A ONU quer ser uma Babel

Nações Unidas, 14/05/2013 – Quando, no final de 1991, candidatou-se para o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o então chanceler egípcio Boutros Boutros-Ghali precisou competir com seu colega do Zimbábue, Bernard Chidzero, com quem mantinha uma longa amizade. No momento mais intenso da campanha, Boutros-Ghali revelou detalhes de um rápido encontro que teve com Chidzero durante uma conferência na África, continente que na época reclamava o posto de máximo chefe da ONU argumentando a rotatividade geográfica.

Chidzero, procedente de uma nação de fala inglesa que contava com apoio da Grã-Bretanha e da Comunidade Britânica de Nações (organização de 54 países que compartilham laços históricos com Londres), conversava com Boutros-Ghali em inglês quando, de repente passou a falar em francês. Captando de imediato a mensagem, Boutros-Ghali colocou o braço sobre os ombros de Chidzero e, brincando, lhe disse: "Bernard, se quer a aprovação da França, não só terá que falar francês, mas também inglês com sotaque francês".

A França, membro permanente do Conselho de Segurança, defendia com tanta paixão seu idioma na ONU, que provavelmente teria exercido seu poder de veto contra qualquer candidato que não o falasse. Até hoje, ninguém que pretenda ser secretário-geral da ONU pode ser dar o luxo de não ter um nível aceitável de francês, ou ao menos se comprometer a dominar o idioma. Paris continua considerando o francês "a língua da diplomacia internacional".

Nos últimos 66 anos, os dois idiomas dominantes nas Nações Unidas têm sido o inglês e o francês, embora o fórum reconheça outras quatro línguas oficiais: chinês, árabe, espanhol e russo. Boutros-Ghali, que falava fluentemente tanto inglês quanto árabe e francês, foi secretário-geral entre 1992 e 1996.

Na semana passada, o Grupo dos 77 (G77), que reúne 132 países em desenvolvimento, queixou-se de "continuar aprofundando a disparidade no uso dos (seis) idiomas oficiais no site da ONU". O embaixador de Fiji, Peter Thomson, que preside este grupo, declarou à Comissão de Informação que os esforços do Departamento de Informação Pública (DIP) para melhorar os conteúdos linguísticos no site das Nações Unidas não são suficientes.

"O Grupo reitera seu pedido para que os escritórios que fornecem conteúdos à Secretaria da ONU traduzam todos os materiais e bases de dados em inglês para os demais idiomas oficiais, e os deixem disponíveis nos respectivos sites dessas línguas", acrescentou Thomson. No mês passado, o DPI tomou a iniciativa de traduzir para o espanhol os comunicados de imprensa divulgados durante a reunião da Comissão sobre População e Desenvolvimento.

Atualmente, o Departamento de Operações de Manutenção da Paz é o único escritório da ONU cujo site está nos seis idiomas oficiais. Consultado a respeito, o porta-voz do fórum mundial, Farhan Haq, admitiu que os comunicados de imprensa são divulgados somente em francês e inglês. "Porém, temos serviços de rádio em muitos mais idiomas, incluindo os seis oficiais, e traduzimos as mensagens do secretário-geral para muitas línguas", disse à IPS.

Haq destacou que a tradução simultânea de encontros e conferências não é a única instância em que a ONU usa todos os idiomas oficiais. O funcionário destacou que muitos documentos, incluindo informes do secretário-geral, são divulgados nas seis línguas. Consultado sobre os idiomas que fala o atual secretário-geral, o porta-voz disse que Ban Ki-moon fala inglês, francês, chinês, além de sua língua mãe, coreano. "Quando viaja também tenta aproveitar seu conhecimento de outros idiomas", destacou Haq.

A embaixadora de Omã, Lyutha Sultan Al-Mughairy, presidente do Comitê de Informação, disse à IPS que esse órgão pela primeira vez destacou a responsabilidade da Secretaria de promover o multilinguismo em todas as atividades de comunicação e informação das Nações Unidas, "com os recursos existentes e em uma base equitativa". Mughairy destacou que, no mês passado, lançou um projeto para difundir comunicados de imprensa também em espanhol durante grandes encontros, e afirmou que no site da Missão Integrada Multidimensional de Estabilização em Mali são usados os seis idiomas oficiais.

Além disso, com apoio do Programa de Voluntários das Nações Unidas, os capítulos introdutórios do último Anuário da ONU foram traduzidos para as seis línguas. "Portanto, creio que é criativamente possível, e acredito que muitos líderes do DIP desejam fazer o melhor", ressaltou a embaixadora. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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