Masafer Yatta, Cisjordânia, 26/04/2013 – Uma guerra diplomática silenciosa acontece entre vários governos europeus e autoridades israelenses, especialmente a Administração Civil que controla este território palestino no sul da Cisjordânia.

Eliad Orian, da Comet, dentro da caverna, sede elétrica para a área de Masafer Yatta. - Mel Frykberg/IPS
Caso isso ocorra, mais de mil palestinos ficarão sem serviços de eletricidade e, por conseguinte, com sérias dificuldades para sobreviver nessa área. A organização Community Energy Technology in the Middle East (Comet) fornece, desde 2006, serviços gratuitos de energia renovável híbrida, solar e eólica, para comunidades que estão fora da rede elétrica no sul da Cisjordânia.
A iniciativa palestino-israelense foi fundada pelos físicos Noam Dotan e Ela Orian, que desejavam fazer algo para enfrentar o caráter destrutivo da ocupação de Israel. A Comet construiu 22 instalações elétricas em 22 comunidades e fornece eletricidade para mais de 1.500 pastores e camponeses palestinos do árido sul da Cisjordânia, que praticam uma agricultura não mecanizada.
A Cisjordânia está dividida em três zonas: área A, nominalmente sob controle palestino; área B, com administração conjunta palestino-israelense; área C, 62% do território além de Jerusalém oriental sob rígida supervisão israelense. Esta última está principalmente reservada para os mais de 500 mil colonos que vivem em várias centenas de assentamentos e postos avançados.
"As comunidades palestinas estão deliberadamente desconectadas de estradas, rede elétrica, água e saneamento por parte das autoridades israelenses, que pretendem manter a área C exclusivamente para suas colônias", disse à IPS o gerente de desenvolvimento organizativo da Comet, Aya Shoshan.
O projeto da Comet consumiu a considerável quantia de meio milhão de euros, doados por numerosos governos europeus, especialmente o da Alemanha, e por organizações internacionais e fundações. As obras levaram entre três e quatro anos de trabalho, a maioria a cargo de voluntários israelenses e palestinos.
"Há um ano começamos a receber avisos de demolição da Administração Civil israelense. Atualmente são dez que estão em risco, o que deixará mais de mil palestinos sem eletricidade", disse Shoshan à IPS. "Israel, enquanto potência ocupante, é responsável pelo bem-estar dos palestinos que vivem na área ocupada, segundo o direito internacional", acrescentou. "Israel não apenas deixa de cumprir sua responsabilidade, como ameaça destruir um projeto humanitário, financiado por doadores internacionais e que busca aliviar as dificuldades da vida dos palestinos", enfatizou Shoshan.
Em resposta às ameaças da Administração Civil israelense, a Comet empreendeu uma mobilização diplomática para salvar o projeto. Esta incluiu visitas de missões diplomáticas e delegações e aponta para funcionários europeus de alto nível e membros do parlamento. Também iniciou ações legais e recorreu à imprensa internacional.
"O governo alemão, um dos principais doadores, pressionou as autoridades israelenses para que não continuem com as demolições, assim como fizeram vários outros doadores europeus, e estamos seguros de que isso deteve temporariamente a destruição das instalações elétricas. Mas a ameaça continua existindo", alertou Shoshan.
Na manhã em que a IPS visitou a localidade de Gawa'is, em Masafer Yatta (uma área de várias casas), funcionários da Administração Civil israelense chegaram pouco depois de um aviso de que seria realizada uma demolição. A presença de uma equipe de filmagem de Israel talvez tenha influenciado na interrupção da execução.
Os projetos elétricos da Comet melhoraram a vida dos palestinos enormemente, e impulsionaram a economia local em 70%. "Em lugar de vender produtos perecíveis, como queijo e manteiga, no momento e tendo que se trasladar cada vez aos povoados próximos, os produtos agora podem ser refrigerados, possibilitando fazer uma só viagem e vender no atacado", explicou Shoshan.
A produção de manteiga e queijo também aumentou 15% graças à introdução de uma leiteira elétrica. Antes, a fabricação à mão demorava duas horas, um trabalho basicamente feminino. O uso da água fria melhorou a eficiência na separação da matéria-prima, e os agricultores puderam aumentar em 50% seu produto final.
A vida das mulheres melhorou muito porque são as responsáveis pela produção láctea. A roupa se lava na máquina. As crianças podem fazer deveres à noite com luz elétrica em lugar de luz à vela. "Pela primeira vez em minha vida me sinto como ser humano", disse emocionado Ali Awad, do povoado de Tuba. "Por acaso esta infraestrutura mínima pode chegar a ser algum tipo de ameaça a Israel?", questionou. Envolverde/IPS

