Da sanita para a torneira na cidade onde a água escasseia

KWAZULU-NATAL, África do Sul,  Outubro de 2013 (IPS) – Dentro de poucos anos, os habitantes da municipalidade de eThekwini, na cidade portuária de Durban, na África do Sul, poderão beber água que outrora era descarregada na sanita, uma vez que as autoridades planeiam reciclar alguns dos esgotos da municipalidade e purificá-los de acordo com os padrões de qualidade da água potável.

O sistema fluvial do Rio Umgeni fornece água potável a cerca de cinco milhões de pessoas na cidade de Durban, África do Sul. Mas nos últimos sete anos o consumo de água ultrapassou a oferta. Nesta fotografia podemos ver as Quedas de Água de Howick, no Rio Umgeni. Crédito: Brendon Bosworth/IPS

O sistema fluvial do Rio Umgeni fornece água potável a cerca de cinco milhões de pessoas na cidade de Durban, África do Sul. Mas nos últimos sete anos o consumo de água ultrapassou a oferta. Nesta fotografia podemos ver as Quedas de Água de Howick, no Rio Umgeni. Crédito: Brendon Bosworth/IPS

“Sentimos uma escassez crítica de água, que aumenta devido à procura de água em eThekwini,” disse à IPS Speedy Moodliar, director sénior de gestão de água e saneamento.

A municipalidade depende do sistema fluvial do rio Umgeni para obter água. Mas a procura imposta ao sistema, que fornece água potável para cerca de cinco milhões de pessoas e alimenta o sector industrial nos centros económicos de Durban e Pietermaritzburg, uma cidade a 66 quilómetros da costa, excedeu o abastecimento de água nos últimos sete anos.

Para reforçar o abastecimento no futuro, o governo sul-africano propôs a construção de uma barragem com capacidade para 250 milhões de metros cúbicos no rio uMkhomazi, o terceiro maior rio no KwaZulu-Natal, assim como a transferência de água para o sistema do rio Umgeni.

Mas este programa só estará operacional em 2024 no mínimo, afirmou Moodoliar. “Entre o presente e a altura em que o [projecto] de UMkhomazi começar a funcionar, o reaproveitamento das [águas residuais] será a nossa medida de mitigação.”

Em países secos como Israel, Egipto e Austrália, as águas residuais tratadas são usadas pela indústria, arranjos paisagísticos e agricultura. Mas são poucos os países no mundo que as utilizam directamente como fonte de água potável.

Singapura usa águas residuais purificadas para satisfazer 30 por cento das suas necessidades hídricas, embora só uma pequena percentagem seja usada como água potável e a maioria seja usada pela indústria. Há mais de 40 anos que os cidadãos de Windhoek, a capital da vizinha Namíbia, no noroeste da África do Sul, bebem águas residuais recicladas.

Em 2011, depois de uma intensa seca, a municipalidade de Beaufort West, que serve mais de 50.000 pessoas, começou a tratar dos seus esgotos de forma que os mesmos pudessem ser usados como água potável, sendo a primeira municipalidade a fazê-lo na África do Sul. Segundo um relatório do Banco Mundial de 2012 intitulado “O futuro da água nas cidades africanas: porquê desperdiçar água?”, poucas cidades em África têm estações para o tratamento de águas residuais e “apenas uma pequena percentagem das águas residuais é recolhida, e uma fracção ainda mais reduzida é tratada.”

A municipalidade de eThekwini pretende modernizar duas das suas estações de tratamento de águas residuais existentes com fraco desempenho, as estações de KwaMachu e Northern, explicou Moodliar.

A remoção de contaminantes e a limpeza da água de acordo com normas de qualidade para a água potável exige um sistema de três etapas que trata os efluentes com ultra-filtração e osmose inversa, e ainda com desinfecção com luz ultravioleta e cloro. A água tratada pode depois ser armazenada e testada antes de ser libertada.

A água purificada será misturada com água potável convencional na proporção de 30 por cento de água reaproveitada para 70 por cento de água convencional, asseverou Moodliar. Irá alimentar as regiões a norte da municipalidade, incluindo Umhlanga, Durban North, Reservoir Hills, e KwaMashu.

