanto a ONU desvia a atenção para a Meta do Milênio da cobertura universal, os controles deveriam passar para o atual cumprimento do serviço", destacou.

Isto é crucial para que não fracassem grandes quantidades de projetos, como ocorre atualmente, acrescentou Sauer. "Implica olhar mais além dos projetos financiados e dos beneficiários alcançados, em lugar de olhar para uma sistemática criação de capacidade dentro do governo, da sociedade civil e das instituições do setor privado. Isto também significa criar associações mais fortes. Se a ONU pode demonstrar melhor seu impacto, por exemplo, usando indicadores para mostrar a capacidade criada, isto seria um avanço na direção correta", ressaltou. Junto com as organizações não governamentais, as Nações Unidas devem aumentar a transparência para revelar o verdadeiro impacto de suas operações, acrescentou.

No entanto, Richard Greenly, presidente da Water4, disse à IPS que entidades como a ONU sempre terão pouco ou nenhum efeito sobre a crescente crise da água e do saneamento. "Mas não por falta de muito boas intenções ou de muito esforço. O fato é que nós, como civilização, não podemos dar nem conceder a outro país a prosperidade e a saúde", acrescentou. Isso nunca funcionou na história do mundo e jamais acontecerá na crise da água e do saneamento, indicou. Cada país industrializado pagou seu próprio desenvolvimento hídrico criando empresas dedicadas à água, ressaltou.

"O comércio é a maneira de sair da pobreza, e embora a ONU tenha boas intenções o desenvolvimento sustentável da água deve ser posto nas mãos dos cidadãos locais para que solucionem seus próprios problemas hídricos", enfatizou Greenly. O que estas pessoas necessitam desesperadamente da ONU é a oportunidade de desenvolverem seus próprios recursos hídricos, acrescentou.

Holmgren declarou à IPS: "Também vejo claros sinais, tanto da necessidade quanto da abertura de novas colaborações e ideias". Segundo ele, os objetivos posteriores a 2015 são discutidos de modo tão inclusivo quanto nossos meios eletrônicos de comunicação o permitem. "Vemos que surge mais cooperação entre os governos, o setor privado, a academia e a sociedade civil", acrescentou.

Inclusive, há casos em que se encontra um denominador comum entre competidores para a colaboração por um mundo mais sábio em matéria hídrica, afirmou Holmgren. Tem sentido "todos estes esforços estarem surgindo durante o Ano Internacional da Cooperação na Esfera da Água, e no Siwi desejamos contribuir ainda mais com uma melhor cooperação e resultados mais concretos por meio da Semana Mundial da Água", concluiu. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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