O Maior Projecto Hidroeléctrico em África Poderá Ficar Pelo Caminho

Joanesburgo/Lubumbashi, 08/2013 – Há grandes ambições para o maior projecto hidroeléctrico em África, o Inga 3, na República Democrática do Congo, embora os analistas se mostrem cépticos quanto à realização de um projecto tão ambicioso.

O Ministro da Energia congolês, Bruno Kapandji, anunciou em 19 de Maio na capital da República Democrática do Congo, Kinshasa, que o projecto estava a avançar, afirmando ainda que o Inga III iria produzir 4.800 megawatts de electricidade.

O Inga III será construído no local onde há outras duas barragens, na região baixa do Rio Congo, na zona ocidental da República Democrática do Congo.

Os projectos anteriores, o Inga I e II, foram inaugurados em 1971 e 1982, respectivamente. Hoje as duas barragens, que são geridas pela SNEL, companhia nacional de electicidade, só produzem 20 por cento da sua produção inicial devido à falta de manutenção.

O Inga III está orçado em12 biliões de dólares, estando os custos de construção da barragem estimados em 8.5 biliões. O projecto completo demorará seis anos a concluir.

Como primeiro passo, o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento irão aprovar um pacote de assistência técnica de 63 milhões de dólares para preparar o projecto. De acordo com os folhetos informativos do Banco Mundial sobre o projecto, 43 milhões de dólares serão provenientes do seu braço concessionário de financiamento, a Associação Internacional para o Desenvolvimento (IDA), e outros 20 milhões de dólares serão provenientes do Banco Africano de Desenvolvimento.

A África do Sul é um parceiro no projecto mas também o seu principal cliente.

Ian Cruickshanks, economista independente, aplaudiu a visão por trás do Inga III, mas manifestou a sua preocupação quanto à sua realização.

“O potencial deste projecto é enorme e extraordinário e pode fazer uma enorme diferença para a África Subsaariana,” disse à IPS.

“Pode fornecer electricidade mais limpa e mais barata do que a que é actualmente produzida nas centrais eléctricas alimentadas a carvão. O rio está lá – basta colocar as turbinas e construir as linhas de alta tensão.”

Cruickshanks calculou que, com uma capacidade de 40.000 MW de electricidade, a produção seria equivalente à saída total de corrente da Eskom, empresa pública de electricidade sul-africana,.

“A minha preocupação surge no seguimento do projecto da barragem de Cahora Bassa no rio Zambeze, em Moçambique, que produz electricidade, mas cuja transmissão para os clientes na África do Sul não é eficiente,” avisou. “É um desafio transportar a electricidade ao longo de grandes distâncias.

“Depois, há um enorme problema da segurança no que diz respeito às linhas de transmissão gigantes através da República Democrática do Congo, um país em guerra consigo próprio.”

Andrew Kenny, engenheiro independente e comentador sobre questões de energia, disse à IPS que os projectos regionais eram essenciais para o desenvolvimento do abasteciemento de electricidade em África o qual, por sua vez, era essencial para o desenvolvimento.

“As linhas de transmissão que ligam países diferentes são absolutamente indispensáveis. Uma vez que a procura efectiva na maior parte dos países africanos é tão pequena, muitos projectos geradores de electricidade podem fornecer mais energia do que o país necessita, pelo que o excesso deve ser encaminhado para os vizinhos que dela precisem,” defendeu.

“O Grande Inga apenas é possível se for um projecto regional que forneça electricidade a muitos outros países. O mesmo acontece com a grande central  eléctrica a carvão que o Botswana estava a considerar.”

No entanto, avisou que um grande projecto em Inga iria exigir financiamento de muitos bilhões de dólares.

Simon Schaefer, analista sénior de pesquisa e estratégia junto da Frontier Advisory, disse à IPS que partilhava a preocupação sobre a possibilidade de realização de um projecto tão ambicioso numa região  instável de África.

“Penso que o projecto Inga III tem de ser visto no contexto alargado da situação política do país e da região,” declarou. “A República Democrática do Congo está muito fragmentada internamente. Resta saber se o governo em Kinshasa exerce realmente um controlo/poder efectivo sobre todas as zonas do país.”

“A situação política da República Democrática do Congo é instável e o país tem sido descrito muitas vezes como um estado falhado. Outros problemas importantes da República Democrática do Congo são a corrupção desenfreada e a falta de instituições credíveis. Todos estes factores não constituem um ponto de partida ideal para um projecto de muitos biliões de dólares com perspectivas de  investimento a longo prazo.”

John Fraser

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