Salva-vidas afunda ainda mais a Grécia

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Manifestação diante do parlamento grego em protesto contra as medidas de austeridade. Foto: Apostolis Fotiadis/IPS

 

Atenas, Grécia, 13/8/2013 – A Grécia continua desmantelando seu setor público em uma desesperada tentativa de convencer a Troika, formada por Banco Central europeu, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comissão Europeia, a lhe dar um novo resgate em outubro. A Troika quer que o governo grego demita quatro mil funcionários públicos e suspenda outros 12.500 até o final de setembro. Mais 12.500 postos de trabalho serão eliminados até o final deste ano.

O primeiro-ministro, Antonis Samaras, ordenou aos seus ministros que desmantelem rapidamente toda estrutura pública que considerem ineficiente, e que apresentem listas com os nomes das pessoas que serão demitidas ou enviadas ao seguro-desemprego, que tem duração de oito meses, durante os quais o funcionário recebe 75% do salário. Concluído esse prazo, é demitido, se não houver um novo posto para ocupar.

O surpreendente fechamento da televisão pública, em junho, foi o primeiro passo nessa direção, e deixou dois mil trabalhadores na rua. O governo também fechou escolas técnicas que ofereciam cursos de curta duração a famílias de baixa renda, e enviou cerca de dois mil professores ao seguro-desemprego, bem como dois mil seguranças escolares e 3.500 policiais municipais.

Themistocles Kotsyfakis, que dava aula em uma escola técnica sobre fabricação de equipamento médico, também acabou no seguro-desemprego. “Isto não é uma reforma. Não há estudo sobre o fundamento destas medidas, e não foi feito nenhum tipo de avaliação para decidir quem vai e quem fica”, disse à IPS. “Muitos de nós serão demitidos. Ninguém tem o futuro garantido. O seguro-desemprego é um passo para o desemprego”, lamentou.

Enquanto o governo se esforça para alcançar a cota acordada, o ministro da Saúde, Spyridwn Georgiadis, decidiu fechar seis hospitais na região metropolitana de Atenas, por considerá-los ineficazes. Isto deixará cerca de 1.250 médicos sem emprego. Xaralampos Farantos, cirurgião do Hospital Geral de Patisia, no centro da capital, está na lista. O médico afirmou à IPS que a ineficácia dos hospitais é culpa do próprio governo.

“Todos esses hospitais estão sem pessoal médico adequado há muito tempo, devido a acordos anteriores com a Troika que afetaram o setor público”, contou Farantos à IPS. “Os hospitais tiveram que suspender os serviços de emergência porque os pacientes se recusaram a pagar as novas taxas de admissão”, impostas pelas medidas de austeridade, afirmou. “Então, o fato de ter se reduzido o número de atendimentos foi visto como uma prova de nossa ineficácia, e por isso nos incluiu na lista. Foi um método desonesto”, ressaltou.

O governo também estuda o fechamento ou a privatização de três companhias militares e de uma empresa pública produtora de níquel. Isto ajudaria a acrescentar dois mil demitidos à cota. Entretanto, o sacrifício em massa de funcionários públicos ocorre em meio a advertências de que o plano de ajuste não vai funcionar. O FMI admitiu erros de cálculo sobre o custo das reformas e de sua capacidade para recuperar a economia. O FMI reconheceu, em maio, que havia violado três de quatro de suas diretrizes fundamentais ao unir-se ao pacote de resgate liderado pela União Europeia (UE), e revelou que as medidas foram desenhadas, na realidade, para salvar o euro e não para ajudar Atenas.

O atual pacote de resgate para a Grécia terminará na primavera boreal de 2014. Então, este país afundará no desassossego, com um desemprego acima dos 30%. A economia terá sofrido contração superior a 27% desde o começo da crise. Enquanto isso, o futuro grego divide o Ocidente. O FMI e os Estados Unidos são partidários de políticas de desenvolvimento e de geração de empregos, possivelmente incluindo um grande perdão da dívida, mas a União Europeia, liderada pela Alemanha, exige mais austeridade.

O ministro alemão das finanças, Wolfgang Schauble, nega que o programa de austeridade esteja fracassando e, em uma visita a Atenas no mês passado, anunciou um novo plano de medidas para 2014. Crescem os temores de que o Estado grego imploda sob a carga da austeridade, e analistas sugerem que Berlim e a UE teriam um plano B, pelo qual algumas funções básicas do Estado grego ficariam a cargo de seus credores internacionais. O analista político Giannis Kiboyropoulos disse à IPS que o primeiro óbvio sinal desse cenário surgiu no final de julho em um informe do alemão Instituo Kielo para a Economia Mundial.

“Tecnocratas alemães, após mencionarem o óbvio perigo do colapso das reformas na Grécia, propuseram a criação de um comitê independente de dívida que cuidaria da administração pública, do mercado de trabalho, das privatizações, do transporte, da energia, do mercado varejista e das políticas empresariais”, pontuou Kiboyropoulos. Por sua vez, “os representantes da Troika na Grécia advertiram que estenderiam seu controle sobre as instituições responsáveis pelas privatizações e pela recapitalização dos bancos. Não se deve considerar isto uma simples coincidência”, enfatizou Kiboyropoulos. Envolverde/IPS

Apostolis Fotiadis

Apostolis Fotiadis writes for IPS from Athens. He has been covering political issues, particularly migrants’ rights as well as ethnic conflict and population movement in the Balkans. Since 2004, Fotiadis has also written for the national Greek daily Kathimerini and been published in various other regional newspapers. He received his education in history at Aberdeen University and has an interdisciplinary master’s degree in nationalism.