Bogotá, Colômbia, agosto/2013 – O lado positivo desta nova tentativa de negociações entre Israel e Palestina, moribundas desde 2010, é a decisão dos Estados Unidos de pegar nas mãos a solução desse conflito: conseguir que as partes aceitem dialogar e chegar a um acordo que leve à criação do Estado palestino independente, como quer o presidente Barack Obama.
Este bem-vindo impulso se deve a John Kerry, seu secretário de Estado. “Os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de permanecer à margem”, disse o chanceler. Kerry fez seis viagens ao Oriente Médio e manteve inumeráveis conversações com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e com o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahamoud Abbas.
As negociações foram abertas em 29 de julho e Kerry espera que em nove meses se chegue a um amplo acordo que atenda seus objetivos.
Israel violou de forma constante princípios básicos do direito internacional e disposições do Quarto Convênio de Genebra referentes à proteção dos civis. Também ignora 87 resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), condenando os assentamentos judeus e exigindo seu desmantelamento, bem como a retirada dos territórios ocupados.
A comunidade internacional considera ilegais essas colônias. Mais de 200 mil judeus israelenses ocuparam a Cisjordânia por essa via. Mas Netanyahu não se deteve e ignorou a demanda de Obama para suspendê-las.
Em Jerusalém oriental, território palestino, o governo israelense ordenou a construção de prédios e a retirada das famílias palestinas de suas casas para alojar colonos judeus.
A intenção de converter a Palestina em Estado judeu, com a expulsão dos árabes, remonta à década de 1930, com o êxodo judeu para esse território, que estava sob mandato britânico, promovido desde Londres pelo líder sionista David Ben-Gurión, que depois foi primeiro-ministro (1948-1954 e 1955-1963).
O plano sionista era criar o Grande Israel. Seus sucessores cumpriram pouco dessa meta. Com a Guerra dos Seis Dias (preventiva), o território israelense se estendeu em 1967 a toda a Palestina, ocupando Gaza e Cisjordânia e também as colinas de Golã, na Jordânia, e o Sinai, no Egito.
O primeiro-ministro Ariel Sharon (2001-2006) implantou o plano de assentamentos judeus para apropriar-se dessas terras. O regime colonial que Israel impõe e os ataques militares a Gaza, em resposta aos foguetes lançados pelo Hamás (Movimento de Resistência Islâmica) e outros grupos, são devastadores.
Israel mantém o controle militar e os bloqueios, proíbe os palestinos de usarem a rede de estradas, exclusiva para os colonos, e construiu um muro de separação em território jordaniano, ao longo de sua fronteira, tomando cerca de mais 10% dessas terras.
O Tribunal Internacional de Justiça declarou ilegal o muro e exigiu sua demolição, em 2004. O ex-presidente norte-americano Jimmy Carter o comparou com o apartheid.
Os Estados Unidos não se opõem a essa política ilegal e impedem que a Organização das Nações Unidas (ONU) a sancione. Israel é o maior receptor de sua ajuda, econômica e militar.
Washington vetou mais de uma centena de resoluções condenatórias contra Israel no Conselho de Segurança da ONU. Essa defesa a qualquer preço contribui para a incapacidade do fórum mundial de sancionar o total desacato israelense à Carta das Nações Unidas e ao direito internacional, que seria motivo de expulsão.
O Knesset, parlamento unicameral israelense, aprovou, em 1980, uma lei para a anexação de Jerusalém oriental, território palestino, com a pretensão de converter em capital de Israel a cidade mais santa de muçulmanos, católicos e judeus.
Para o atual primeiro-ministro Netanyahu, do direitista partido Likud, são anátema os temas mais importantes que devem ser discutidos nas negociações de paz: fronteiras, status de Jerusalém e regresso dos refugiados aos lugares de onde foram expulsos, hoje Estado de Israel.
As negociações serão extremamente difíceis, mas Israel hoje está mais só do que nunca.
A União Europeia (UE) acaba de proibir, em meados de julho, todo acordo com Israel que implique sua participação nos territórios ocupados em 1967.
Netanyahu respondeu com ira: “Não aceitamos ordens externas em relação às nossas fronteiras”, assuntos que só serão resolvidos em negociações diretas entre as partes, afirmou.
A decisão da União Europeia também afeta os Estados Unidos: os aliados já não compartilham sua defesa a todo custo de Israel.
Os presidentes dos Estados Unidos nunca se ocuparam da tragédia palestina, sua prioridade é Israel.
Somente Obama, em um magistral discurso feito no Cairo, em junho de 2009, se referiu ao “inegável sofrimento” desse povo e ao seu deslocamento “como consequência da criação do Estado de Israel”. Qualificou sua situação de “intolerável” e prometeu não dar as costas à sua “legítima aspiração”. Até agora, são apenas palavras.
A responsabilidade de Washington é imensa e perde terreno frente à comunidade internacional.
Uma ampla maioria mundial está com a Palestina, novo membro da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) desde 2011, e Estado observador da ONU desde 2012, com capacidade de levar suas queixas ao Tribunal Penal Internacional.
O mundo quer o fim desse conflito, pois causou a perda de muitas vidas e o sofrimento de um povo que nada teve a ver com o Holocausto.
A tarefa de Kerry é muito difícil. Em seu país, as organizações sionistas são poderosas, e os grupos e entidades judias no mundo do seguro se oporão a tudo aquilo que afetar Israel.
Somente uma decisão firme dos Estados Unidos, aliado e generoso benfeitor, poderá convencer seu baluarte no Oriente Médio de que a paz é necessária, mas somente será conseguida realmente com justiça. Envolverde/IPS
* Clara Nieto é escritora e diplomata, integrante por 11 anos da missão da Colômbia perante a ONU e ex-embaixadora na Iugoslávia e em Cuba. É autora do livro Obama e a Nova Esquerda Latino-Americana.


