Manama, Bahrein, setembro/2013 – Como se a crise pelo programa nuclear iraniano já não fosse complicada o bastante, Bashar al Assad intensificou ainda mais seu enredo ao lançar armas químicas em subúrbios de Damasco no mês passado. Num instante, o conflito na Síria ofuscou todos os outros fatores relacionados com o Irã.
Para justificar uma resposta militar contra Assad, o governo de Barack Obama utiliza cada vez mais como argumento o provável impacto que uma ação dessas causaria no Irã.
Certamente, castigar Assad, por cruzar a linha vermelha traçada por Obama na questão das armas químicas, tornaria menos provável que o Irã viole os limites impostos por Washington quanto à produção de armas químicas.
A capacidade de dissuasão dos Estados Unidos contra as armas de destruição em massa se veria fortalecida em todo o mundo.
A Coreia do Norte, por exemplo, que possui mais armas químicas do que a Síria, receberia a advertência de que não deve nem mesmo pensar em usá-las em uma provocação contra a Coreia do Sul ou em algum conflito que possa surgir.
Uma represália contra Assad também fortaleceria a confiança dos aliados dos Estados Unidos de que este país os apoia.
No ano passado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, desistiu da ideia de lançar um ataque unilateral contra instalações nucleares iranianas porque se convenceu de que Obama não permitiria que Teerã desenvolvesse armas atômicas.
A fé de Netanyahu crescerá ainda mais se o mandatário norte-americano demonstrar que está disposto e é capaz de utilizar seu poderio militar contra a Síria.
Porém, o que está em jogo não é tanto a credibilidade pessoal de Obama, mas a confiança na capacidade estratégica dos Estados Unidos.
Deixar Assad seguir adiante impunemente poderia destruir a fé de Netanyahu e motivar Israel a lançar um ataque prematuro e contraproducente contra o Irã, o que depois arrastaria os Estados Unidos a uma guerra indesejada.
Por outro lado, uma operação militar liderada pelos Estados Unidos contra a Síria poderia minar as possibilidades de uma solução pacífica para a questão nuclear iraniana.
Uma verdadeira solução para a crise parece impossível, devido à profundidade das diferenças entre os protagonistas: o Irã quer adquirir capacidade nuclear e seus adversários desejam impedi-lo.
As medidas para fomentar a confiança no curto prazo poderiam ser viáveis, agora que Hassan Ruhani está na Presidência, mas mesmo esses passos exigirão que o Irã assuma compromissos, como encerrar as operações na usina de enriquecimento de urânio de Fordow, coisa que até agora descarta por completo.
Ruhani poderia ser duramente pressionado para que convença os setores linha dura em Teerã a aceitarem esses compromissos. Contudo, se os Estados Unidos atacarem seus companheiros de luta na Síria, estes vão querer vingança, não reconciliação.
Os políticos iranianos de linha dura se irritarão se os “assessores” enviados a Damasco pelos Corpos da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) sofrerem perdas no bombardeio.
Alguns integrantes da Força Quds (unidade de elite dos CGRI) poderiam ficar presos no conflito sírio. Isto poderia desencadear uma resposta assimétrica por parte de Teerã.
Já existe um informe segundo o qual os CGRI instruíram milícias associadas no Iraque para atacarem interesses de Washington, se os Estados Unidos lançarem uma operação militar contra a Síria.
O Irã não vai querer ser arrastado para uma guerra com os Estados Unidos por causa da Síria, mas, de todo modo, poderia haver uma involuntária escalada da tensão.
Por mais que Ruhani se oponha a qualquer ação que possa derivar em um conflito com os Estados Unidos, ele não controla os CGRI. Estes, no mínimo, redobrarão seu fornecimento de armas às forças de Assad, usando espaço aéreo e estradas do Iraque.
Uma das razões para limitar os ataques norte-americanos contra a Síria é o impacto que podem ter no Irã. E, em todo caso, devem ser proporcionais ao crime de Assad.
Ruhani, provavelmente, já ouviu, diretamente do ex-diplomata Jeffrey Feltman, agora subsecretário da Organização das Nações Unidas para Assuntos Políticos e que visitou Teerã na semana passada, que os ataques norte-americanos não estão dirigidos contra interesses iranianos.
Essa mensagem deve ser repetida e cumprida. O Irã não constitui uma razão para deixar de castigar Assad, mas sim para evitar uma escalada.
É o Irã, e não os Estados Unidos, o país que se arrisca a perder mais com o conflito sírio. O apoio de Teerã à brutalidade de Assad o coloca no papel de vilão perante todo o mundo sunita.
Suas pretensões de que a Revolução Islâmica de 1979 tenha sido a precursora da Primavera Árabe demonstraram ser abertamente hipócritas.
E agora o massacre de Assad com armas químicas contra mulheres e crianças exacerbou as divisões dentro do próprio Irã. O ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanyani (1989-1997) acusou o governo sírio.
O povo iraniano sabe que o armamento e o apoio financeiro que seu governo dá a Assad consomem dinheiro cada vez mais precioso diante das sanções internacionais impostas contra Teerã.
Em muitos sentidos, a Síria se converteu no Vietnã do Irã: um atoleiro do qual aparentemente não há como escapar.
O dilema do Irã na Síria dá uma vantagem aos Estados Unidos. A melhor opção de Teerã é apostar em uma solução negociada da crise síria.
Ao se considerar a maior potência da região, o Irã sempre quis ser parte de qualquer conversação de paz sobre a Síria. Agora, mais do que nunca, deseja desesperadamente somar-se à conferência de Genebra II, como forma de sair de seu próprio aperto.
Obama talvez tenha dificuldades para levar as fracionadas forças opositoras sírias às conversações de paz, mas tem o poder de dizer sim ou não à participação do Irã.
Até agora, se impõe o principal argumento para não convidar o Irã: esse país é parte do problema. Entretanto, os iranianos também podem ser parte da solução, entre outras razões, porque têm influência sobre Assad.
O desejo de Teerã de estar em Genebra II é um dos motivos pelos quais os ataques aéreos dos Estados Unidos contra a Síria não deveriam deter por muito tempo as negociações sobre o programa nuclear iraniano.
Obama deve usar a carta síria para fazer o Irã se envolver significativamente em temas que são de grande importância para os dois países. Envolverde/IPS
* Mark Fitzpatrick é diretor do Programa de Não Proliferação e Desarmamento no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), com sede em Londres. É autor do livro The Iranian Nuclear Crissis: Avoiding Worst-Case Outcomes (A Crise Nuclear Iraniana: Evitando os Piores Resultados) e editor, entre outros, de Iran’s Nuclear, Chemical and Biological Capabilities (As Capacidades Nucleares, Químicas e Biológicas do Irã).