O reaproveitamento das águas residuais desta forma irá adicionar 116 megalitros de água canalizada ao abastecimento diário da municipalidade, o suficiente para encher um pouco mais do que 46 piscinas Olímpicas. Trata-se de aproximadamente 13 por cento do consumo diário da municipalidade e irá proporcionar sete anos de segurança hídrica.

Embora a produção de água potável através da reciclagem de águas residuais seja mais dispendiosa – cerca de 75 cêntimos por quilolitro comparado com os 50 cêntimos por quilolitro no tratamento convencional – a municipalidade acredita que esta é “a melhor solução,” explicou Moodliar.

A municipalidade tem apregoado a eficácia e segurança do sistema proposto mas há oposição a este projecto, incluindo a apresentação de uma petição com 5.000 assinaturas durante o processo de participação no ano passado.

Os cidadãos manifestaram preocupações acerca da segurança do consumo de água reaproveitada. “A reciclagem de água proveniente de sanitas em água potável é uma pena de morte imposta ao público em geral devido ao seu impacto na saúde,” escreveu Jennifer Bohus num email enviado ao Golder Associates, a empresa que produziu o relatório básico de avaliação da proposta de reciclagem das águas residuais.

No entanto, a municipalidade insiste que a água sera boa para beber.

“A tecnologia é suficientemente avançada para garantir que a qualidade da água reciclada é elevada,” disse à IPS Graham Jewitt, Director do Centro de Investigação dos Recursos Hídricos da Universidade do KwaZulu Natal, e Director de Gestão dos Recursos Hídricos das Águas Umgeni, companhia estatal. “Muitas cidades em todo o mundo usam água reciclada.”

“Cerca de 14 por cento do consumo de água na África do Sul é efectivamente água que é reutilizada, na sua maioria indirectamente,” afirmou à IPS Niel van Wyk, Engenheiro-Chefe do Departamento de Assuntos Hídricos, responsável pelo planeamento estratégico dos recursos hídricos no KwaZulu-Natal.

Os cidadãos que se opõem ao projecto também afirmam que a municipalidade, que perde 36 por cento da sua água anualmente, em larga medida devido a fugas e ligações ilegais, deve centrar a sua atenção em arranjar os canos com fugas. Outros propõem o investimento em instalações de dessalinização de água do mar, como alternativa.

O potencial para sucção da água do mar do Oceano Índico e respectiva conversão em água doce para a região está a ser investigado neste momento. Mas o processo de dessalinização da água do mar, que implica o bombeamento de água salgada a uma pressão elevada através de uma membrana semi-permeável que retém o sal e permite a passagem da água, continua a ser dispendioso.

As Águas Umgeni, companhia estatal e a maior empresa de abastecimento de água potável em grande quantidade no KwaZulu-Natal, está a fazer um estudo de viabilidade para duas instalações de dessalinização: uma na costa sul adjacente ao Rio Lovu, e outra na costa norte perto de Tongaat, disse à IPS Shami Harichunder, responsável pela gestão das partes interessadas empresariais das Águas Umgeni.

Se forem construídas, estas instalações serão as maiores operações de dessalinização no país, cada uma delas capaz de produzir 150 megalitros de água por dia. Em comparação, a maior instalação de dessalinização na África do Sul em Mossel Bay, no Cabo meridional, só produz uma décima parte dessa quantidade.

O custo de construção das propostas instalações pode rondar os 300 milhões de dólares, segundo Harichunder. As componentes tecnológicas necessárias, como bombas de alta pressão, são dispendiosas.

No entanto, as instalações de dessalinização podem ser construídas mais rapidamente do que as grandes barragens e infra-estruturas de transferência, podendo também ser aumentadas no futuro caso seja necessário, afirmou van Wyk, do Departamento de Assuntos Hídricos.

O estudo de viabilidade das Águas Umgeni deverá estar concluído em Dezembro deste ano. E a viabilidade de construção das instalações de dessalinização pode ser comparada à proposta de construção de uma barragem no rio uMkhomazi, afirmou Harichunder.

 

Brendon Bosworth

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