México e o redescobrimento da América do Sul

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Cidade do México, México, outubro/2013 – Cuauhtémoc Cárdenas, conhecido como o líder moral da esquerda mexicana, afirma que seu país e a América Central têm “o olhar muito voltado para o Norte” e deveriam se voltar para a América do Sul e seus processos de integração, para dispor de condições de desenvolvimento alternativas e não dependentes.

O fundador e dirigente do Partido da Revolução Democrática (PRD), ex-senador e ex-chefe de governo do Distrito Federal, é filho de Lázaro Cárdenas, o general revolucionário e presidente do México (1934-1940), que em 1938 nacionalizou a indústria petroleira. Durante visita oficial a Roma, Cárdenas concedeu entrevista exclusiva à IPS e falou sobre os riscos que representa a recente abertura privatizadora do atual governo de Enrique Peña Nieto no setor dos hidrocarbonos.

IPS: Nas eleições de junho de 2012, o PRD ficou em segundo lugar, a poucos pontos do ganhador, o Partido Revolucionário Institucional (PRI), e se mantém como uma alternativa de governo nas próximas eleições.

CUAUHTÉMOC CÁRDENAS: Enquanto o PRD não superar problemas internos e mudar a forma de condução partidária, não vejo possibilidades de que se possa constituir, por si ou por atração a outros setores, uma maioria política e chegar ao governo nacional. Creio que é preciso trabalhar mais nas zonas onde a votação foi baixa, abrir sua organização e deixar de lado práticas sectárias. De outro modo, não vejo o PRD se recuperando e voltando a ser uma opção de caráter nacional. 

IPS: Na América do Sul há uma grande maioria de governos esquerdistas ou de centro-esquerda, como o PRD, de modo que, se este chegasse ao governo do México, praticamente teríamos mandatários afins do rio Bravo até a Terra do Fogo, com consequências internacionais notáveis, como em relação ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN), entre México, Estados Unidos e Canadá.

CC: O TLCAN me parece que já deu o que podia dar de positivo, pois houve um importante aumento das exportações, principalmente nas partes do norte do país. Por outro lado, teve um efeito desindustrializador em muitos setores: atingiu fortemente a pequena e média indústria e também a agricultura. São necessários esforços concretos para recuperar produtivamente a agricultura e a indústria pequena e média quanto a uma melhor integração das cadeias produtivas. Teria que ser introduzido um adendo ao acordo para dotá-lo de instrumentos como os criados aqui na Europa quando começou a integração, como os fundos de compensação para reduzir ou eliminar assimetrias entre as diferentes economias nacionais, bem como outros meios que diminuam a disparidade entre países, como Estados Unidos e Canadá em relação ao México. Um aspecto muito importante teria que ser a aceitação da mobilidade trabalhista, pois, assim como o livre trânsito de mercadorias entre os três países, também deve haver liberdade de movimento de trabalhadores e pessoas pelas fronteiras.

IPS: O México deveria se aproximar do sul do continente?

CC: O México está muito distante, em termos gerais, em relação ao Sul de seu território. E dali nos veem como parte do Norte em muitos aspectos e se pensa que o país não se integrará aos processos sul-americanos. Para que o México possa ter outras condições de desenvolvimento, é indispensável maior aproximação a esses processos, sejam Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que ainda precisa se redefinir, ou União de Nações Sul-Americanas (Unasul), embora neste caso se trate apenas dos 12 países da América do Sul. Temos que buscar melhor integração com o Sul e também convencer a América Central a se aproximar mais do Sul porque está muito voltada para o Norte. Além disso, devemos participar mais ativamente do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela), no qual o México é observador, pois sabemos que os grandes blocos econômicos são os que melhor se inserem nos processos de globalização. O México não deve estar inserido somente no Norte sob as atuais condições de dependência.

IPS: O que propõe em relação aos Estados Unidos e ao problema de emigração mexicana?

CC: Devemos conseguir que tanto o Estado quanto a sociedade norte-americanos reconheçam a valiosa contribuição dos imigrantes, sem os quais os Estados Unidos não poderiam funcionar. O reconhecimento, quer dizer, talvez não a cidadania ou ter os direitos políticos que tem todo cidadão norte-americano, mas ao menos os direitos trabalhistas e civis.

IPS: O presidente Peña Nieto recentemente propôs a abertura da nacionalizada indústria petroleira ao capital privado. Concorda com isso?

CC: O governo propõe reformar ao Artigos 27 e 28 da Constituição, o que abriria a possibilidade, embora não fosse a intenção do governo, que as empresas Petróleos Mexicanos (Pemex) e a Comissão Federal de Eletricidade, que são os principais órgãos do Estado na área energética, possam ser deslocadas, perdendo a condição de setores estratégicos reconhecida pela Constituição. Isso seria grave porque, se simplesmente forem eliminados esses artigos da Constituição, a eletricidade e o petróleo ficariam automaticamente sujeitos ao que estabelece o TLCAN e teríamos de um dia para outro competição isenta de controles em matéria de hidrocarbonos. Até onde entendo, todos os países, por mais abertura que façam nesses setores, mantêm controles, que nesse caso, do ponto de vista legal, seriam perdidos.

IPS: A Cidade do México, conhecida na história como “a região mais transparente do ar”, chegou a ser uma das cidades mais contaminadas do mundo. A situação melhorou sob o governo local do PRD?

CC: Melhorou. Primeiro porque há melhor regulamentação e maior exigência de cumprimento das normas ambientais, e também porque foi modernizado o parque automobilístico, que é a principal fonte de poluição, embora tenhamos uma condição natural difícil devido à barreira montanhosa que existe ao sul. Contudo, há uma clara melhoria quanto à poluição atmosférica no vale do México. Envolverde/IPS

Pablo Piacentini

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