As mulheres são as mais afetadas pelas medidas de austeridade

Nações Unidas, 11/06/2013 – A propagada crise financeira na Europa e seu negativo impacto no Sul em desenvolvimento deram lugar a uma onda de severas medidas de austeridade.

"A crise e as medidas de austeridade tiveram um impacto negativo na mão de obra feminina", afirmou John Hendra. - UN Photo/Paulo Filgueiras

"A crise e as medidas de austeridade tiveram um impacto negativo na mão de obra feminina", afirmou John Hendra. - UN Photo/Paulo Filgueiras

As principais vítimas? As mulheres. Pelo menos nove países europeus – Bélgica, Eslováquia, Espanha, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Portugal e Romênia – estão reduzindo ou eliminando subsídios. As medidas também incluem a redução ou limitação dos salários estatais, aumento dos impostos sobre consumo e reformas das aposentadorias, da assistência social, do sistema sanitário e do mercado de trabalho.

"Não há nenhuma dúvida de que os mais pobres e vulneráveis, cuja maioria é de mulheres, são os mais afetados pela austeridade", disse à IPS o subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), John Hendra. Isto ocorre tanto em países em desenvolvimento como nos industrializados, destacou Hendra, que também é subdiretor-executivo para Políticas e Programas da ONU Mulheres.

As famílias mais pobres e vulneráveis já estão se ajustando às sucessivas crises há muitos anos, com aumento nos preços dos alimentos e combustíveis, e, portanto, sua capacidade de resistência hoje é limitada, afirmou Hendra em entrevista à IPS. Hendra também foi representante do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em vários países, entre eles Letônia, Tanzânia e Vietnã.

Em agosto de 2012, segundo as últimas estatísticas, o desemprego entre as mulheres era maior do que entre os homens em dez países da União Europeia: Eslováquia, Eslovênia, Espanha, França, Grécia, Itália, Luxemburgo, Malta, Polônia e República Checa. Na Espanha e na Grécia, mais de um quarto da mão de obra feminina estava sem emprego no ano passado. Além disso, a brecha salarial entre homens e mulheres aumentou em vários países, particularmente na Bulgária, Letônia e Romênia.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a proporção de mulheres em empregos vulneráveis é maior do que a dos homens em todo o mundo, e em algumas regiões de maneira significativa. No norte da África, por exemplo, 55% das mulheres, contra 32% dos homens, têm empregos vulneráveis. No Oriente Médio, a proporção chega a 42%, contra 27% para os homens, e na África subsaariana é de 85% contra 70%.

IPS: A crise financeira, propagada tanto no Norte industrial quanto no Sul em desenvolvimento, pode afetar alguns dos êxitos alcançados pelas mulheres na última década?

JOHN HENDRA: Acredito que sim. Por exemplo, a crise e as medidas de austeridade tiveram um impacto negativo sobre a mão de obra feminina. Na Europa, esta diminuiu. A taxa de desemprego é maior entre as mulheres do que entre os homens em muitos países, e a brecha salarial também aumentou. Em países em desenvolvimento a crise e as medidas de austeridade levaram muitas mulheres para o trabalho informal e vulnerável. Como as mulheres, em geral, são empregadas com contratos frágeis e não permanentes, são mais vulneráveis a serem demitidas em tempos de recessão. Elas sofreram uma perda desproporcional de empregos durante a crise financeira asiática (1997-1998) e na crise mundial de 2008-2009. As medidas de austeridade também tiveram impacto negativo no progresso para uma distribuição mais equitativa das tarefas de cuidados. Os cortes nos serviços públicos de saúde e cuidados derivaram em uma nova privatização e em um regresso às regras de gênero tradicionais.

IPS: E quanto é severo este revés para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) referentes a empoderamento de gênero, saúde materna e mortalidade infantil?

JH: Há um risco real de que a austeridade reduza o progresso para os ODM. Como disse há pouco a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos, as medidas provavelmente frearão o crescimento e a redução da pobreza, exacerbando as desigualdades. Segundo o Overseas Development Institute e a Plan International, a queda de 1% no produto interno bruto aumenta a mortalidade infantil para 7,4 mortes para cada mil meninas nascidas vivas, contra 1,5 mortes para cada mil meninos nascidos vivos. As taxas de conclusão do curso primário caem durante a época de recessão. Entre as meninas esse índice chega a 29% contra 22% dos meninos. Nas crises econômicas mais mulheres dão à luz em casa no Sul em desenvolvimento, e sua situação nutricional e o número de exames médicos pré e pós-natal diminui. Isto afeta significativamente o êxito do Objetivos do Milênio. A agenda de desenvolvimento da ONU para depois de 2015 pode ajudar a tratar a desigualdade, melhorar o respeito aos direitos humanos e garantir que todos os países se comprometam com a sustentabilidade, a igualdade e a erradicação da pobreza. O mais importante é assegurar que a igualdade de gênero seja central em uma nova agenda de desenvolvimento, e que inclua uma meta específica sobre o tema e o integre em todas as outras metas e outros objetivos. Também é fundamental seguir de perto o atual modelo de crescimento e as políticas de austeridade. Creio que nas últimas semanas foi alcançado um ponto de quebra no debate sobre as medidas de austeridade, quando o Fundo Monetário Internacional admitiu que o impacto recessivo destas foi mais grave do que se previa, e que foram identificados erros na informação e nas análises sobre a dívida pública nas quais se apoiaram essas medidas. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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