Joanesburgo, 08/2013 – Um diferendo sobre as exportações de limões sul-africanos para a União Europeia não foi a única nota dissonante quando os líderes de ambos os países se reuniram para discussões sobre comércio e outros assuntos em Pretória em Julho.
O Presidente sul-africano, Jacob Zuma, reuniu-se com José Manuel Barroso, Presidente da Comissão Europeia, e com o Presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, no dia 18 de Julho, para negociar a forma de agilizar as relações da União Europeia com o bloco comercial da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC)
As actuais negociações irão substituir todos os acordos existentes com a SADC, incluíndo o Acordo de Comércio, Desenvolvimento e Cooperação [ACDC, com um Acordo de Parceria Económica (APE) global.]
No entanto, John Mare, consultor em relações internacionais, um dos delegados do Fórum Empresarial África do Sul-União Europeia, sugeriu que se tinha registado uma nova atmosfera.
“Penso que as coisas se tornaram muito mais reais para ambos os lados, e que está prestes a haver graves danos no comércio União Europeia-África do Sul e União Europeia–África, assim como às relações políticas de apoio – numa altura inoportuna para ambos os lados,” opinou Mare à IPS.
Gert Gouws, Director Financeiro da Corporação para o Desenvolvimento Industrial (IDC), empresa estatal sul-africana, que foi um dos intervenientes no Fórum Empresarial, disse à IPS que estava “optimista que se celebraria um novo acordo com a União Europeia.”
“Em geral, as luas-de-mel nunca duram para sempre,” acrescentou.
“As relações a longo prazo precisam de ser construídas sobre alicerces que sejam mutuamente benéficos. Têm-se realizado muitas discussões a nível bilateral, e as empresas europeias continuam interessadas em investir na nossa região, em áreas como a energia renovável, que será importante durante muitos anos.”
Tornou-se claro no período que antecedeu a Cimeira que existia uma certa irritação tanto da parte sul-africana como da parte da União Europeia a propósito da actual relação.
O Ministro do Comércio e Indústria da África do Sul, Rob Davies, e o seu principal negociador na área do comércio, Xavier Carim, criticaram a decisão da União Europeia de impor o prazo de Outubro de 2014 para implementação da nova APE com a SADC, sugerindo que, se isso não fosse alcançado, alguns dos países vizinhos da África do Sul podiam constatar que o acesso preferencial existente referente às suas exportações para a Europa iria terminar sem estar implementado qualquer novo regime.
Davies sugeriu que esta situação podia afectar países como a Namíbia, Suazilândia e Botswana de “maneira brutal, com repercurssões socio-económicas e para o emprego.”
O Comissário do Comércio da União Europeia, Karel De Gucht, sublinhou que os negociadores europeus estão sob pressão por parte dos lobbies agrícolas numa altura em que a economia da União Europeia continua deprimida.
Sugeriu que a União Europeia já concede melhor acesso às exportações sul-africanas do que o oferecido pela África do Sul às exportações da União Europeia.
De Gucht advertiu que a África do Sul não devia tomar como garantido que a Europa iria continuar a fazer concessões a menos que os seus interesses fossem respeitados e que isso também se aplicava ao investimento – uma vez que a União Europeia foi a fonte de 88 por cento dos investimentos directos estrangeiros na África do Sul no passado.
Mare indicou estar optimista e que, apesar da retórica, “A União Europeia está mais disposta a chegar a um compromisso para uma solução mutuamente aceitável, e para a criação de um novo regime comercial.”
“Somos o maior parceiro comercial da África do Sul e planeamos continuar a sê-lo,” declarou Barroso. “Vemos um grande potencial na relação entre a União Europeia e a África do Sul.”
Zuma concordou: “Valorizamos muito esta parceria estratégica.”
Diminuíu entretanto o holofote sobre a cimeira, pelo que as negociações comerciais entre a União Europeia e os países da SADC vão continuar em sessões mais discretas.
Porém, depois das recentes duras negociações, o tom das discussões mudou.
A África do Sul e os seus parceiros receberam um aviso claro que as boas intenções da Europa permanecem, mas é preciso haver reciprocidade.
A Directora do programa da diplomacia económica do Instituto dos Assuntos Internacionais da África do Sul, Catherine Grant, disse à IPS “Parece haver ainda um certo nível de desconfiança.”
“A relação é muito frágil, particularmente quanto às questões económicas. Vemos a área do investimento tornar-se um ponto nevrálgico em grande parte das discussões.”

