TERRAMÉRICA – A caminho da revolução energética

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As grandes centrais hidrelétricas planejadas pelo Brasil, como a de Santo Antônio, são apenas um dos componentes da revolução energética que esse país protagonizará nas próximas décadas. Foto: Mario Osava/IPS

O Brasil será protagonista de grandes mudanças energéticas nas próximas duas décadas, em grande parte pela exploração de suas fabulosas jazidas de petróleo em águas profundas, diz o último informe da Agência Internacional de Energia.

Varsóvia, Polônia, 18 de novembro de 2013 (Terramérica).- O consumo e a produção de energia estão vivendo transformações radicais, mas o clima do planeta continua se dirigindo para um aumento de temperatura de 3,6 graus, afirma um informe divulgado durante a conferência sobre mudança climática da Organização das Nações Unidas (ONU), na capital da Polônia.

O Brasil desempenhará um papel crucial para acalmar a crescente sede por petróleo dos países em desenvolvimento, afirma a edição 2013 das Perspectivas da Energia no Mundo, elaborada pela Agência Internacional de Energia (AIE). A projeção chega até 2035 e estabelece que, nessa ocasião, o grosso do crescimento do consumo de petróleo e gás se mudará para a Índia e os países do sudeste a asiático e do Oriente Médio.

Apesar de, em 2035, as fontes de energia renováveis e nuclear, que emitem baixa quantidade de dióxido de carbono (CO2), estarem abastecendo cerca de 40% do crescimento da demanda mundial, as emissões de CO2 do setor energético serão 20% mais altas. E isso presumindo que os países cumprirão todos seus compromissos de redução até 2020. O Canadá, por exemplo, não o conseguirá.

É necessário que as emissões cheguem ao seu pico em 2020 e a partir daí passem a diminuir para que seja possível manter o aumento da temperatura do planeta em menos de dois graus, segundo o Informe Gap 2013, divulgado no dia 5 deste mês pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

“Se permanecermos no rumo atual, não nos aproximaremos do objetivo de limitar o aumento a dois graus”, afirmou Maria van der Hoeven, diretora-executiva da AIE, em um comunicado que foi divulgado, no dia 12 deste mês, durante a 19ª Conferência das Partes (COP 19) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que se estenderá até o dia 22, em Varsóvia, na Polônia.

Os subsídios para combustíveis fósseis, cujo custo global chegou em 2012 a US$ 544 bilhões, são o principal estímulo para cruzar o umbral dos dois graus. Essas subvenções governamentais mantêm os preços artificialmente baixos e afetam os êxitos na redução do consumo por maior eficiência e na adoção de fontes renováveis, diz o informe da AIE.

“Na Bolívia, o diesel, a gasolina e o gás natural estão fortemente subsidiados, por isso é quase impossível trabalhar com fontes renováveis”, apontou Dirk Hoffmann, diretor do Instituto Boliviano da Montanha em La Paz, na Bolívia. “O transporte também está muito orientado para os automóveis individuais, e os números aumentam rapidamente”, afirmou Hoffmann ao Terramérica.

O informe da AIE dedica um capítulo especial ao Brasil, pois estima que se converterá em uma superpotência energética mundial. Suas enormes jazidas submarinas, de petróleo e gás em águas profundas, responderão por um terço do crescimento da oferta mundial de petróleo até 2035, e o país se converterá no sexto maior produtor mundial.

A demanda primária de energia crescerá 80%, e o consumo elétrico duplicará graças a uma classe média muito maior. A chave para sustentar esse desenvolvimento será a capacidade do país para obter grandes investimentos, de aproximadamente US$ 90 bilhões por ano. Com tudo isso, a pegada de carbono do Brasil continuará sendo baixa. Atualmente, 43% de sua energia procede de fontes renováveis, principalmente a hidráulica, seguida da biomassa e dos agrocombustíveis.

O Brasil também experimentará grande crescimento em agrocombustíveis e energia eólica. O Plano Decenal de Expansão de Energia prioriza a hidroeletricidade, a energia eólica e a biomassa. Espera-se que, até 2020, a expansão desses setores reduza as emissões projetadas em 234 milhões de toneladas de CO2, pontuou ao Terramérica uma fonte do governo em Brasília. “Combinadas, as centrais eólicas, as térmicas, a biomassa e as pequenas hidrelétricas duplicarão sua participação, de 8% para 16%”, destacou.

A América Latina poderia funcionar com 100% de energia renovável, segundo vários estudos, incluindo a exaustiva Global Energy Assessment 2012. Até 2050, as fontes renováveis poderão atender entre 60% e 100% das necessidades energéticas da região, garante esse informe. Entretanto, se forem excluídas as grandes hidrelétricas, menos de 10% da energia na América do Sul é obtida de fontes renováveis.

Embora quase todos os países afirmem querer desenvolver as fontes limpas, os subsídios aos combustíveis fósseis distorcem o mercado, segundo uma análise comparativa das condições institucionais e técnicas relevantes para a integração da energia renovável na América do Sul.

O estudo foi elaborado por especialistas da Alemanha, Bolívia, Chile e Brasil e diz que esses subsídios são muito maiores do que os incentivos ou os benefícios impositivos criados para fomentar o desenvolvimento de fontes renováveis. Outra dificuldade é atrair investimentos, sobretudo estrangeiros, para as fontes renováveis. São necessários melhores regulamentações e incentivos para responder às mutantes condições do mercado global, diz o informe.

Espera-se que o tratado sobre mudança climática que a comunidade internacional deve adotar a partir de 2015 acelere o processo sul-americano para uma matriz energética mais verde, limpa e diversificada. Fatores domésticos, como os custos e impactos crescentes dos combustíveis fósseis, podem aumentar o interesse em um modelo energético baixo em carbono, conclui o documento. (Envolverde/Terramérica)

* O autor é correspondente da IPS.

 

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Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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