"Sementes nativas são a base da soberania alimentar"

Roma, Itália, 21/06/2013 – A rede mundial Via Camponesa acaba de declarar a soberania alimentar como um “direito fundamental de todos os povos, nações e Estados controlar seus alimentos e seus sistemas alimentares, e a decidir suas políticas garantindo a cada um alimentos de qualidade, adequados, acessíveis, nutritivos e culturalmente apropriados”.

Francisca Rodríguez, líder indígena chilena da Via Camponesa. - Julio Godoy/IPS

Francisca Rodrí­guez, líder indí­gena chilena da Via Camponesa. – Julio Godoy/IPS

A decisão foi adotada na sua VI conferência realizada em Jacarta, na Indonésia, entre os dias 9 e 13 deste mês, por esta rede de 150 organizações camponesas, de pequenos agricultores, mulheres rurais, povos indígenas e trabalhadores agrícolas, que representam cerca de 200 milhões de pessoas em 70 países.

Esta soberania depende da recuperação e preservação das sementes nativas, pois são a garantia da riqueza alimentar e da biodiversidade agrícola, disse em entrevista à IPS Francisca “Pancha” Rodríguez, líder da Associação Nacional de Mulheres Rurais e Indígenas do Chile. Ela participa da 38ª conferência bianual da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que acontece esta semana na capital italiana.

A Via Camponesa e outras organizações da sociedade civil colocaram a reivindicação da soberania alimentar no centro de seu diálogo com instituições internacionais como a FAO. Em Jacarta, a Via Camponesa decidiu priorizar a promoção da agroecologia, entendida como “produção de alimentos baseada na agricultura camponesa”; a rejeição à violência e à discriminação contra as mulheres; e a defesa da terra e dos territórios mediante “uma reforma agrária integral, único modo de garantir um futuro para os jovens do campo”.

IPS: Por que a defesa das sementes nativas está no centro da reivindicação da soberania alimentar?

FRANCISCA RODRÍGUEZ: As sementes crioulas constituem o pilar fundamental da soberania alimentar, junto à luta contra a agricultura transgênica do oligopólio agroindustrial multinacional. A defesa da soberania alimentar parte de onde parte a cadeia alimentar, e esta começa com as sementes. O roubo de sementes, cometido pelas multinacionais contra os camponeses, faz com que o acesso à terra de nada nos sirva, se vamos ser dependentes desse oligopólio que busca a hegemonia sobre as sementes.

IPS: Como a perda de sementes nativas afeta a biodiversidade agrícola?

FR: As multinacionais da agricultura química têm que eliminar centenas de sementes para patentear apenas uma. Esta eliminação de tantas variedades é um atentado aos camponeses e à humanidade, pois, ao se destruir essas variedades, se reduz a biodiversidade, nos tiram riqueza alimentar e cultural mundial. Além disso, as multinacionais buscam vincular suas sementes a toda cadeia de produção agrícola, para dominá-la com seus insumos. As sementes têm muitos significados que unem a humanidade. Nelas há ciência, espiritualidade, sabedoria. Tudo isto perdemos quando perdemos as sementes, inclusive o direito de continuar sendo camponês.

IPS: Na América Latina a defesa de variedades nativas de milho contra as modificadas geneticamente também mobiliza os camponeses.

FR: Sim, se vê isso no México, na América Central, no Brasil. A defesa das sementes do milho natural no México não é uma luta apenas dos camponeses, mas de todo o povo. Da mesma forma, o resgate das múltiplas plantas de milho crioulo no Brasil constitui uma garantia de variedade e riqueza alimentar, e de resistência às enfermidades que afetam as plantas.

IPS: Outro desafio na América Latina é a suposta estrangeirização e o monopólio de terras. Quais ações a Via Camponesa propõe?

FR: A única garantia é o acúmulo de forças para a mobilização e a resistência contra o monopólio de terras. As sociedades devem entender que o direito à terra e à agricultura é de todos, de cada país e cada povo, não apenas dos camponeses, e que, por isso, da luta por esse direito todos devemos participar. O monopólio decorre dos interesses principais do capital transnacional, pois a terra por meio da agricultura lhes proporciona enormes lucros e também acesso a outros recursos, como a água e os minerais. Assim, os limites legais que estão sendo introduzidos na estrangeirização não são suficientes. Temos que eliminar as monoculturas, proteger a água e devolver a terra à sua função social: a de produzir alimentos para o povo. Devemos defender a Mãe Terra, que nos dá vida e pertence a todos. Envolverde/IPS

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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